{"id":12772,"date":"2014-05-01T00:00:00","date_gmt":"2014-05-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:14:04","modified_gmt":"2017-09-15T19:14:04","slug":"para-sempre","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/para-sempre\/","title":{"rendered":"Para sempre&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Trabalhamos sob tens\u00e3o naquela semana.<\/p>\n<p>O jornal sairia na sexta. T\u00ednhamos, portanto, algum tempo para preparar as p\u00e1ginas \u2013 duas \u2013 sobre o ocorrido na manh\u00e3 de domingo e a repercuss\u00e3o da trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>A turma da Reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado sempre foi t\u00e3o barulhenta, debochada, risonha. <\/p>\n<p>N\u00e3o se sentia assim naqueles dias.<\/p>\n<p>Ainda est\u00e1vamos em choque, perplexos, com o que vimos diante da tela da TV.<\/p>\n<p>Alguns ainda n\u00e3o queriam acreditar nas cenas que, por fim, abalaram o Pa\u00eds inteiro \u2013 e, h\u00e1 quem diga, ainda mexem com quem sequer era nascido naqueles idos.<\/p>\n<p>1\u00ba de maio de 1994 \u2013 o Brasil perde sua maior refer\u00eancia esportiva.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1vamos conta de atender as solicita\u00e7\u00f5es dos leitores. Todos queriam manifestar seu pesar, sua tristeza.<\/p>\n<p>Lembro os meus caros cinco ou seis leitores que, \u00e0 \u00e9poca, n\u00e3o havia internet, redes sociais e assemelhados tecnol\u00f3gicos. Por isso, receb\u00edamos caudalosas cartas, mensagens, telegramas, bilhetes; a maioria entregue pessoalmente no af\u00e3 de que n\u00e3o se perdesse a chance de v\u00ea-los publicados. <\/p>\n<p>\u201cA Na\u00e7\u00e3o est\u00e1 ao desamparo\u201d, algu\u00e9m falou.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Abrimos duas p\u00e1ginas para a cobertura do fato e dos funerais.<\/p>\n<p>Deixamos um bom espa\u00e7o para as manifesta\u00e7\u00f5es dos leitores \u2013 tr\u00eas colunas de cima a baixo da segunda p\u00e1gina, se bem me lembro.<\/p>\n<p>Fomos obrigados a selecionar os melhores textos, seguindo crit\u00e9rios jornal\u00edsticos.<\/p>\n<p>Muitos se repetiam no relato do desamparo e da dor.<\/p>\n<p>Muitos ficaram de fora.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos uma quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Como seria a manchete?<\/p>\n<p>Por ser um jornal semanal, vez ou outra ocorria tal impasse. N\u00e3o pod\u00edamos repetir \u2013 ou nos mostrar exageradamente influenciados pelas \u2013 outras chamadas j\u00e1 consagradas pelos jornais e ve\u00edculos noticiosos que nos precediam nas bancas.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Risca daqui, rabisca dali \u2013 nada nos satisfazia.<\/p>\n<p>N\u00e3o me recordo se foi o Ruggiero (colunista de teatro) ou o Ismael (de TV e cinema) que lembrou o t\u00edtulo de um belo filme italiano: N\u00f3s Que Nos Am\u00e1vamos Tanto.<\/p>\n<p>Fez-se um sil\u00eancio na grande sala de piso assoalhado e janel\u00f5es para a rua Bom Pastor.<\/p>\n<p>(Desconfio que at\u00e9 o tr\u00e2nsito pesado parou na expectativa do que far\u00edamos.)<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Ousei fazer a adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Datilografei na lauda, em caixa alta:<\/p>\n<p>\u201cN\u00d3S QUE LHE AM\u00c1VAMOS TANTO\u201d<\/p>\n<p>Li em voz alta.<\/p>\n<p>Gostei.<\/p>\n<p>Gostaram tamb\u00e9m, mas n\u00e3o era exatamente o que quer\u00edamos.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Foi o grande Escova que sugeriu a mudan\u00e7a, um breve reparo:<\/p>\n<p>\u2018N\u00d3S QUE TE AM\u00c1VAMOS TANTO\u201d<\/p>\n<p>\u00c0s favas com os rigores da gram\u00e1tica. Era mais direto e reto. Com tom coloquial.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>E foi assim \u2013 com esta manchete &#8211; que o jornal circulou na manh\u00e3 de sexta, dia 6 de maio de 1994.<\/p>\n<p>Letras garrafais, como se dizia ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Sobre as tais, a foto rasgada, p\u00e1gina inteira, do inesquec\u00edvel Ayrton Senna (para sempre) do Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trabalhamos sob tens\u00e3o naquela semana.<\/p>\n<p>O jornal sairia na sexta. 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