{"id":12961,"date":"2014-11-22T00:00:00","date_gmt":"2014-11-22T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:40:55","modified_gmt":"2017-09-14T03:40:55","slug":"meu-amigo-o-diguemos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/meu-amigo-o-diguemos\/","title":{"rendered":"Meu amigo, o Diguemos"},"content":{"rendered":"<p>&#8211; Diguemos que sim.<\/p>\n<p>&#8211; Diguemos que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Fosse qual fosse a pergunta que se fizesse ao Diguemos, era assim que o Diguemos respondia. Tanto que, logo, o pessoal do maloc\u00e3o da rua Muniz de Souza esqueceu de vez o verdadeiro nome do Diguemos e, de Diguemos, o Cambuci todo passou a cham\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Rapaz, voc\u00ea foi \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o do Peg Pag no Largo do Cambuci?<\/p>\n<p>&#8211; Diguemos que sim.<\/p>\n<p>&#8211; E \u00e0 missa do Padre Jo\u00e3o, voc\u00ea vai?<\/p>\n<p>&#8211; Diguemos que n\u00e3o. Ele \u00e9 muito bravo.<\/p>\n<p>\u00c9 o Padre Jo\u00e3o tinha l\u00e1 seus rompantes.<\/p>\n<p>N\u00f3s, a molecada, o tem\u00edamos.<\/p>\n<p>Diguemos era rapazinho, deveria ter mais motivos que n\u00f3s para n\u00e3o enfrent\u00e1-lo em um confession\u00e1rio.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>No princ\u00edpio, divert\u00edamo-nos com a brincadeira. Passamos a provoc\u00e1-lo. Nas mais triviais das conversas, utiliz\u00e1vamos perguntas para induzi-lo a usar o indefect\u00edvel bord\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Vai ao baile do Clube Ol\u00edmpicos hoje?<\/p>\n<p>&#8211; Diguemos que sim.<\/p>\n<p>&#8211; E ao futebol na V\u00e1rzea do Glic\u00e9rio amanh\u00e3?<\/p>\n<p>&#8211; Diguemos que n\u00e3o.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Digamos que o Diguemos n\u00e3o percebia o tom de deboche da turma. Se percebia, nunca fez caso. Sentia-se assim, digamos, honrado com o interesse de todos por ele e pelo que fazia.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea est\u00e1 esperando o bonde?<\/p>\n<p>&#8211; Diguemos que sim.<\/p>\n<p>&#8211; Vai passear?<\/p>\n<p>&#8211; Diguemos que n\u00e3o. Vou pagar a conta de luz na Light.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se chateado com nossas goza\u00e7\u00f5es ou por outro motivo qualquer, o certo \u00e9 que, incerta manh\u00e3, o Diguemos e a fam\u00edlia desapareceram do bairro sem deixar rastros. Digamos que se mudaram \u00e0s pressas. Falaram em aluguel atrasado, ordem de despejo e cousa e lousa e mariposa. <\/p>\n<p>Nunca mais tivemos not\u00edcias dele.<\/p>\n<p>V.<br \/>\nNesta quarta-feira, como tantos torcedores do Palmeiras, fui \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o do Allianz Parque e enfrentei, no final da tarde, um tr\u00e2nsito brav\u00edssimo no fim do Minhoc\u00e3o, na avenida Conde Francisco Matarazzo.<\/p>\n<p>O anda-e-para me aborreceu tanto que num impulso entrei, com o carro, no primeiro estacionamento 24 horas que vi pela frente. Foi nas imedia\u00e7\u00f5es do Parque da \u00c1gua Branca, ao lado de uma Universidade e alguns metros antes de uma casa de m\u00fasica sertaneja.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>N\u00e3o fui s\u00f3 eu que pensei assim.<\/p>\n<p>Outros tantos e tamanhos \u2018sofredores do Verd\u00e3o\u2019 tiveram a mesma \u2013 e magn\u00edfica \u2013 ideia. Assim escapamos do congestionamento e da extors\u00e3o do alto pre\u00e7o dos estacionamentos mais pr\u00f3ximos ao novo est\u00e1dio (entre 50 e 60 reais).<br \/>\nVII.<\/p>\n<p>Convido os meus caros cinco ou seis leitores a viverem a cena.<\/p>\n<p>O estacionamento virou um furdun\u00e7o s\u00f3.<\/p>\n<p>N\u00e3o parava de entrar autom\u00f3vel por todas as entradas do estabelecimento, at\u00e9 mesmo pela sa\u00edda.<\/p>\n<p>Os urros, cantos e gritos dos torcedores misturavam-se ao espanto dos fregueses habituais \u2013 estudantes e professores da Universidade.<\/p>\n<p>No meio da bagun\u00e7a generalizada, meia d\u00fazia de funcion\u00e1rios tentava por ordem no enorme p\u00e1tio, organizando a chegada e o enfileiramento dos ve\u00edculos.<\/p>\n<p>VIII. <\/p>\n<p>Uma das professoras, rec\u00e9m chegada e diante de tamanha confus\u00e3o, resolveu protestar para o senhor que ostentava um colete ab\u00f3bora rebrilhante,<br \/>\nestampando a palavra \u2018orientador\u2019.<\/p>\n<p>Identificou-se como mestre e exigia privil\u00e9gios diante daquela \u201chorda de invasores\u201d.<\/p>\n<p>Engatou um palavr\u00f3rio enfurecido.<\/p>\n<p>&#8211; O gerente est\u00e1? \u2013 perguntou ao senhorzinho, com voz de amea\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Diguemos que n\u00e3o \u2013 respondeu o homem. <\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o me dei conta de que conhecia aquelas fei\u00e7\u00f5es de algum lugar, mesmo que o tempo tenha feito um estrago danado nelas.<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Mas, a mulher continuava destemperada.<\/p>\n<p>E o di\u00e1logo, entre os dois, que se deu me foi revelador<\/p>\n<p>&#8211; Mas, isso aqui est\u00e1 um caos!<\/p>\n<p>&#8211; Diguemos que sim.<\/p>\n<p>&#8211; Desse jeito v\u00e3o amassar o meu carro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Diguemos que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Somos clientes o ano todo merecemos respeito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Diguemos que sim.<\/p>\n<p>&#8211; Tomara que o Palmeiras perca de 5 a 0.<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>O orientador da \u2018melhor idade\u2019 nada respondeu.<\/p>\n<p>Permaneceu em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Amea\u00e7ou um riso, mas logo se conteve e continuou orientando nossas manobras:<\/p>\n<p>&#8211; Diguemos que o senhor precisa chegar mais para esquerda e o do carro branco, diguemos, precisa ocupar a vaga ao lado.<\/p>\n<p>XI.<\/p>\n<p>Foi exatamente nessa hora que eu o reconheci. <\/p>\n<p>Ali, estava o velho Diguemos, corintian\u00edssimo que s\u00f3. A praguejar, calado, contra o Verd\u00e3o e a concordar com a professora exaltada.<\/p>\n<p>Na hora, preferi n\u00e3o acreditar no mau agouro do reencontro.<\/p>\n<p>Mas, diguemos, ops, digamos que foi em v\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211; Diguemos que sim.<\/p>\n<p>&#8211; Diguemos que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Fosse qual fosse a pergunta que se fizesse ao Diguemos, era assim que o Diguemos respondia. 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