{"id":12738,"date":"2014-03-23T00:00:00","date_gmt":"2014-03-23T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:14:08","modified_gmt":"2017-09-15T19:14:08","slug":"o-melhor-pai-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-melhor-pai-do-mundo\/","title":{"rendered":"O melhor pai do mundo"},"content":{"rendered":"<p>Gilberto, um cinquent\u00e3o aprumado, chegou em casa feliz da vida.<\/p>\n<p>Foi direto ao quarto da filha Belinha, a adorada e idolatrada princesinha do lar doce lar.<\/p>\n<p>Queria lhe fazer uma surpresa.<\/p>\n<p>Equilibrava nas m\u00e3os cuidadosamente um embrulho feito com capricho pela mo\u00e7a da loja. Era um iphone, \u201c\u00faltimo tipo\u201d, que acabara de lhe comprar. Um mimo a mais para sua \u2018joia rara\u2019 que dias antes completara 18 anos.<\/p>\n<p>Logo, logo, vira um mulhera\u00e7o, pensou.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Entrou no dormit\u00f3rio na ponta dos p\u00e9s para lhe surpreender.<\/p>\n<p>Estranhou a aus\u00eancia. Mas ficou um tantinho feliz.<\/p>\n<p>Faria como sempre fez, desde os tempos em que era uma garotinha de la\u00e7os na cabe\u00e7a, rechonchuda, lindinha de tudo.<\/p>\n<p>Deixaria o pacote na cama \u2013 e esperaria pela recompensa, beijos e mais beijos e abra\u00e7os, na sala de estar, com ares de quem nada soubesse, e nada esperasse.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Nem bem terminara de deixar o presente sobre cama, ouviu rumores que<br \/>\nvinham do banheiro contiguo.<\/p>\n<p>A porta entreaberta. O barulho da \u00e1gua do chuveiro&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o eram exatamente rumores e, sim, gemidos.<\/p>\n<p>Olhou ao redor, viu roupas espalhadas pelo ch\u00e3o \u2013 inclusive uma bermuda rid\u00edcula, com desenhos e listas dispares, e um t\u00eanis de skatistas que n\u00e3o compunha exatamente o grau de eleg\u00e2ncia da menina.<\/p>\n<p>N\u00e3o quis acreditar que&#8230;<\/p>\n<p>Que o tal do Duz\u00e3o, que o chamou de tio nas poucas vezes que o encontrou, agora estava ali. No bem bom com a sua princesa.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Pensou em chutar a porta e acabar com aquela pouca vergonha.<\/p>\n<p>Os olhos ficaram nublados, sentiu uma tontura e uma fincada no peito.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, n\u00e3o quis acreditar.<\/p>\n<p>Num \u00edmpeto, saiu dali. Sem fazer ru\u00eddo, sem deixar vest\u00edgio.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Jogou-se no sof\u00e1, sem nada pensar.<\/p>\n<p>Estava confuso.<\/p>\n<p>Nancy, a esposa, nada lhe dissera.<\/p>\n<p>Talvez tamb\u00e9m ela n\u00e3o soubesse de nada. Ou se soubesse, poderia achar a coisa mais natural do mundo.<\/p>\n<p>Decididamente, nunca soube lidar com esse jeit\u00e3o liberal da esposa. Inclusive na educa\u00e7\u00e3o da filha.<\/p>\n<p>Da\u00ed, a situa\u00e7\u00e3o que agora vivia. Que constrangimento, que decep\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Estava assim t\u00e3o envolvido com seus pensamentos, nem percebeu que Belinha invadira a sala e, novo celular em punho, agora se atirava sobre ele. Beijos e abra\u00e7os que quase o sufocaram. Ela ria e agradecia:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 o melhor pai do mundo.<\/p>\n<p>Cabelo molhado, shortinho de jeans a destacar as volumosas pernas, era sua menina de volta. Sentiu-se em paz. Como sempre nessas horas, deixava-se tomar por um encantamento \u00fanico.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Tudo estaria perfeito.<\/p>\n<p>N\u00e3o fosse aquele vulto, na porta da sala, com aquela bermuda rid\u00edcula e o bonezinho de mentecapto naquela cabeleira cheia de drads.<\/p>\n<p>Era Duz\u00e3o, indiferente a toda aquela cena e avisando:<\/p>\n<p>&#8211; Amanh\u00e3 eu volto&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gilberto, um cinquent\u00e3o aprumado, chegou em casa feliz da vida.<\/p>\n<p>Foi direto ao quarto da filha Belinha, a adorada e idolatrada princesinha do lar doce lar.<\/p>\n<p>Queria lhe fazer uma surpresa.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-12738","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12738","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12738"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12738\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15282,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12738\/revisions\/15282"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12738"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12738"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12738"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}