{"id":12781,"date":"2014-03-26T00:00:00","date_gmt":"2014-03-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:45:13","modified_gmt":"2017-09-14T03:45:13","slug":"e-a-vez-de-escova-falar-de-berlim","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/e-a-vez-de-escova-falar-de-berlim\/","title":{"rendered":"\u00c9 a vez de Escova falar de Berlim *"},"content":{"rendered":"<p>Assim que o amigo soube de minha estada na Alemanha n\u00e3o se conteve. Veio me perguntar, cheio das intimidades, o que achei \u201cda capital de todos os tedescos\u201d.<\/p>\n<p>Escova \u00e9 figurinha f\u00e1cil aqui, neste espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Todos sabem de sua fama, em tempos idos, de Dom Juan das Quebradas do Sacom\u00e3, S\u00e3o Jo\u00e3o Cl\u00edmaco e adjac\u00eancias. Fama que ali\u00e1s ele cultiva ainda hoje com carinho e devo\u00e7\u00e3o. Da\u00ed a inevitabilidade de buscar no ba\u00fa da mem\u00f3ria os dias em que o pr\u00f3prio andou pela cidade quando se enroscou com uma gringa que tocava violoncelo numa das tantas e quantas orquestras que l\u00e1 existem.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>N\u00e3o me perguntem como se deu a proeza.<\/p>\n<p>N\u00e3o saberei explicar nos detalhes.<\/p>\n<p>Sei que a l\u00e1bia do Escova tinha l\u00e1 seu poder.<\/p>\n<p>A \u201calemoa\u201d (assim ele a chamava) era um tipa\u00e7o. Veio fazer uma temporada em Terra Brasilis e, em um passeio buc\u00f3lico ao parque do Ibirapuera, conheceu o dito-cujo, e deu-se o acontecido. <\/p>\n<p>Assim que soube do talento musical da nova \u2018mulher da sua vida\u2019, Escova n\u00e3o teve d\u00favidas: a levou para um bate-coxa lascado no Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Nordestinas.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a ficou t\u00e3o feliz que n\u00e3o teve d\u00favida em retribuir a delicadeza.<\/p>\n<p>Convidou Escova para uma temporada em Berlim.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Gabola que s\u00f3, Escova diz que o xaxado em Berlim era manh\u00e3, tarde e noite. \u201cNo hotel, e na horizontal\u201d. Nos intervalos, a musicista dava conta dos ensaios e das apresenta\u00e7\u00f5es da orquestra em que trabalhava.<\/p>\n<p>E voc\u00ea?<\/p>\n<p>&#8212; Eu ia a reboque. Tinha at\u00e9 lugar reservado para mim em uma frisa no primeiro<br \/>\npavimento.<\/p>\n<p>Escova, voc\u00ea gosta de m\u00fasica cl\u00e1ssica?<\/p>\n<p>&#8212; Assim, assim&#8230;<\/p>\n<p>Como assim?<\/p>\n<p>&#8212; Tem umas mais conhecidinhas que d\u00e1 para a gente ouvir. Mas, a maioria&#8230;<\/p>\n<p>E a\u00ed? O que voc\u00ea fazia?<\/p>\n<p>&#8212; Usava a imagina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nIV.<\/p>\n<p>Imagina\u00e7\u00e3o? Como assim? &#8211; perguntei ao Escova.<\/p>\n<p>&#8212; Simples, meu caro, enquanto a m\u00fasica tocava, eu ficava criando historinhas.<\/p>\n<p>N\u00e3o entendi, Escova.<\/p>\n<p>&#8212; Por exemplo. Tinha uma senhora que tocava obo\u00e9 era a cara da comadre Of\u00e9lia, mulher do Torres, um p\u00e9-de-cana l\u00e1, da Vila Carioca, que adora o Zeca Pagodinho.<\/p>\n<p>E?<\/p>\n<p>&#8212; E a\u00ed eu ficava imaginando o compadre confundir a patroa com a senhora, invadir o palco e pedir \u00e0 mulher que tocasse \u201cDeixa Vida Me Levar\u201d, entre outros sucessos do repert\u00f3rio do Rei de Xer\u00e9m.<\/p>\n<p>Sou obrigado a concordar com o Escova. Seria uma cena e tanto.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>&#8211; Quando me cansava dessa brincadeira, olhava para a plateia de senhores s\u00f3brios e senhoras rijas, todos em trajes sociais. <\/p>\n<p>Escova, que del\u00edrio. Qual a gra\u00e7a disso?<\/p>\n<p>&#8212; Vou lhe dizer. Trabalhei muitos anos em uma f\u00e1brica de manequins de gesso.<br \/>\nEu dava o acabamento, lixava um por um e os colocava em fila, e eles ficavam igualzinho ao pessoal do teatro. A\u00ed eu levava um lero com eles, s\u00f3 no pensamento. Gastava o meu latim com as coisas do mundo&#8230;<\/p>\n<p>E \u00e9 legal conversar, mesmo em pensamento, com os manequins?<\/p>\n<p>&#8211; Opa. Uma del\u00edcia. Quem cala consente, ent\u00e3o eles ali quietinhos quietinhos, voc\u00ea<br \/>\nfica se achando o senhor do mundo.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>&#8212; Tamb\u00e9m gostava muito de ficar olhando o maestro, o cara era todo poderoso, mandava prender e mandava soltar, era parecid\u00edssimo com o Ankito. Lembra aquele comediante das chanchadas da Atl\u00e2ntica que imitava o Oscarito, ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Ele parecia o Ankito ou o Oscarito?<\/p>\n<p>&#8211; O amigo gosta de complicar. Ele parecia o Ankito, e era todo cheio de trejeitos para reger a orquestra, o que o deixava ainda mais parecido com o comediante. Teve momentos que precisei segurar o riso para n\u00e3o atrapalhar a audi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>VII. <\/p>\n<p>Tentei mudar o rumo da conversa.<\/p>\n<p>Perguntei quanto tempo ele ficou nesse bem bom em Berlim.<\/p>\n<p>Escova respondeu que uns 10 dias.<\/p>\n<p>&#8211; E por que voltou, eu quis saber. O amor acabou?<\/p>\n<p>&#8211; Nada disso. O marido da mo\u00e7a voltou de viagem \u2013 o cara \u00e9 m\u00fasico tamb\u00e9m, s\u00f3 que em outra banda. E pacifista que sou preferi evitar uma Terceira Guerra Mundial. Sabe como s\u00e3o os alem\u00e3es nessa quest\u00e3o de invadir territ\u00f3rio alheio&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assim que o amigo soube de minha estada na Alemanha n\u00e3o se conteve. 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