{"id":12838,"date":"2014-07-19T00:00:00","date_gmt":"2014-07-19T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:11:47","modified_gmt":"2017-09-15T19:11:47","slug":"um-aventureiro-de-araque","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/um-aventureiro-de-araque\/","title":{"rendered":"Um aventureiro de araque"},"content":{"rendered":"<p>&#8211; Desconfio que fiz tudo errado na vida.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos ali na improvisada copa, ao fundo do corredor da empresa, para um caf\u00e9 restaurador e uns minutinhos de descuido. Quando o Diogo interrompe o sil\u00eancio com a espontaneidade do desabafo.<\/p>\n<p>Manh\u00e3 preguicenta de sexta-feira, proximidade do fim de semana; antes, por\u00e9m, o arrastar do expediente com as tarefas. <\/p>\n<p>\u201cO que deu no homem\u201d \u2013 pensei, mas me fiz de rogado. Ele que se explicasse, se assim bem entendesse. <\/p>\n<p>&#8211; Vontade de cair no mundo, continuou.<\/p>\n<p>Eu sorri como a lhe dizer: \u2018os tempos s\u00e3o outros, camarada\u2019.<\/p>\n<p>(T\u00e3o outros que nem se ouve mais a palavra \u2018camarada\u2019).<\/p>\n<p>Acho que me entendeu \u2013 ou ficou perto disso, pois foi logo se explicando:<\/p>\n<p>&#8211; A vida n\u00e3o se resume \u00e0 fila no guich\u00ea do banco para saldar nossas dividas di\u00e1ria.<\/p>\n<p>Achei a imagem boa, algo anos 70, mas exemplar, creio, para que o caro colega de reparti\u00e7\u00e3o estava sentindo.<\/p>\n<p>&#8211; Sem aventura, a gente n\u00e3o vive, vegeta.<\/p>\n<p>O homem estava mesmo entediado, mas o que podia eu fazer. N\u00e3o lhe era t\u00e3o pr\u00f3ximo assim. Entendi que estava entediado, mas o m\u00e1ximo o que consegui foi um \u201cdeixa disso, rapaz\u201d.<\/p>\n<p>Foi o suficiente para ele lembrar o tempo (ano e meio) que morou em Arraial D\u2019Ajuda, na Bahia, perto de Porto Seguro. Morava perto da igrejinha, vivia de bicos como guia de turistas, n\u00e3o lhe faltavam alguns trocados para tocar a vida \u2018de boa\u2019 e se divertir com as can\u00e7\u00f5es que vinham dos bares e becos.<\/p>\n<p>&#8211; Cara, eu era dono do meu tempo, senhor das minhas vontades, livre. Sabe como \u00e9?<\/p>\n<p>Pronto. <\/p>\n<p>Sobrou pra mim.<\/p>\n<p>Um meneio de cabe\u00e7a foi a minha resposta. Nem sim, nem n\u00e3o.<\/p>\n<p>Achei de bom tom lhe oferecer outra x\u00edcara de caf\u00e9.<\/p>\n<p>Mas, ele rejeitou. Talvez o Diogo se imaginasse numa mesa qualquer de boteco, no happy hour. Logo engatou outra dos idos em que se julgava feliz.<\/p>\n<p>&#8211; Houve um tempo em que trabalhei como balconista em uma loja de disco, s\u00f3 para ouvir m\u00fasica o dia todo e conversar com as pessoas. Sabia que as pessoas mudam de astral quando entram numa loja para comprar um CD, um DVD?<\/p>\n<p>N\u00e3o fazia e n\u00e3o fa\u00e7o a menor ideia.<\/p>\n<p>Nunca havia pensado nisso.<\/p>\n<p>\u201cDeve ser legal mesmo\u201d \u2013 disse quase sem pensar no que dizia. Antes que o <\/p>\n<p>Diogo desfiasse o tempo que fez \u2018mochil\u00e3o\u2019 na Europa, tomei coragem e perguntei:<\/p>\n<p>\u201cCara, corre atr\u00e1s. S\u00f3 se vive uma vez. Por que voc\u00ea n\u00e3o larga tudo e se prop\u00f5e outra aventura? Dizem que Puerto Escondido, no M\u00e9xico, \u00e9 uma cidade lind\u00edssima, com um pessoal descolado, mar, sol&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Diogo arregalou os olhos. Fez cara de sonhador, e sacramentou:<\/p>\n<p>&#8212; Valeu, cara, valeu! Que ideia! Assim que acabar de pagar o meu BMW vou pensar na possibilidade. Agora vamos voltar para o trampo. Valeu mesmo!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211; Desconfio que fiz tudo errado na vida.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos ali na improvisada copa, ao fundo do corredor da empresa, para um caf\u00e9 restaurador e uns minutinhos de descuido. 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