{"id":12851,"date":"2014-06-05T00:00:00","date_gmt":"2014-06-05T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:43:34","modified_gmt":"2017-09-14T03:43:34","slug":"dom-quixote-e-a-engenhoca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/dom-quixote-e-a-engenhoca\/","title":{"rendered":"Dom Quixote e a engenhoca *"},"content":{"rendered":"<p>Tablet na m\u00e3o, Sancho Pan\u00e7a consulta o Facebook quando trava diante do que v\u00ea.<\/p>\n<p>Surpreso, n\u00e3o pensa duas vezes em se aproximar do amo e senhor, Dom Quixote. <\/p>\n<p>A not\u00edcia que traz interessa \u2013 e muito \u2013 ao cavaleiro errante. <\/p>\n<p>&#8211; Senhor, uma de suas mui amadas Dulcin\u00e9ias vai casar ainda hoje.<\/p>\n<p>Vamos esclarecer que este \u00e9 um Dom Quixote p\u00f3s-moderno. Um tanto inst\u00e1vel nos humores e nos amores. Nunca se apegou \u00e0s amea\u00e7as dos moinhos de ventos, menos ainda a uma \u00fanica e indivis\u00edvel  Dulcin\u00e9ia. <\/p>\n<p>\u00c9 um polivalente, digamos.<\/p>\n<p>Est\u00e1 na estrada em busca do sonho.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Mesmo assim, o nosso destemido sente o baque.<\/p>\n<p>Ah, o amor&#8230;<\/p>\n<p>Toma a engenhoca das m\u00e3os do subalterno, olha a foto da mo\u00e7a ao lado do eleito \u2013 e fica assim, digamos, um tanto comovido (\u201cpoderia ser eu\u201d), outro tanto aliviado (\u201cpoderia ser eu\u201d).<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>&#8211; Procedi mal em avis\u00e1-lo, senhor?<\/p>\n<p>A pergunta do fiel escudeiro quase se perde no sil\u00eancio do vale.<\/p>\n<p>Sancho insiste, quase a se desculpar:<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m fui pego de surpresa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se recrimine, amigo. Leve o Rocinante para beber \u00e1gua, lustre minha armadura e, por favor, me deixe por instantes a s\u00f3s. Antes, por\u00e9m , passe-me o smartphone que est\u00e1 no alforje.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Sozinho, enfrenta a aridez daquele descampado sem fim.<\/p>\n<p>Assombra-lhe o peito uma d\u00favida atroz:<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 que consigo conectar o meu whatsapp?<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Sem saber o que lhe espera a partir daquele instante, tecla ao ritmo compassado do baticum do seu cora\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cFelicidades!\u201d<br \/>\nVI.<\/p>\n<p>Minutos depois (poucos) chega, no celular do guerreiro, a mensagem da noiva. <\/p>\n<p>T\u00e3o surpresa quanto o nosso Quixote:<\/p>\n<p>\u201cO qu\u00ea? Como voc\u00ea sabe que o meu casamento \u00e9 hoje?\u201d<\/p>\n<p>E o nosso her\u00f3i se faz poeta \u2013 relembra um verso cl\u00e1ssico de Belchior, o desaparecido:<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei de tudo na ferida viva do meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea \u00e9 m\u00e1gico\u201d \u2013 encanta-se a mo\u00e7a no whats. \u201cMesmo assim, muito obrigado. Sei que \u00e9 sincero.\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Sempre desejei o melhor pra voc\u00ea.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>E o papo virtual continua, enquanto ela veste o vestido branco:<\/p>\n<p>\u201cVai me matar de curiosidade.\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea sabe. Sempre fui amigo do vento. Ele me assopra boas novas e, por vezes, novas n\u00e3o t\u00e3o boas assim.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 sei\u201d, diz ela. \u201cFoi o grilo falante\u201d.<\/p>\n<p>Ele ri como ria feliz nos bons tempos em que dividiram o caminho e a jornada.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! Voc\u00ea est\u00e1 confundindo as hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>\u201cU\u00e9!\u201d<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Ela perde a conex\u00e3o por momentos. Deslumbra-se diante do espelho. A noiva \u2013 a personagem que sempre sonhou representar\/viver.<\/p>\n<p>\u00c9 a vez do nosso her\u00f3i retomar a conversa:<\/p>\n<p>&#8211; Agora entendo o porqu\u00ea voc\u00ea sumiu.<\/p>\n<p>\u201cEra preciso, n\u00e9?\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Entendo. Quando o vento soprou seu nome em meus ouvidos, percebi que havia algo.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea \u00e9 um cavaleiro sens\u00edvel. Um sonhador.\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Depois bastou consultar o \u201cface\u201d do Sancho e&#8230; bingo.<\/p>\n<p>\u201cAh, sim, o \u201cface\u201d.\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Tire um selfie \u2013 e me envie. Quero v\u00ea-la de noiva.<\/p>\n<p>\u201cLouco. Melhor n\u00e3o. D\u00e1 azar.\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Que bobagem. N\u00e3o sou o noivo.<\/p>\n<p>\u201cPor que n\u00e3o quis.\u201d<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>&#8211; Melhor mudar o rumo da conversa. Imagino que voc\u00ea toda de branco, linda,<br \/>\nlinda&#8230;<\/p>\n<p>\u201cObrigada!\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Merece toda a felicidade do mundo. <\/p>\n<p>\u201cObrigada. De verdade. Acho que agora acertei. (Risos)\u201d<\/p>\n<p>-E eu continuarei um  \u201cerrante\u201d vida afora&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tablet na m\u00e3o, Sancho Pan\u00e7a consulta o Facebook quando trava diante do que v\u00ea.<\/p>\n<p>Surpreso, n\u00e3o pensa duas vezes em se aproximar do amo e senhor, Dom Quixote. <\/p>\n<p>A not\u00edcia que traz interessa \u2013 e muito \u2013 ao cavaleiro errante.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12851","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12851","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12851"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12851\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13916,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12851\/revisions\/13916"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12851"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12851"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12851"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}