{"id":12899,"date":"2014-05-26T00:00:00","date_gmt":"2014-05-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:44:31","modified_gmt":"2017-09-14T03:44:31","slug":"ser-ou-nao-ser-cronista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/ser-ou-nao-ser-cronista\/","title":{"rendered":"Ser ou n\u00e3o ser (cronista)&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei como, onde e por que me entendi cronista, a partir de determinado momento de minha passagem pelas reda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei tamb\u00e9m se posso me considerar \u2018cronista-cronista\u2019.<\/p>\n<p>Acho que esta condi\u00e7\u00e3o ganha consist\u00eancia quando come\u00e7o a blogar (diariamente) em setembro de 2006. Antes tinha uma coluna (Caro Leitor) semanal em um jornal de bairro paulistano (Gazeta do Ipiranga) no momento mais auspicioso deste g\u00eanero jornal\u00edstico em Sampa.<\/p>\n<p>Meus cinco ou seis am\u00e1veis leitores talvez queiram entender o que eram os jornais de bairro nas tr\u00eas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20. Pois bem, vou lhes dar uma \u00fanica informa\u00e7\u00e3o: a Gazetinha chegou a ter edi\u00e7\u00f5es de 54 p\u00e1ginas e tiragem na casa dos 60 mil exemplares.<\/p>\n<p>Ali \u2013 e em outras reda\u00e7\u00f5es de jornais paulistanos \u2013 trabalhei como rep\u00f3rter (especialmente na \u00e1rea de cultura), redator, editor; at\u00e9 secretaria gr\u00e1fica eu fiz. Mas, era escrevendo a coluna que eu me sentia mais \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>Ali, reitero, eu me sentia um tantinho m\u00ednimo pr\u00f3ximo do que foram os grandes nomes da Imprensa brasileira que reverenciava e ainda hoje reverencio \u2013 Rubem Braga, M\u00e1rio Quintana, Fernando Sabino, Carlos Heitor Cony, Diaf\u00e9ria, Raul Drewnek; todos cronistas.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Todo esse intr\u00f3ito tem l\u00e1 sua raz\u00e3o de ser e de estar.<\/p>\n<p>Um amigo me perguntou o que exatamente quer dizer a express\u00e3o que cunhei, h\u00e1 algum tempo e que dias atr\u00e1s repeti aqui no blog, sobre ser \u2018um cronista de jornal sem jornal\u2019.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa?<\/p>\n<p>Sim e n\u00e3o, respondo.<\/p>\n<p>A internet \u00e9 uma plataforma de comunica\u00e7\u00e3o bem generosa, tipo cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e. <\/p>\n<p>Cabe tudo. No blog, por exemplo, \u00e9 poss\u00edvel desenvolver diversos estilos de linguagem, inclusive a cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>J\u00e1 no jornal \u2013 onde \u00e9 o habitat natural da cr\u00f4nica e do cronista -, o que se preza \u00e9 o texto no ritmo de conversa de amigo, a cumplicidade para comentar o detalhe do dia a dia, o olhar mais alongado para o que poucos veem. <\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Outro ponto \u00e9 que o p\u00fablico leitor de um jornal \u00e9 supostamente fidelizado. At\u00e9 por for\u00e7a das assinaturas, todos os dias as mesmas pessoas leem o mesmo jornal e assim se acostumam com este ou aquele escriba. <\/p>\n<p>J\u00e1 a internet, meu Papai, o mundo gira e parece aportar na nossa baia eletr\u00f4nica, sem qualquer controle. M\u00eas passado, o maior n\u00famero de p\u00e1ginas visitadas deste modesto blog veio da cidade de&#8230; Amisterd\u00e3. Neste m\u00eas, at\u00e9 o momento em que batuco essas letrinhas, recebi mais visitantes da Alemanha do que do Brasil, pode? <\/p>\n<p>Na web, pode, Explica-se? <\/p>\n<p>Nem tudo tem explica\u00e7\u00e3o nos dias de hoje.<br \/>\nContinuemos, pois, o papo de ontem&#8230;<\/p>\n<p>Como dizia, nem tudo tem \u2013 ou precisa ter \u2013 explica\u00e7\u00e3o nos dias de hoje.<\/p>\n<p>V\u00e3o para ad cucuias, na internet, todos aqueles axiomas que, em priscas eras, fundamentaram o Jornalismo. Inclusive \u2013 e principalmente \u2013 aquele que define not\u00edcia por meio do simp\u00e1tico exemplo que caninamente ouv\u00edamos e reverberava nas reda\u00e7\u00f5es antigas e barulhentas.<\/p>\n<p>Parece que vejo o velho Marques, \u00f3culos a equilibrar-se na ponta do nariz, a nos ensinar: o cachorro morder o rabo \u00e9 comum, faz parte. J\u00e1 quando o rabo morder o cachorro a\u00ed, sim, \u00e9 not\u00edcia.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>No vale-tudo que hoje prevalece, sobram mist\u00e9rios.<\/p>\n<p>Um deles \u2013 o mais chinfrim deles, creio &#8211; \u00e9 como este humilde de cronista de jornal sem jornal resiste e sobrevive no improviso do blogueiro.<\/p>\n<p>Querem um exemplo, dada chinfrim e dos mais gratificantes?<\/p>\n<p>(Aguardem cenas dos pr\u00f3ximos blocos.)<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Semana passada, relatei em um post (ui!) em que relato, com (in)certa emo\u00e7\u00e3o, o meu encantamento e as minhas reflex\u00f5es diante de uma crian\u00e7a solit\u00e1ria em uma caixa-de-areia em parque de S\u00e3o Paulo. <\/p>\n<p>O garoto, com sua pazinha de pl\u00e1stico colorido, fazia, desfazia e tornava a fazer (o que imaginei ele imaginasse ser) um castelo de areia.<\/p>\n<p>Pois vejam o que aconteceu&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Dias depois, o blogueiro\/cronista recebe em seu email pessoal um v\u00eddeo de uma linda garotinha (dois anos, se tanto) a reproduzir a mesma brincadeira em uma praia nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Em bom portugu\u00eas, a zelosa m\u00e3e (que n\u00e3o aparece em cena e n\u00e3o me autorizou a divulgar o v\u00eddeo) faz a pergunta:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 fazendo um castelo, filha?<\/p>\n<p>E a menina, docemente contrariada, responde:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 casinha m\u00e3e!<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Para o blogueiro, uma conquista consider\u00e1vel (mesmo sabendo que, no mundo virtual, os Estados Unidos sejam logo ali).<\/p>\n<p>Para o cronista, algo descrente, lavado e enxaguado em tantos e tantos dias de chuva, uma emo\u00e7\u00e3o inenarr\u00e1vel.<br \/>\nN\u00e3o sei foi (e ainda \u00e9) a conversa que tivemos nesses dois \u00faltimos posts. Sobre cr\u00f4nicas e cronistas. <\/p>\n<p>Sei que acordei, de madrugada, pensando na frase do saudoso Z\u00e9 Jofre naqueles idos de 70 quando cheguei \u00e0 reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor.<\/p>\n<p>\u201cA cr\u00f4nica \u2013 dizia ele \u2013 \u00e9 um dos raros espa\u00e7os no jornal onde a emo\u00e7\u00e3o sobrevive\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPor isso \u2013 profetizou \u2013 \u00e9 um g\u00eanero que tende a desaparecer\u201d.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Tonico Marques e Z\u00e9 Jofre eram velhos resistentes, origin\u00e1rios da Imprensa ideologizada dos anos 40 e 50. Trabalharam nos principais jornais de esquerda paulistanos, combateram o bom combate at\u00e9 que o Golpe de 64 os tirou das reda\u00e7\u00f5es. Mesmo assim continuaram a luta, fundando jornais de bairro e \u2013 como diziam e nos ensinavam \u2013 dando voz e vez \u00e0 periferia de S\u00e3o Paulo, ent\u00e3o em pleno e desordenado desenvolvimento.<\/p>\n<p>(Conto parcialmente a hist\u00f3ria de ambos na cr\u00f4nica \u201cMarc\u00e3o e Z\u00e9 Jofre\u201d, escrita em 2002 e aqui publicada em 8 de outubro de 2007. Consta tamb\u00e9m do livro \u201cMeus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es\u201d, lan\u00e7ado em 2010.)<\/p>\n<p>Feita a apresenta\u00e7\u00e3o, voltemos ao nosso assunto.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Foi o que efetivamente come\u00e7ou a acontecer a partir dos anos 80 no embalo das transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e mesmo social. Os jornais passaram a ser um produto de mercado (antes, por mais que fossem, n\u00e3o eram entendidos como tal) e o jornalismo passou a ser mais t\u00e9cnico do que propriamente autoral.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, Chico Buarque gravou a emblem\u00e1tica \u201cA voz do dono e o dono da voz\u201d, falando da rela\u00e7\u00e3o das gravadoras com o artista. Na nossa \u201cilha\u201d de resist\u00eancia ao jornalismo (que alguns chamavam de) rom\u00e2ntico, entend\u00edamos que a analogia tamb\u00e9m poderia ser feita ao que se vivia nas grandes reda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A reportagem perdia (e perde) espa\u00e7o, e a cr\u00f4nica&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Embora ainda se encontre algum bravo defensor, o g\u00eanero foi atropelado pelo aburguesamento das reda\u00e7\u00f5es e pela ditadura dos manuais de reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O cronista que andava de \u00f4nibus, vivia nos botecos e estava junto com as causas populares foi perdendo espa\u00e7o para colunistas especializados \u2013 o psic\u00f3logo, o antrop\u00f3logo, a ex-prefeita, o cientista pol\u00edtica; e mais recentemente para a atriz global, o humorista da vez&#8230;<\/p>\n<p>Nada contra, apenas uma constata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tais senhores nos ensinam, como viver, o que \u00e9 certo e o que \u00e9 de bom tanto.<\/p>\n<p>N\u00e3o compartilham (a palavrinha da moda) o nosso modesto espa\u00e7o, o chinfrim do nosso dia a dia de cidad\u00e3os comuns \u2013 e por isso mesmo bem mais pr\u00f3ximo da realidade de um Brasil que se quer de todos os brasileiros.<br \/>\nEncerro a s\u00e9rie de posts sobre cr\u00f4nicas e cronistas, iniciada na sexta neste modesto espa\u00e7o, respondo a quest\u00f5es que me foram feitas sobre o tema:<\/p>\n<p>01- Cr\u00f4nica: jornalismo ou literatura?<\/p>\n<p>A cr\u00f4nica \u00e9 um g\u00eanero jornal\u00edstico, embora flerte descaradamente com a literatura \u2013 ou vice-versa. Nasce nos prim\u00f3rdios da imprensa brasileira e se consagra entre os anos 40 e 70. N\u00e3o tem a densidade ficcional do conto, mas n\u00e3o despreza a criatividade imaginativa do autor e a originalidade dos personagens e das situa\u00e7\u00f5es narradas.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7a no in\u00edcio do s\u00e9culo 20 com Jo\u00e3o do Rio e ganha formato com outro pioneiro, Humberto de Campos, autor de Notas de Um Diarista (Entenda-se aqui \u201cdiarista\u201d como algu\u00e9m que escrevia no jornal todos os santos dias).<\/p>\n<p>02 &#8211; Os principais cronistas <\/p>\n<p>A seguir fa\u00e7o uma listagem dos 20 nomes da minha prefer\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 qualquer crit\u00e9rio para a ordem de apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o eles: <\/p>\n<p>Rubem Braga, <\/p>\n<p>N\u00e9lson Rodrigues, <\/p>\n<p>S\u00e9rgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), <\/p>\n<p>Drummond, <\/p>\n<p>Rachel de Queiroz, <\/p>\n<p>Fernando Sabino, <\/p>\n<p>Joel Silveira,<\/p>\n<p>Luis Martins (o LM), <\/p>\n<p>Paulo Mendes Campos, <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Ant\u00f4nio (criador do conto\/reportagem)<\/p>\n<p>Marcos Rey, <\/p>\n<p>Diaf\u00e9ria, <\/p>\n<p>Raul Drewnick, <\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Maria, <\/p>\n<p>Pl\u00ednio Marcos, <\/p>\n<p>Carlos Heitor Cony, <\/p>\n<p>M\u00e1rio Quintana, <\/p>\n<p>Ver\u00edssimo <\/p>\n<p>In\u00e1cio Loyola Brand\u00e3o e<\/p>\n<p>Manoel Carlos.<\/p>\n<p>*(Vez ou outra, em sua coluna na Folha de S.Paulo, o m\u00e9dico Dr\u00e1uzio Varela se revela um bom cronista quando troca o assunto de sua especialidade, a medicina, pela observa\u00e7\u00e3o do cotidiano e suas gentes.) <\/p>\n<p>3 \u2013 Considera\u00e7\u00f5es finais<\/p>\n<p>Todo brasileiro bom de prosa \u00e9, por natureza, um cronista. A cr\u00f4nica \u00e9 como aquela conversa que se compartilha, leve e solta, com amigos, na mesa do bar. Ou aquele contar de causos e relatos descompromissados como se ele (o cronista) e o leitor estivessem tomando uma fresca naquela varanda, entre uma golada e outra (a bebida fica \u00e0 sua escolha), um petisco e outro, enquanto a vida, teor de todas as conversas, segue<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei como, onde e por que me entendi cronista, a partir de determinado momento de minha passagem pelas reda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei tamb\u00e9m se posso me considerar \u2018cronista-cronista\u2019.<\/p>\n<p>Acho que esta condi\u00e7\u00e3o ganha consist\u00eancia quando come\u00e7o a blogar (diariamente) em setembro de 2006.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12899","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12899","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12899"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12899\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13918,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12899\/revisions\/13918"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12899"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12899"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12899"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}