{"id":13016,"date":"2015-02-23T00:00:00","date_gmt":"2015-02-23T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:06:37","modified_gmt":"2017-09-15T19:06:37","slug":"sete-tons-de-azuis-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/sete-tons-de-azuis-2\/","title":{"rendered":"Sete tons de azuis (2)"},"content":{"rendered":"<p>&#8211; Na Ilha, me chamam de Caramelo. Mas, meu nome \u00e9 Carmelo.<\/p>\n<p>Eu acabo de conhec\u00ea-lo. \u00c9 um negro esguio, a\u00ed por volta dos 30 anos. Que se aproxima do p\u00eder onde ainda estou [vendo a tarde se por diante dos sete tons de azuis do mar da Ilha de San Andr\u00e9s].<\/p>\n<p>Ele nasceu aqui e, como quase todos, vive do que o turismo lhe proporciona. J\u00e1 foi barqueiro (\u201cera bem divertido\u201d), trabalhou em hotel (\u201codiava usar aquelas roupas\u201d), em restaurantes (\u201cgostava das gorjetas que recebia\u201d), entre outras fun\u00e7\u00f5es. Agora, diz ele, tem um neg\u00f3cio pr\u00f3prio. Vende mi\u00e7angas e colares artesanais pelas praias e ruas comerciais.<\/p>\n<p>Carmelo e a jovem mulher fazem os adere\u00e7os (\u201cmais ela do que eu\u201d) \u00e0 noite e, pela manh\u00e3, ele sai \u00e0 cata de compradores, os turistas que visitam o lugar, \u201cespecialmente as mo\u00e7as bonitas\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Melhor assim, sou meu pr\u00f3prio patr\u00e3o \u2013 e me sinto mais livre. Por enquanto, est\u00e1 bom. Aqui na Ilha, se vive um dia de cada vez.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>A bem da verdade, ele s\u00f3 veio at\u00e9 o p\u00eder porque havia um bando de jovens por aqui, com suas m\u00e1quinas e celulares a fotografar tudo o que se via, inclusive e exageradamente a eles pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Tentou vender seus artesanatos, mas n\u00e3o lhe deram aten\u00e7\u00e3o, Nem sequer o pre\u00e7o lhe perguntaram. Poderiam ao menos pechinchar, como \u00e9 regra se fazer por essas bandas.<\/p>\n<p>Trocou algumas palavras em ingl\u00eas, com uma das mo\u00e7as. Depois, sentou-se na beira do p\u00eder, rindo, e puxou conversa:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, Brasil, voc\u00eas s\u00e3o bem divertidos. Gostam de falar em ingl\u00eas com a gente. S\u00f3 depois assumem o portunhol.<\/p>\n<p>Desconfiei que o \u201cBrasil\u201d era eu. E quis saber: como soube que era brasileiro?<\/p>\n<p>&#8211; Ora&#8230; Como lhe disse, voc\u00eas s\u00e3o divertidos, simp\u00e1ticos, t\u00eam um jeito pr\u00f3prio de andar e, principalmente, nos olham como iguais. <\/p>\n<p>&#8211; Ah! As mulheres s\u00e3o mui guapas, salerosas.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Enquanto Carmelo ria maroto, eu me contento com a defini\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>Nem tudo est\u00e1 perdido, penso.<\/p>\n<p>Em nosso Pa\u00eds, vivemos um momento terr\u00edvel, divisionista, com o avan\u00e7o do conservadorismo. No \u00edntimo, tor\u00e7o para que a percep\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o ao lado seja mesmo uma verdade promissora.  Tomara estejamos passando por uma transi\u00e7\u00e3o, mas, no fundo, o brasileiro continua sendo \u201cum homem cordial\u201d, no dizer do historiador S\u00e9rgio Buarque de Holanda, o pai do Chico.<\/p>\n<p>Quero retribuir o interesse generoso e amigo de Carmelo, ent\u00e3o pe\u00e7o a ele que me fale da Ilha, a hist\u00f3ria, os pontos tur\u00edsticos, como \u00e9 viver aqui, essas coisas.<\/p>\n<p>&#8211; Outra hora, Brasil. Preciso vender meus colares. Como lhe disse, na Ilha se vive um dia de cada vez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211; Na Ilha, me chamam de Caramelo. Mas, meu nome \u00e9 Carmelo.<\/p>\n<p>Eu acabo de conhec\u00ea-lo. \u00c9 um negro esguio, a\u00ed por volta dos 30 anos. 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