{"id":12777,"date":"2014-05-06T00:00:00","date_gmt":"2014-05-06T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:14:03","modified_gmt":"2017-09-15T19:14:03","slug":"saudade-do-ac","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/saudade-do-ac\/","title":{"rendered":"Saudade do AC"},"content":{"rendered":"<p>Vejo o senhor caminhar pela cal\u00e7ada. Deve ter a minha idade. Pouco mais, pouco menos, por a\u00ed. Bermud\u00e3o, chinelos, camiseta folgada, saquinho de p\u00e3es em uma das m\u00e3os. A essa hora da manh\u00e3, eu a caminho do trabalho, dentro do carro, tr\u00e2nsito parado, bate uma \u2018invejinha\u2019 do sossego que me passa. Penso nos compromissos que me esperam, na jornada tripla \u2013 manh\u00e3, tarde e noite. \u00c9 mole ou quer que mexa?<\/p>\n<p>Sigamos em frente que o sinal abriu, e o congestionamento deu uma breve aliviada. Logo para. <\/p>\n<p>Paro em frente ao ponto de \u00f4nibus, apinhado de gente. A mo\u00e7a de terninho escuro e cabelos vermelhos corre para n\u00e3o perder o embarque. Lembro o tempo em que pegava oito \u00f4nibus por dia, Era jovem e inconsequente. Morava no Ipiranga, estudava na USP, trabalhava na periferia de Guarulhos, bairro do Jardim Moreira. Era meu desafio di\u00e1rio, por ano e tanto foi assim. N\u00e3o me queixava da rotina. Hoje me arrepia s\u00f3 em reviv\u00ea-la aqui nessas breves linhas.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Ops&#8230;<\/p>\n<p>Agora me livro do emperra deste sem\u00e1foro, e pista limpa \u00e0 minha frente. Antes por\u00e9m reparo no casal que se empenha em abrir a imensa porta de ferro da loja em \u2013 imagino \u2013 trabalham. \u00c9 um trampo e tanto. Haja cadeados e trancas. A quest\u00e3o da seguran\u00e7a hoje \u00e9 prioridade. Tenho uma vaga lembran\u00e7a deles. Afinal, passo por aqui todos os dias. Mas nunca atentei mais fixamente a esta cena, nem \u00e0s que narrei acima.<\/p>\n<p>Estranho, mas j\u00e1 desenvolvendo uma velocidade com a minha pressa em chegar, recordo o grande e saudoso AC, primeiro editor com quem trabalhei. Era um cara da noite. Da reda\u00e7\u00e3o emendava uns perdidos que acabava invariavelmente em algum boteco perdido no mundo. Sempre dava um jeito de chegar antes que o sol nascesse. Desse modo, n\u00e3o precisa dar explica\u00e7\u00e3o \u00e0 patroa em casa. Estava no fechamento do jornal \u2013 e pronto.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Certa vez, exagerou no pif\u00e3o. Acordou no balc\u00e3o de um bar na Esta\u00e7\u00e3o de Trem de Santo Andr\u00e9, e n\u00e3o sabia onde estava. Para qual Planeta havia sido abduzido. Quem eram aqueles seres formais que circulavam em bando pelos arredores, num ir e vir desconcertante para quem acabara acordar. <\/p>\n<p>Que massa era aquela?<\/p>\n<p>Do primeiro \u2018orelh\u00e3o\u2019 (ainda existe?) que encontrou, ligou desesperado para a reda\u00e7\u00e3o e pediu que algu\u00e9m fosse resgat\u00e1-lo. Se ele n\u00e3o sabia onde estava, como poder\u00edamos sair para lhe socorrer?<\/p>\n<p>IV. <\/p>\n<p>O AC estava apavorado. Nunca acordava antes do meio-dia, entrava l\u00e1 pelas tr\u00eas no jornal, ent\u00e3o, no seu v\u00e3o entendimento, era naquele hor\u00e1rio que a vida come\u00e7ava. <\/p>\n<p>&#8211; Diz para o seu Elizeu (o motorista da reda\u00e7\u00e3o) vir me buscar. Voc\u00eas s\u00e3o meus amigos ou n\u00e3o s\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9ramos, s\u00f3 n\u00e3o sab\u00edamos onde ele estava.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Foi nessa hora que Romeu, o rep\u00f3rter-fotogr\u00e1fico, chegou com ares de ressaca braba e foi logo anunciando a piada do ano:<\/p>\n<p>&#8211; Caras, voc\u00eas n\u00e3o o que o AC aprontou ontem. Deixou a gente falando sozinho no boteco do Sacom\u00e3, entornou umas a mais e, no maior porre, disse que iria buscar a Madona na Esta\u00e7\u00e3o de Trem de Santo Andr\u00e9. Pirou, gente. O cara aloprou de vez. Voc\u00eas acreditam nessa?<\/p>\n<p>Claro que acredit\u00e1vamos.<\/p>\n<p>E como acredit\u00e1vamos!<\/p>\n<p>E l\u00e1 se foi o pobre Elizeu fazer o resgate do figura.<\/p>\n<p>Saudades do AC, e daqueles idos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vejo o senhor caminhar pela cal\u00e7ada. Deve ter a minha idade. Pouco mais, pouco menos, por a\u00ed. 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