{"id":12782,"date":"2014-05-09T00:00:00","date_gmt":"2014-05-09T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-29T22:29:18","modified_gmt":"2018-03-29T22:29:18","slug":"jair-rodrigues","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/jair-rodrigues\/","title":{"rendered":"Jair Rodrigues"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Caetano Veloso<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Jair Rodrigues \u00e9 uma dessas poucas grandes coisas de que Brasil deve se orgulhar. Ele foi talento espont\u00e2neo e alegria genu\u00edna combinados ao respeito pelo que veio a ser o seu trabalho. N\u00e3o havia nenhuma atmosfera de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o nessa disciplina. Era uma forma de express\u00e3o do seu natural companheirismo, nunca um cumprimento de dever empregat\u00edcio. A gente faz m\u00fasica para n\u00e3o trabalhar, me disse Stefano Bollani. Jair era a encarna\u00e7\u00e3o dessa verdade. No entanto, ningu\u00e9m mais ass\u00edduo, pontual, disposto a colaborar. Hoje \u00e9 dia de S\u00e3o Nicolau, a cidade de Bari est\u00e1 em festa. Prociss\u00f5es mar\u00edtimas, fogos de artif\u00edcio, m\u00fasica. S\u00e3o Nicolau era preto. Do nome dele, que presenteava as crian\u00e7as pobres na noite de Natal, veio a corruptela Santa Claus, que \u00e9 o Papai Noel dos americanos que n\u00f3s importamos junto com a Coca-Cola. Jair Rodrigues era um preto brasileiro cuja alegria toda a marra do hip-hop n\u00e3o abrangeria com sua cr\u00edtica. Ela era por demais real, livre e superior. A felicidade que emanava de sua vida com Claudine, do desenvolvimento das personalidades e dos talentos de Jair Oliveira e Luciana Mello, as flex\u00f5es que ele fazia no ch\u00e3o dos bastidores da TV Record, tudo se imp\u00f5e como uma afirma\u00e7\u00e3o em plenitude de uma for\u00e7a vital humana. Sua parceria com Elis no Fino da Bossa \u00e9 um dos momentos altos da hist\u00f3ria de nossa m\u00fasica. Ela dominava a mat\u00e9ria musical com todas as suas fibras tensas (mas o fazia de modo impactantemente rico e variegado), enquanto ele representava o relaxamento e a despreocupa\u00e7\u00e3o. No entanto, assumindo a responsabilidade da Disparada, Jair, com sua incr\u00edvel voz de tenor, emprestou \u00e0 can\u00e7\u00e3o uma autoridade de outra natureza que n\u00e3o a dela mesma enquanto composi\u00e7\u00e3o (que n\u00e3o era, de nenhum modo, pequena). Seu timbre, a cor de sua pele, o tom que ele deu ao abandono da brincadeira &#8211; a interpreta\u00e7\u00e3o da m\u00fasica de Vandr\u00e9 e Theo de Barros revelou um homem brasileiro que reequilibrou nossa autoimagem. Para minha cabe\u00e7a, Jair morrer \u00e9 um contrasenso. \u00c9 comum tecerem-se elogios \u00e0 personalidade dos que deixam a vida, mas no caso de Jair Rodrigues, todos os lugares-comuns poderiam ser repetidos e ainda assim estariam sendo ditos pela primeira vez. E mesmo que os desfi\u00e1ssemos todos ainda estar\u00edamos aqu\u00e9m da pletora de louvores que ele de fato merece&#8221;.<\/p>\n<p><em>*Texto postado no Facebook do autor, ontem, 08.05.2014. Transcrevo aqui pela import\u00e2ncia e pela extraordin\u00e1ria contribui\u00e7\u00e3o de Jair Rodrigues \u00e0 m\u00fasica popular brasileira<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>por Caetano Veloso<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Jair Rodrigues \u00e9 uma dessas poucas grandes coisas de que Brasil deve se orgulhar. 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