{"id":12916,"date":"2006-10-12T00:00:00","date_gmt":"2006-10-12T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:29:17","modified_gmt":"2017-09-14T04:29:17","slug":"a-historia-dos-debates-na-tv","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-historia-dos-debates-na-tv\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria dos debates na TV"},"content":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria dos debates eleitorais j\u00e1 tem alguma tradi\u00e7\u00e3o na TV brasileira. Come\u00e7am a pipocar a partir de 1982, quando o povo volta a eleger os governadores dos estados brasileiros. Nunca \u00e9 demais lembrar que, por for\u00e7a dos causu\u00edsmos ditatoriais, essa pr\u00e1tica se encerrou em 66 e, desde ent\u00e3o, o brasileiro s\u00f3 ia \u00e0s urnas para escolher vereadores, deputados estaduais e federais e senador &#8211; mesmo assim, um dos tr\u00eas senadores de cada estado era indicado pelo Governo Militar; era o chamado senador bi\u00f4nico.<\/p>\n<p>O Pal\u00e1cio do Planalto tamb\u00e9m indicava o governador de plant\u00e3o, e este escolhia o prefeito das capitais e de cidades consideradas \u00e1reas de seguran\u00e7a nacional.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Na esteira do processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o, os anos 80 saudaram a consolida\u00e7\u00e3o de avan\u00e7os consider\u00e1veis como a anistia (77), as greves do ABC (de 78 em diante), o fim da censura (79) e a retomada das elei\u00e7\u00f5es gerais (82). Foi um momento bom, de semeadura da maior mobiliza\u00e7\u00e3o social que este Pa\u00eds j\u00e1 assistiu, as Diretas J\u00e1, em 84.<\/p>\n<p>Neste contexto, o jornalismo ganhou espa\u00e7o na programa\u00e7\u00e3o das TVs, e n\u00e3o apenas no formato de telejornais. Os programas de entrevistas no fim de noite se tornaram ponto de discuss\u00e3o e de interesse. Nascem neste per\u00edodo t\u00edtulos como Roda Viva, Canal Livre, Cr\u00edtica &amp; Autocr\u00edtica, Jogo de Carta, com Mino Carta, entre outros. <\/p>\n<p>Todos t\u00eam o formato de mesa-redonda. E se prop\u00f5em a ser pol\u00eamicos e esclarecedores.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Com efeito, esses programas se inspiraram na boa audi\u00eancia dos primeiros debates televisivos por ocasi\u00e3o do pleito para o Governo do Estado, especialmente em S\u00e3o Paulo e Rio, em 82. S\u00e3o Paulo re\u00fane uma pl\u00eaiade de contendores peso-pesados &#8211; Franco Montoro (PMDB), Reynaldo de Barros (candidato de Maluf e sobrinho do l\u00edder Adhemar de Barros, PDS), J\u00e2nio Quadros (ex-presidente, de performances imprevis\u00edveis, PTB) e o l\u00edder dos metal\u00fargicos do ABC, Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, pelo PT.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, apenas um nome era motivo de apreens\u00e3o e interesse, Leonel Brizola, tido e havido como &quot;o incendi\u00e1rio&quot;. <\/p>\n<p>A pol\u00edtica passou a ser o tema da moda. Mais at\u00e9 do que Carnaval e futebol, pasmem.<br \/>\nIV.<br \/>\nBem, vamos continuar a hist\u00f3ria dos debates&#8230;<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, o primeiro debate reuniu \u00e0 mesa um time peso-pesado. N\u00e3o lembro ao certo se foi na pr\u00f3pria TV Bandeirantes. Mas, \u00e9 prov\u00e1vel que sim&#8230; N\u00e3o houve regras previamente elaboradas. E cada um dos candidatos valeu-se mais da sua pegada do que propriamente de algum tipo de prepara\u00e7\u00e3o. Montoro ganhou as elei\u00e7\u00f5es com certa tranq\u00fcilidade e o bate-boca da vez nada influiu no resultado. De marcante, ficou um bord\u00e3o que um dos candidatos nanicos bradou insistentemene durante toda a campanha:<\/p>\n<p>&#8212; Cad\u00ea voc\u00ea, Franco Montoro?<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos depois, na elei\u00e7\u00e3o para a Prefeitura de S\u00e3o Paulo, o primeiro momento antol\u00f3gico. O jornalista Boris Casoy ainda pertencia aos quadros da Folha de S. Paulo, onde havia ocupado o cargo de editor-chefe por muitos anos. N\u00e3o tinha a menor intimidade com a TV, e foi convidado a ser um dos perguntadores. O ent\u00e3o senador Fernando Henrique era o favorito de todas as pesquisas. Um candidato imbat\u00edvel na opini\u00e3o dos cientistas pol\u00edticos e similares. At\u00e9 porque, naquele momento de ojeriza a tudo que lembrasse a ditadura, era comum se dizer que o PMDB elegeria &quot;at\u00e9 um poste&quot;.<\/p>\n<p>J\u00e2nio Quadros e o ent\u00e3o deputado Eduardo Suplicy tamb\u00e9m participavam do pleito.<\/p>\n<p>J\u00e2nio desobedeceu \u00e0s regras modelares que se esperava de um candidato e simplesmente n\u00e3o compareceu ao encontro. Mesmo assim, foi o grande vencedor da noite.<\/p>\n<p>Boris pespegou duas perguntas que derrubaram FHC e Suplicy.<\/p>\n<p>Para Fernando Henrique, perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Senador, o senhor acredita em Deus?<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo sem religi\u00e3o patinou feio. Dias antes, havia participado de ato religioso, ao lado de milhares de fi\u00e9is, em louvor a Nossa Senhora Aparecida. Agora, atropelava-se nas palavras que soaram inconsistentes.<\/p>\n<p>Com o deputado do Partido dos Trabalhadores, foi mais singelo.<\/p>\n<p>&#8212; Deputado, o senhor sabe quanto custa o p\u00e3ozinho?<\/p>\n<p>A resposta foi um disparate. N\u00e3o lembro exatamente o que disse Suplicy, at\u00e9 porque a moeda era outra. Mas, se atualizarmos, digamos que ele chutou algo em torno de um real ou mais&#8230;<\/p>\n<p>Comprovou assim, para o telespectador, que o discurso e a pr\u00e1tica andavam um tantinho distante &#8211; como, de resto, ainda hoje \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e2nio ganhou tamb\u00e9m as elei\u00e7\u00f5es.<br \/>\nVI.<\/p>\n<p>Outro vencedor deste debate foi o apresentador Silvio Santos. Como assim? Logo contratou B\u00f3ris Casoy para apresentar um telejornal. E o transformou no primeiro \u00e2ncora da TV brasileira, o que obrigou a pr\u00f3pria Globo a rever o formato de seus telejornais, antes apresentados pelos chamados locutores-noticiaristas.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Lula tamb\u00e9m j\u00e1 teve seus dias de bom-humor em debates televisivos.<\/p>\n<p>Num debate presidencial, chegou a elogiar o concorrente Paulo Maluf:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 competente&#8230;<\/p>\n<p>Espanto no est\u00fadio e no p\u00fablico telespectador. <\/p>\n<p>Como pode, s\u00e3o inimigos fidagais? <\/p>\n<p>Lula elogiando Maluf? <\/p>\n<p>Segundos depois, a conclus\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que o senhor compete, compete, compete&#8230; E n\u00e3o ganha nunca.<\/p>\n<p>Bons tempos, hein, Lula?<br \/>\nVIII.<br \/>\nTrato \u00e9 trato&quot;.<\/p>\n<p>Assim dizia o meu av\u00f4 Carlito que fazia chap\u00e9us na f\u00e1brica Ramenzzoni, ali na esquina da rua Lavap\u00e9s com a Scuvero, dentro dos limites da Rep\u00fablica Federativa do Cambuci.<\/p>\n<p>Isto posto &#8211; e sei l\u00e1 porque lembrei do meu av\u00f4 -, vamos a mais uma parte dos relatos sobre os debates eleitorais na TV brasileira. Trato \u00e9 trato&#8230;<\/p>\n<p>Ops&#8230;<\/p>\n<p>Antes de narrar o epis\u00f3dio de hoje (Collor vs. Lula em 89) quero fazer uma refer\u00eancia que, assim como chupinhamos a f\u00f3rmula dos festivais de MPB dos anos 60 do eterno Festival de San Remo na It\u00e1lia, tamb\u00e9m demos uma copiadinha no formato de debates entre presidenciais do hist\u00f3rico confronto Kennedy e Nixon, pela Presid\u00eancia dos Estados Unidos em 1960.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que o tom despojado e elegante de Kennedy lhe garantiu a vit\u00f3ria diante de um Nixon acabrunhado, um tanto troncho e, diria, entristecido.<\/p>\n<p>Esse debate marca o in\u00edcio da chamada era dos pol\u00edticos teleg\u00eanicos. No Brasil, o primeiro a tirar proveito &#8211; e como! &#8211; da TV foi mesmo o ent\u00e3o desconhecido governador das Alagoas, Fernando Collor, quase 30 anos depois.<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>H\u00e1 toda uma hist\u00f3ria que o mito Collor foi projetado pela m\u00eddia &#8211; especialmente, pela Rede Globo &#8211; assustada com a possibilidade de um de seus dois desafetos chegarem ao poder. Quem eram? O caudilho Leonel Brizola e o sapo barbudo Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. Brizola, inclusive, havia dito e redito que o primeiro ato de seu Governo, em Bras\u00edlia, seria rever a concess\u00e3o de algumas emissoras de TV que estavam &quot;a servi\u00e7o do imperialismo&quot;.<\/p>\n<p>Os outros dois candidatos, de peso, Ulysses Guimar\u00e3es e M\u00e1rio Covas tamb\u00e9m n\u00e3o inspiravam l\u00e1 muita confian\u00e7a na fam\u00edlia Marinho. <\/p>\n<p>\u00c0 parte as mazelas da Teoria da Conspira\u00e7\u00e3o, o certo \u00e9 que Collor ganhou proje\u00e7\u00e3o nacional ao participar de um programa de anivers\u00e1rio de Chacrinha e depois refestelou-se em um Globo Rep\u00f3rter em que se disseminou a alcunha de &quot;ca\u00e7ador de maraj\u00e1s&quot;.<\/p>\n<p>Da\u00ed para frente, a hist\u00f3ria, todos conhecem&#8230;<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>\u00c9 inevit\u00e1vel. A conversa foi parar em debate eleitoral na TV? Ent\u00e3o, prepare-se, mais cedo ou mais tarde, vamos desaguar no pega de 89 entre Lula e Collor. E a\u00ed os \u00e2nimos esquentam&#8230;<\/p>\n<p>O que aconteceu?<\/p>\n<p>Segundo os \u00edndices das pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de voto, os candidatos estavam pr\u00f3ximos na semana que antecedeu as elei\u00e7\u00f5es, realizadas no domingo, dia 17 de dezembro. Collor e Lula se enfrentaram na quinta, dia 14. Um pool de quatro emissoras de TV (Globo, SBT, Bandeirantes e Manchete) transmitiu simultaneamente o debate que encerraria a campanha eleitoral para decidir o segundo turno.<\/p>\n<p>Foi um embate renhido, com acusa\u00e7\u00f5es m\u00fatuas; mais de Collor em rela\u00e7\u00e3o a Lula.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios petistas reconheceram depois que Lula estava desconfort\u00e1vel, com ar cansado e hesitante. Muitos compararam a um jogo de futebol. Collor venceu por dois a um, tr\u00eas a um&#8230;<\/p>\n<p>XI.<\/p>\n<p>No dia seguinte, por\u00e9m, o Jornal Nacional fez uma resenha do encontro absolutamente parcial. Mostrou Collor confiante, determinado. Lula, ao contrario. Cabisbaixo, inseguro, sem saber para onde ir.<\/p>\n<p>Quem assistisse apenas ao Jornal Nacional e ousasse emitir um palpite, usando a met\u00e1fora do futebol, n\u00e3o teria d\u00favidas. Collor: 8 x 0. S\u00f3 no primeiro tempo.<\/p>\n<p>XII.<\/p>\n<p>Se essa edi\u00e7\u00e3o interferiu ou n\u00e3o no resultado final das elei\u00e7\u00f5es de 89, nunca se saber\u00e1. Foi uma semana trash para Lula aquela &#8211; e as que v\u00eam pela frente. Por isso, \u00e9 bem prov\u00e1vel que eu volte ao assunto dia desses&#8230;<\/p>\n<p>De resto, lembro que o hor\u00e1rio pol\u00edtico recome\u00e7a hoje. Mas, eu e voc\u00ea, caro leitor, merecemos uma tr\u00e9g\u00fca. \u00c9 feriado, Dia das Crian\u00e7as e de Nossa Senhora Aparecida. De quebra, anivers\u00e1rio da dona Yolanda, minha m\u00e3e, filha do chapeleiro Carlito, aquele que come\u00e7ou o texto e que o encerraria agora com a c\u00e9lebre recomenda\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8212; Olha, n\u00e3o se meta a fazer cortesia com o chap\u00e9u alheio&#8230;<\/p>\n<p>E, para dar um toque de modernidade e gra\u00e7a, o bom Carlito arrepiaria uma frase que a mo\u00e7ada de hoje consagrou, sempre que surge uma bola dividida:<\/p>\n<p>&#8212; Piccino, me inclua fora dessa&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria dos debates eleitorais j\u00e1 tem alguma tradi\u00e7\u00e3o na TV brasileira. Come\u00e7am a pipocar a partir de 1982, quando o povo volta a eleger os governadores dos estados brasileiros. 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