{"id":12769,"date":"2014-04-28T00:00:00","date_gmt":"2014-04-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:14:04","modified_gmt":"2017-09-15T19:14:04","slug":"meu-nome-e-pablo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/meu-nome-e-pablo\/","title":{"rendered":"Meu nome \u00e9 Pablo"},"content":{"rendered":"<p>Pablo. Este \u00e9 meu nome&#8230;<\/p>\n<p>Meu saudoso pai (que Deus o aben\u00e7oe onde quer que esteja) cismou de me dar esse nome, estrangeiro e esquisito.<\/p>\n<p>Dizia ele que foi por causa de um espanhol que andou pelos cant\u00f5es da Serra da Bocaina quando ele era menino. O cara veio numa tal de expedi\u00e7\u00e3o para estudar as plantas e os bichos deste esquecido lugar do Brasil.<\/p>\n<p>Tinha fama de s\u00e1bio.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Para todos, ele dava aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Queria que as pessoas cuidassem dos rios, das cachoeiras, dos animais, das matas.<\/p>\n<p>Dizia que ali era uma esp\u00e9cie de para\u00edso.<\/p>\n<p>Ficou l\u00e1 por uns tempos \u2013 e se tornou uma esp\u00e9cie de guia dos bocaneiros, como meu pai.<\/p>\n<p>O velho, ali\u00e1s, sempre recordava \u201co gringo que entendia das coisas do lugar s\u00f3 de ler nos livros\u201d. <\/p>\n<p>Sabia mais daquelas terras do que aqueles rudes homens que ali habitavam.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Um belo dia, ele e sua turma seguiram viagem nas trilhas das Minas Gerais.<\/p>\n<p>A lembran\u00e7a do homem virou lenda naquelas paragens. Uma esp\u00e9cie de her\u00f3i daquela caboclada humilde e perdida no mund\u00e3o de meu Deus.<\/p>\n<p>Ainda hoje se bater com os costados por l\u00e1, vai ouvir os feitos do espanhol nas conversas ao redor da fogueira em noite de c\u00e9u estrelado.<\/p>\n<p>IV. <\/p>\n<p>O pai era garoto \u2013 e o distinto Autor sabe como s\u00e3o os garotos!<\/p>\n<p>Ficou impressionado.<\/p>\n<p>Queria ser igual ao Pablo, ler muitos livros, saber do mundo e das pessoas.<\/p>\n<p>Mas, largo naquele fim de mundo, s\u00f3 lhe coube o dia a dia da ro\u00e7a. Do plantar e do colher. Do colher e do plantar \u2013 a \u00e1rdua rotina de sua sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando se foi desta pra outra vida, s\u00f3 sabia mal e mal assinar o pr\u00f3prio nome.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Pois  ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Um pouco deste sonho sonhado, ele realizou no dia em que nasci.<\/p>\n<p>N\u00e3o teve d\u00favidas, caminhou l\u00e9guas e l\u00e9guas at\u00e9 o cart\u00f3rio de S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro (povoado ao p\u00e9 da Serra) com alegria no cora\u00e7\u00e3o e uma \u00fanica certeza: o filho se chamaria Pablo.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Imagino, tenho quase certeza, viu seo Autor, que o sonho dele \u00e9 que eu fosse igual ao homem que tanto o encantou quando crian\u00e7a. <\/p>\n<p>Mas, dei de correr atr\u00e1s de bola, minha paix\u00e3o desde garotinho.<\/p>\n<p>N\u00e3o importava de cabular as aulas da professorinha da escola de madeira. Ou mesmo, quando nas partidas que disput\u00e1vamos nos campinhos improvisados, a bola e a nossa correria estragava as plantas e espantava os animais.<\/p>\n<p>O pai ralhava com a gente. Amea\u00e7a bater com as varas de marmelo.<\/p>\n<p>Ficava triste que s\u00f3.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Nessas, virei jogador de futebol<\/p>\n<p>E veja ironia, seo Autor&#8230;<\/p>\n<p>Fui jogar na Espanha, a terra do homem.<\/p>\n<p>Mas, para a minha surpresa, ningu\u00e9m por l\u00e1 conhece o tal Pablo das plantas e dos bichos.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>\u00d4 mundo estranho!<\/p>\n<p>Quando fa\u00e7o gols e corro para comemorar com a torcida, vejo nos olhos da meninada o mesmo encanto dos olhos do pai quando falava do gringo.<\/p>\n<p>Fico imaginando, se no futuro, alguns desses garotos derem o nome de Pablo aos filhos por causa das minhas jogadas e dos meus feitos.<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Imagino a decep\u00e7\u00e3o do menino, se algum dia vier ao Brasil, orgulhoso do nome e perguntar por mim&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; Vai viver a decep\u00e7\u00e3o que hoje vivo.<\/p>\n<p>Na minha pr\u00f3pria terra, ningu\u00e9m me conhece.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pablo. Este \u00e9 meu nome&#8230;<\/p>\n<p>Meu saudoso pai (que Deus o aben\u00e7oe onde quer que esteja) cismou de me dar esse nome, estrangeiro e esquisito.<\/p>\n<p>Dizia ele que foi por causa de um espanhol que andou pelos cant\u00f5es da Serra da Bocaina quando ele era menino.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-12769","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12769","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12769"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12769\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15251,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12769\/revisions\/15251"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12769"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12769"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12769"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}