{"id":12942,"date":"2014-11-06T00:00:00","date_gmt":"2014-11-06T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-29T22:31:35","modified_gmt":"2018-03-29T22:31:35","slug":"o-dia-da-minha-morte","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-dia-da-minha-morte\/","title":{"rendered":"O dia da minha morte"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Jairo Marques<\/strong><\/em><\/p>\n<p>*Folha de S. Paulo &#8211; 05\/11\/2014<\/p>\n<p>Hoje completo 40 anos, penso ainda ter um queijo e uma rapadura para dar at\u00e9 o fim da minha hora derradeira, caso n\u00e3o me caia nenhum pino antes disso, mas o fato de uma mo\u00e7a norte-americana, mais jovem que eu, v\u00edtima de um mal avassalador, ter marcado o dia de seu \u00faltimo suspiro mexeu com meu calend\u00e1rio vital.<\/p>\n<p>Gosto da perspectiva de o homem evoluir a ponto de n\u00e3o ter negados direitos sobre si mesmo, mas \u00e9 certo que se est\u00e1 a uma lonjura planet\u00e1ria da compreens\u00e3o e entendimento do poder e alcance do improv\u00e1vel, da maturidade de conseguir se desfrutar do gosto daquilo que foge ao grandes projetos, \u00e0s realiza\u00e7\u00f5es mundiais.<\/p>\n<p>Entendo bem a complexidade das dores profundas e da car\u00eancia de esperan\u00e7a para aquilo que se sonhou, contudo reluto em admitir que n\u00e3o haja feitos em vida capazes de reacender os sorrisos, arrepios na nuca, batimentos card\u00edacos gostosamente acelerados, l\u00e1grimas nos olhos de emo\u00e7\u00e3o ou mesmo imagens multicoloridas e surpreendentes dentro de um pensamento.<\/p>\n<p>Fico imaginando se no dia marcado para minha morte o Nero, o labrador atentado de minha m\u00e3e, acordar daquele jeito insano que tem desde filhote, entrar pela porta do quarto, pular na cama e lamber a minha cara at\u00e9 o f\u00f4lego faltar a n\u00f3s dois.<\/p>\n<p>Fico imaginando se no dia marcado para aminha morte cair uma chuva daquelas aguardadas no sert\u00e3o e do ar tomar conta aquele cheiro de terra molhada, os passarinhos enlouquecerem de felicidade e cantarem suas sinfonias mais complexas e ainda, de brinde, do c\u00e9u brotar um arco-\u00edris escandaloso.<\/p>\n<p>Fico imaginando se no dia marcado para a minha morte um sanfoneiro errante aparecer na rua de casa cantando bonito aquela m\u00fasica que refresca qualquer amargor de alma: \u201cAndo devagar porque j\u00e1 tive pressa e levo esse sorriso, porque j\u00e1 chorei demais. Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe? S\u00f3 a levo a certeza de que muito pouco, eu sei. Eu nada sei\u201d.<\/p>\n<p>Claro, tenho de me resignar e n\u00e3o duvidar do drama alheio de levar o dia a dia adiante em meio ao sofrimento, da car\u00eancia de energia para acreditar que pode existir uma nova chance a cada nova manh\u00e3. Mas, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o choro diante de um nascimento banha o rosto de felicidade e o choro diante da morte<br \/>\ncomprime o est\u00f4mago e anuvia o semblante.<\/p>\n<p>Quantos milh\u00f5es de pessoas suplicariam por alguns minutos de despedida ao lado do filho amado e para dar nele um abra\u00e7o de emo\u00e7\u00e3o, para dar um beijo de cinema na grande paix\u00e3o, para falar, mais uma vez, da import\u00e2ncia do amigo.<\/p>\n<p>Mas, na situa\u00e7\u00e3o da morte marcada, todo o protocolo de despedida considera-se cumprido. O adeus a tudo que se gosta j\u00e1 teria sido dado e, dessa forma, n\u00e3o haveria desarranjos deixados para tr\u00e1s. \u00c9 s\u00f3 mesmo deixar-se levar.<\/p>\n<p>Prefiro, por\u00e9m, a firmeza do lado de c\u00e1. Do lado de quem acredita, aos 40, que ser\u00e1 poss\u00edvel me divertir com um vestido rasgado em uma festa de formatura, que escreverei um texto que, finalmente, o H\u00e9lio Schwartsman dir\u00e1 \u201cficou bom\u201d, que terei outra sensa\u00e7\u00e3o profunda de arrepios como naquele dia que me fizeram saltar de tirolesa.<\/p>\n<p>Desejo que, antes de marcar a minha morte, eu possa conseguir mostrar um pouco mais ao mundo o quanto \u00e9 poss\u00edvel viver diante das mais tem\u00edveis impossibilidades.<\/p>\n<p><em>* Jairo Marques \u00e9 jornalista. Blogueiro e colunista da Folha de S.Paulo. Escreve \u00e0s quartas-feira, a cada 15 dias.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>por Jairo Marques<\/strong><\/em><\/p>\n<p>*Folha de S. 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