{"id":12780,"date":"2014-03-20T00:00:00","date_gmt":"2014-03-20T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:45:35","modified_gmt":"2017-09-14T03:45:35","slug":"historias-de-berlim","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/historias-de-berlim\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias de Berlim *"},"content":{"rendered":"<p>Prometo voltar a Berlim em cinco ou dez anos. Se tudo estiver nos conformes, a sa\u00fade permitir e o bolso deixar.<\/p>\n<p>Explico essa quase promessa.<\/p>\n<p>Passei l\u00e1 os \u00faltimos dias \u2013 e achei a cidade encantadora pela diversidade de atra\u00e7\u00f5es que junta o ontem, o hoje e o amanh\u00e3. S\u00e3o incont\u00e1veis: a ilha dos museus, as igrejas, as refer\u00eancias hist\u00f3ricas em monumentos e pra\u00e7a, a arquitetura que re\u00fane v\u00e1rias escolas, as largas avenidas, o bom sistema de transporte, o tr\u00e2nsito fluente, a torre da Sony, a c\u00fapula do Parlamento etc etc etc.<\/p>\n<p>Berlim tem uma natural voca\u00e7\u00e3o para o turismo \u2013 \u00e9 organizada e limpa.<\/p>\n<p>N\u00e3o exagero dizer que, em m\u00e9dio prazo, rivalize com Paris, Roma, Madrid como um dos principais roteiros tur\u00edsticos do Planeta.<\/p>\n<p>Basta andar pelas ruas do Mitte, o bairro central, para constatar a multiplicidade de idiomas que se ouve por ali. S\u00e3o turistas de todas as partes do mundo, de mapa na m\u00e3o, e olhinhos vidrados de curiosidade e prazer.<\/p>\n<p>Um \u00fanico sen\u00e3o: boa parte da cidade est\u00e1 em obras, o que faz com que algumas das principais refer\u00eancias fiquem sem acesso, ilhadas em canteiros sem fim de restaura\u00e7\u00f5es e novas constru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como os alem\u00e3es costumam fazer as coisas com imagina\u00e7\u00e3o e rigor, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil que o meu modesto progn\u00f3stico se cumpra na medida em que as obras foram ficando prontas.<\/p>\n<p>Um caminhar por Berlim nos faz pensar que, at\u00e9 1989, existia ali duas cidades distintas \u2013 e at\u00e9 conflitantes.<\/p>\n<p>Como conseguiram?<br \/>\nII.<br \/>\nUm alerta aos meus cinco ou seis fi\u00e9is e am\u00e1veis leitores:<\/p>\n<p>N\u00e3o saberei destacar o melhor de Berlim.<\/p>\n<p>Sou um turista incidental, um viajante parvo, como costumo dizer. <\/p>\n<p>Posso, sim, e fa\u00e7o com gosto, ressaltar dois momentos marcantes nesta viagem.<\/p>\n<p>O primeiro deles se deu no Memorial \u2018Topografia do Terror\u2019, onde permanece amea\u00e7ador trecho de 300 metros (se tanto) do Muro de Berlim, al\u00e9m de magn\u00edfica exposi\u00e7\u00e3o de fotos a revelar a trag\u00e9dia que foi, para a Humanidade, a ascens\u00e3o e queda do Terceiro Reich.<\/p>\n<p>Uma das imagens ali me chamou a aten\u00e7\u00e3o al\u00e9m da conta. Foi o registro de uma manifesta\u00e7\u00e3o da \u2018sauda\u00e7\u00e3o nazista\u2019, realizada em 16 de junho de 1936. Milhares e milhares de alem\u00e3es estendem o bra\u00e7o em rever\u00eancia aos s\u00edmbolos nazistas. No meio da multid\u00e3o, flagra-se um rapaz de bra\u00e7os cruzados em not\u00f3ria postura de protesto a toda aquela pantomima.<\/p>\n<p>Seu nome est\u00e1 na legenda da foto: August Landmesse que, mesmo assim, ao que consta, foi convocado para o campo de batalha e l\u00e1 desapareceu.<\/p>\n<p>Outro momento se deu de maneira casual. Visit\u00e1vamos uma tradicional chocolataria (existe a palavra?), a Fassbeender &amp; Haut. Ao bisbilhotar o livro de registro dos visitantes, me deparei com o seguinte recado, escrito em ingl\u00eas:<\/p>\n<p>\u201cQue os dias que a Ucr\u00e2nia atravessa n\u00e3o sejam em v\u00e3o. Levem a todos n\u00f3s a viver dias melhores. Que a Alemanha nos ajude a reconstruir a paz em nosso pa\u00eds. N\u00f3s amamos Berlim. Felicidades a todos\u201d. Ecatherine, 07.02.2014<\/p>\n<p>Enquanto houver pessoas assim, com a sensibilidade da Catarina da Ucr\u00e2nia, acreditem: h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o para o mundo.<br \/>\nIII.<br \/>\nVesti minha camisa amarela (r\u00e9plica da que o Palmeiras usou quando representou o Brasil em 1965, na inaugura\u00e7\u00e3o do Mineir\u00e3o) e sa\u00ed por a\u00ed&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o sou t\u00e3o malaco assim. <\/p>\n<p>O que fiz foi descer para um caf\u00e9 no bar do NH Mitte Hotel de Berlim, onde me hospedei por alguns dias, na semana que passou. <\/p>\n<p>Todo faceiro e pimp\u00e3o, acreditei que estaria livre dos olhares invejosos de torcedores dos rivais paulistas como corintianos e s\u00e3opaulinos e cong\u00eaneres. O manto ficou mesmo muito bonito. Tanto que a atual patrocinadora da CBF quis vetar as vendas da concorrente que patrocina o Verd\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando estou por aqui, por motivos \u00f3bvios e lament\u00e1veis, n\u00e3o costumo dar essa bandeira pelo risco absurdo que hoje nosso Pa\u00eds oferece. <\/p>\n<p>Inacredit\u00e1vel que seja assim, mas infelizmente assim \u00e9.<\/p>\n<p>Compenso como posso nas viagens que fa\u00e7o. Sempre levo um modelito para tirar uma onda, at\u00e9 porque o futiba \u00e9 o grande cart\u00e3o de apresenta\u00e7\u00e3o do Brasil no Exterior.<\/p>\n<p>Foi o que fiz nas minhas andan\u00e7as por Berlim.<\/p>\n<p>S\u00f3 n\u00e3o contava com a paix\u00e3o dos gringos pelas coisas do futebol.<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 est\u00e1 tudo ok para a Copa?<\/p>\n<p>Um senhor de boa estirpe tedesca, a empunhar um canec\u00e3o daqueles de cerveja, amea\u00e7a me fazer companhia \u00e0 mesa, que tem vista para a movimentada Leipziger Strabe. <\/p>\n<p>Fala em um combalido portunhol, bem melhor do que o meu ingl\u00eas, registre-se.<\/p>\n<p>Repito o \u201cok!\u201d sem muita convic\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m para n\u00e3o esticar a conversa.<\/p>\n<p>(N\u00e3o sou t\u00e3o desacanhado quanto pare\u00e7o, em terras estranhas e \u00e1reas que desconhe\u00e7o)<\/p>\n<p>&#8212; Vai ser um carnaval, como se diz, \u201cfora de tempo\u201d. <\/p>\n<p>Ele j\u00e1 se mostra todo senhor do idioma e dos meneios brazucas.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o sinal de positivo, como a concordar. Quero mesmo \u00e9 escapar do interesse do alem\u00e3oz\u00e3o. Forte pra caramba para os 60\/70 anos que aparenta ter.<\/p>\n<p>&#8212; Amo futebol! Se pudesse, eu estaria no Brasil&#8230;<\/p>\n<p>Seria bem-vindo, digo (mesmo constrangido, sou um po\u00e7o de gentilezas).<\/p>\n<p>Mas, o homem n\u00e3o se cont\u00e9m \u2013 e arrisca um progn\u00f3stico:<\/p>\n<p>&#8212; Desconfio que voc\u00eas v\u00e3o sambar no final. A Alemanha ser\u00e1 campe\u00e3. <\/p>\n<p>Ele ri freneticamente.<\/p>\n<p>Eu devo ter feito aquela cara de contrariado. Prestes a chamar a tropa aliada. <\/p>\n<p>Tanto que ele logo d\u00e1 um fecho improv\u00e1vel \u00e0 nossa conversa.<\/p>\n<p>&#8212; Son brincadeirra, meu querrido.<br \/>\nIV.<br \/>\nSou um cara humilde do Cambuci, bem sabem os meus rar\u00edssimos leitores.<\/p>\n<p>Gosto de viajar, mas na minha. <\/p>\n<p>Dou uns perdidos daqui pra l\u00e1, de l\u00e1 pra c\u00e1. <\/p>\n<p>S\u00f3 no miudinho, Olho com olhos de ver &#8211; nem foto tiro. Ou\u00e7o mais do que falo \u2013 regra de vida, ali\u00e1s, esteja onde estiver.<\/p>\n<p>Repito: gosto ficar na minha.<\/p>\n<p>Esse tipo de abordagem me deixa assim sem saber o que dizer.<\/p>\n<p>Ainda mais no estranja.<\/p>\n<p>Fico \u00e0 deriva no idioma.<\/p>\n<p>Diante de uma figura que n\u00e3o conhe\u00e7o, nem de onde surgiu.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>O novo amigo tedesco era falador.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que eu tolamente imaginava n\u00e3o encerrou o assunto com o bizarro carioqu\u00eas que em v\u00e3o tentou imitar.<\/p>\n<p>Fez mais e melhor.<\/p>\n<p>Foi logo se apresentando e se aboletando \u00e0 meda onde eu estava.<\/p>\n<p>Disse chamar-se Rudi e, assim, que ouviu meu nome \u2013 Rodolfo, para quem ainda n\u00e3o sabe, muito prazer -, deu uma gargalhada e um rompante de palavr\u00f3rios em alem\u00e3o e ingl\u00eas. <\/p>\n<p>Ao final, imagino ter entendido o significado.<\/p>\n<p>&#8212; Is the same.<\/p>\n<p>Ou seja, \u00e9ramos xar\u00e1s.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Outro caf\u00e9 para mim e Rudi, j\u00e1 \u00e0 mesa, cerveja em punho, se sente parceir\u00e3o antigo.<\/p>\n<p>T\u00f4 arrumado, penso.<\/p>\n<p>Esnucado no canto, sem chance de uma desculpa convincente, como sair dali?<\/p>\n<p>Felizmente, ele voltou ao portunhol.<\/p>\n<p>E sacramenta a primeira confiss\u00e3o do dia: faz hora ali para voltar para a lar doce lar, est\u00e1 feliz, vem de \u201cum encontro amoroso\u201d.<\/p>\n<p>Me belisquei, para saber se estava acordado mesmo ou era del\u00edrio? Se estava ouvindo o que estava ouvindo?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei bem o que aconteceu. Mas, me senti naquele Sujinho que fez hist\u00f3ria na quebrada do Sacom\u00e3, no meio dos bebuns e dos chegados da velha reda\u00e7\u00e3o de<br \/>\npiso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor.<\/p>\n<p>A sacanagem foi inevit\u00e1vel:<\/p>\n<p>&#8212; A\u00ed, garoto, mandou bem. S\u00f3 no arrebenta&#8230; D\u00e1-lhe garoto&#8230;<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Rudi, desconfio, nada entendeu (ainda bem). Mas, percebeu meu sorriso e a ironia. Justificou-se. N\u00e3o era nada do que eu estava pensando, os brasileiros s\u00f3 pensando naquilo&#8230; e um pouquinho no futebol.<\/p>\n<p>Mais.<\/p>\n<p>Se eu tivesse tempo e paci\u00eancia, ele me contaria uma bela hist\u00f3ria de amor.<\/p>\n<p>De olho em uma boa cr\u00f4nica para o blog, digo que tenho todo o tempo do mundo.<\/p>\n<p>&#8212; Fique \u00e0 vontade.<br \/>\nSou um cara humilde do Cambuci, bem sabem os meus rar\u00edssimos leitores.<\/p>\n<p>Gosto de viajar, mas na minha. <\/p>\n<p>Dou uns perdidos daqui pra l\u00e1, de l\u00e1 pra c\u00e1. <\/p>\n<p>S\u00f3 no miudinho, Olho com olhos de ver &#8211; nem foto tiro. Ou\u00e7o mais do que falo \u2013 regra de vida, ali\u00e1s, esteja onde estiver.<\/p>\n<p>Repito: gosto ficar na minha.<\/p>\n<p>Esse tipo de abordagem me deixa assim sem saber o que dizer.<\/p>\n<p>Ainda mais no estranja.<\/p>\n<p>Fico \u00e0 deriva no idioma.<\/p>\n<p>Diante de uma figura que n\u00e3o conhe\u00e7o, nem de onde surgiu.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>O novo amigo tedesco era falador.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que eu tolamente imaginava n\u00e3o encerrou o assunto com o bizarro carioqu\u00eas que em v\u00e3o tentou imitar.<\/p>\n<p>Fez mais e melhor.<\/p>\n<p>Foi logo se apresentando e se aboletando \u00e0 meda onde eu estava.<\/p>\n<p>Disse chamar-se Rudi e, assim, que ouviu meu nome \u2013 Rodolfo, para quem ainda n\u00e3o sabe, muito prazer -, deu uma gargalhada e um rompante de palavr\u00f3rios em alem\u00e3o e ingl\u00eas. <\/p>\n<p>Ao final, imagino ter entendido o significado.<\/p>\n<p>&#8212; Is the same.<\/p>\n<p>Ou seja, \u00e9ramos xar\u00e1s.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Outro caf\u00e9 para mim e Rudi, j\u00e1 \u00e0 mesa, cerveja em punho, se sente parceir\u00e3o antigo.<\/p>\n<p>T\u00f4 arrumado, penso.<\/p>\n<p>Esnucado no canto, sem chance de uma desculpa convincente, como sair dali?<\/p>\n<p>Felizmente, ele voltou ao portunhol.<\/p>\n<p>E sacramenta a primeira confiss\u00e3o do dia: faz hora ali para voltar para a lar doce lar, est\u00e1 feliz, vem de \u201cum encontro amoroso\u201d.<\/p>\n<p>Me belisquei, para saber se estava acordado mesmo ou era del\u00edrio? Se estava ouvindo o que estava ouvindo?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei bem o que aconteceu. Mas, me senti naquele Sujinho que fez hist\u00f3ria na quebrada do Sacom\u00e3, no meio dos bebuns e dos chegados da velha reda\u00e7\u00e3o de<br \/>\npiso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor.<\/p>\n<p>A sacanagem foi inevit\u00e1vel:<\/p>\n<p>&#8212; A\u00ed, garoto, mandou bem. S\u00f3 no arrebenta&#8230; D\u00e1-lhe garoto&#8230;<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Rudi, desconfio, nada entendeu (ainda bem). Mas, percebeu meu sorriso e a ironia. Justificou-se. N\u00e3o era nada do que eu estava pensando, os brasileiros s\u00f3 pensando naquilo&#8230; e um pouquinho no futebol.<\/p>\n<p>Mais.<\/p>\n<p>Se eu tivesse tempo e paci\u00eancia, ele me contaria uma bela hist\u00f3ria de amor.<\/p>\n<p>De olho em uma boa cr\u00f4nica para o blog, digo que tenho todo o tempo do mundo.<\/p>\n<p>&#8212; Fique \u00e0 vontade.<br \/>\nV.<br \/>\nhist\u00f3ria do \u2018novo amigo\u2019 \u00e9 simples, e bonita. S\u00f3 poderia mesmo ter acontecido em Berlim.<\/p>\n<p>Ele conheceu Julien quando ambos ainda tinham 18 anos. Trabalhavam na mesma loja de sapato situada nas imedia\u00e7\u00f5es da \u00e1rea central. Apaixonaram-se e viveram o que, para \u00e9poca, significou um t\u00f3rrido romance. <\/p>\n<p>At\u00e9 que o inevit\u00e1vel se deu.<\/p>\n<p>Inexor\u00e1vel, cruel.<\/p>\n<p>A cidade foi cortada pela Muro em 1961.<\/p>\n<p>Julien morava no lado oriental. Rudi, no ocidental.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve tempo sequer para despedidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve tempo para considerarem a possibilidade , corajosa, de assumirem-se como definitivos.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9ramos jovens demais.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Os anos se passaram.<\/p>\n<p>Inelut\u00e1veis, soberanos,<\/p>\n<p>Rudi e Julien reconstru\u00edram suas vidas, como pessoas comuns, normais.<\/p>\n<p>No entanto, um n\u00e3o esqueceu o outro.<\/p>\n<p>Eles se reencontraram dias depois a derrubada do muro, em 1989. (Estavam acompanhados das respectivas fam\u00edlias em meios \u00e0s festividades e os reencontros.)<\/p>\n<p>&#8211; Brasileiro, vou lhe dizer, foi emocionante v\u00ea-la ainda t\u00e3o linda.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Dias depois \u2013 Rudi n\u00e3o soube precisar quantos \u2013 voltaram ao mesmo lugar. <\/p>\n<p>Sozinhos, cora\u00e7\u00f5es acelerados.<\/p>\n<p>Conversaram, e at\u00e9 tentaram uma reaproxima\u00e7\u00e3o, digamos, amorosa. Mas, n\u00e3o eram mais as mesmas pessoas.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, adotaram, no entanto, um estranho ritual.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Todos os s\u00e1bados \u2013 ou quase todos \u2013 por volta das 10 horas da manh\u00e3, ambos se encontram na Checkinpoint Charlie, pra\u00e7a nas imedia\u00e7\u00f5es do antigo posto de checagem, guardado por soldados americanos na Berlim de ent\u00e3o, onde ainda resiste um trecho m\u00ednimo do muro de Berlim.<\/p>\n<p>Rudi e Julien se confundem \u00e0s turbas de turistas que visitam o local \u2013 e ficam ali, sentados em sil\u00eancio, um ao lado do outro, em um banco sob um antigo mapa da cidade nos tempos da divis\u00e3o.<\/p>\n<p>Dez, quinze minutos depois (de acordo com o compromisso de cada um), levantam-se e, depois de trocarem sorrisos c\u00famplices, v\u00e3o embora.<\/p>\n<p>Desse jeito, me informa o alem\u00e3o, eles vivem o que restou do amor que um dia sentiram e, desconfio, ainda sentem.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Ao final da narrativa, Rudi pede outra cerveja imensa e se mostra um tanto melanc\u00f3lico. O homem tamb\u00e9m me derrubou com a tal hist\u00f3ria. Agora o vejo como um cara legal, do bem que, a seu jeito, sabe lidar com um sentimento bel\u00edssimo. Mesmo assim, continuo sem saber o que dizer.<\/p>\n<p>Deixo escapar, no entanto, a pergunta que me parece \u00f3bvia:<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea \u00e9 feliz assim?<\/p>\n<p>Rudi se faz ainda mais enigm\u00e1tico. Mas, responde convicto:<\/p>\n<p>&#8211; Melhor do que ficar sem v\u00ea-la.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prometo voltar a Berlim em cinco ou dez anos. Se tudo estiver nos conformes, a sa\u00fade permitir e o bolso deixar.<\/p>\n<p>Explico essa quase promessa.<\/p>\n<p>Passei l\u00e1 os \u00faltimos dias \u2013 e achei a cidade encantadora pela diversidade de atra\u00e7\u00f5es que junta o ontem,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12780","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12780","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12780"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12780\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13921,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12780\/revisions\/13921"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12780"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12780"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12780"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}