{"id":13036,"date":"2015-03-16T00:00:00","date_gmt":"2015-03-16T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-29T22:34:01","modified_gmt":"2018-03-29T22:34:01","slug":"o-pais-e-a-imprensa-na-encruzilhada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-pais-e-a-imprensa-na-encruzilhada\/","title":{"rendered":"O Pa\u00eds e a Imprensa na encruzilhada"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Ricardo Kotscho<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Universidade Metodista\/Aula Magna\/16.3.2015<\/p>\n<p>Bom dia,<\/p>\n<p>Antes de mais nada, quero agradecer aos professores Eduardo Nunomura e Rodolfo Martino pelo honroso convite para estar com voc\u00eas aqui hoje.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o sou professor e n\u00e3o sei falar de improviso, vou ler este texto que preparei baseado num roteiro que eles me mandaram.<\/p>\n<p>1. 50 anos depois (1964-2014)<\/p>\n<p>Comecei minha carreira trabalhando em jornais de bairro de S\u00e3o Paulo no ano de 1964, logo ap\u00f3s o golpe que jogou o pa\u00eds numa ditadura militar por longos 21 anos.<\/p>\n<p>J\u00e1 completei, portanto, 50 anos de profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>E sobrevivi, como voc\u00eas podem constatar&#8230;<\/p>\n<p>Ponham-se agora no meu lugar e imaginem o que voc\u00eas poderiam dizer daqui a 50 anos, ao fazer um balan\u00e7o do que se passou neste per\u00edodo, e ainda fazer uma proje\u00e7\u00e3o sobre o que pode acontecer nos pr\u00f3ximos 50.<\/p>\n<p>Pois foi mais ou menos o que me pediram. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas vou tentar.<\/p>\n<p>Para come\u00e7o de conversa, vivemos hoje a mais grave crise enfrentada pelo nosso pa\u00eds e pelo jornalismo desde que me conhe\u00e7o por gente.<\/p>\n<p>O Pa\u00eds e a imprensa est\u00e3o numa encruzilhada.<\/p>\n<p>Das decis\u00f5es que tomarmos agora vai depender o futuro da nossa profiss\u00e3o e do nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para onde estamos indo? Aonde queremos chegar?<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o as perguntas que devemos nos fazer. Encontrar as respostas \u00e9 uma tarefa de todos.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para separar o profissional do cidad\u00e3o, assim como a hist\u00f3ria recente do pa\u00eds \u00e9 umbilicalmente ligada ao papel exercido pela imprensa em cada momento.<\/p>\n<p>Com rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, a chamada grande imprensa teve uma participa\u00e7\u00e3o decisiva na arma\u00e7\u00e3o do golpe c\u00edvico-militar de 1964, assim como, duas d\u00e9cadas depois, teria importante papel no processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Escrevo antes das marchas programadas para este domingo, com o apoio ostensivo da mesma imprensa, que continua nas m\u00e3os dos mesmos donos, cada vez mais determinados a derrubar o governo eleito, assim como j\u00e1 fizeram antes com Get\u00falio e Jango.<\/p>\n<p>S\u00f3 espero que a hist\u00f3ria n\u00e3o se repita, nem como farsa.<\/p>\n<p>2. Vida de rep\u00f3rter<\/p>\n<p>Atravessei a maior parte destes 50 anos trabalhando como rep\u00f3rter _ a melhor profiss\u00e3o do mundo, segundo Gabriel Garcia Marquez.<\/p>\n<p>Dos jornais de bairro de Santo Amaro passei direto para o Estad\u00e3o, o principal jornal brasileiro da \u00e9poca, em 1967, quando eu tinha 18 anos.<\/p>\n<p>Entrei como estagi\u00e1rio e s\u00f3 recebi meu primeiro sal\u00e1rio seis meses depois.<\/p>\n<p>Quer dizer, pagava para trabalhar, gra\u00e7as \u00e0 ajuda da minha m\u00e3e, que, ali\u00e1s, n\u00e3o queria que eu fosse jornalista, como o pai dela.<\/p>\n<p>No Estad\u00e3o, onde fiquei mais de 10 anos e que foi minha grande escola (eu n\u00e3o terminei nenhuma faculdade), passei pelas mais diferentes fun\u00e7\u00f5es, chegando a editor, chefe de reportagem e rep\u00f3rter especial.<\/p>\n<p>Dali sa\u00ed para ser correspondente do Jornal do Brasil na Europa por dois anos, e depois trabalhei em praticamente todos os principais ve\u00edculos impressos e televisivos do pa\u00eds, com exce\u00e7\u00e3o da revista Veja.<\/p>\n<p>Esta hist\u00f3ria \u00e9 muito longa, poderia passar dias aqui contando, mas voc\u00eas podem encontra-la no livro \u201cDo Golpe ao Planalto _ Uma vida de rep\u00f3rter\u201d, publicado pela Companhia das Letras, em 2006.<\/p>\n<p>Neste resumo, prefiro falar da minha paix\u00e3o pela reportagem, um amor \u00e0 primeira vista e que nunca acaba.<\/p>\n<p>Rep\u00f3rter ser\u00e1 sempre o cora\u00e7\u00e3o e a alma de qualquer reda\u00e7\u00e3o, em qualquer plataforma. \u00c9 a melhor maneira de voc\u00ea conhecer pessoas e lugares, descobrir novidades e ver a vida acontecendo para poder contar depois.<\/p>\n<p>3. Hist\u00f3rias humanas<\/p>\n<p>\u201cPoesia \u00e9 encontrar uma \u00e1rvore esquecida \u00e0 beira da estrada e glorifica-la.<\/p>\n<p>O jornalista de ra\u00e7a \u00e9 um m\u00e1gico. Transfigura o an\u00f4nimo em not\u00e1vel, celebra o desapercebido, enquadra o texto no contexto. Enquanto n\u00f3s nos limitamos a olhar, ele v\u00ea as coisas, pessoas, a paisagem. V\u00ea e conta\u201d.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a melhor defini\u00e7\u00e3o de rep\u00f3rter que j\u00e1 li na vida. Quem a escreveu a m\u00e3o foi o velho amigo Ulysses Guimar\u00e3es, no pref\u00e1cio do meu livro \u201cExplode um Novo Brasil _ Di\u00e1rio da Campanha das Diretas\u201d, publicado pela Editora Brasiliense em 1984.<\/p>\n<p>\u00c9 chato falar da gente mesmo. Afinal, rep\u00f3rter \u00e9 pago para escrever sobre a vida dos outros&#8230;<\/p>\n<p>Por isso, prefiro transcrever outro trecho do pref\u00e1cio do doutor Ulysses em que ele fala do meu trabalho _ o maior pr\u00eamio que j\u00e1 recebi na vida.<\/p>\n<p>\u201cAndei com ele por pra\u00e7as e ruas deste infind\u00e1vel pa\u00eds. Entupidas de gente, de berros e de gestos de revolta e de esperan\u00e7a. Quando lia suas reportagens na Folha de S. Paulo ficava surpreendido e encantado.<\/p>\n<p>\u201cComo \u00e9 que o Ricardo viu aquele jovem fren\u00e9tico, registrou a originalidade daquele d\u00edstico, enxergou aquela mulher chorando, ouviu daquele velho as hist\u00f3rias de outros com\u00edcios e outros personagens?<\/p>\n<p>\u201cEle n\u00e3o se absorve nas estrelas do acontecimento. Sua pena \u00e9 tamb\u00e9m alto-falante da multid\u00e3o, assegura-lhe o papel de personagem no grande e terr\u00edvel drama social brasileiro.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia, 18 de abril de 1984<br \/>\nDeputado Ulisses Guimar\u00e3es\u201d.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, nada tenho a acrescentar: rep\u00f3rter \u00e9 exatamente isso, n\u00e3o tem muito segredo.<\/p>\n<p>Uma vez um jornalista acad\u00eamico me criticou por s\u00f3 escrever \u201cmat\u00e9rias humanas\u201d. E eu lhe respondi, perguntando: e o que queria que eu fizesse, mat\u00e9rias animais, minerais, siderais, se nosso of\u00edcio \u00e9 exatamente falar da aventura humana para humanos?<\/p>\n<p>S\u00e3o cada vez mais raras estas mat\u00e9rias na nossa imprensa, e eu n\u00e3o sei dizer se isto se deve \u00e0s empresas ou aos profissionais que n\u00e3o demonstram mais interesse e tes\u00e3o em faz\u00ea-las.<\/p>\n<p>Acho triste isso porque o Brasil \u00e9 um pa\u00eds em que voc\u00ea trope\u00e7a em boas hist\u00f3rias, em qualquer lugar.<\/p>\n<p>Est\u00e3o s\u00f3 esperando algu\u00e9m para conta-las. Pode ser voc\u00ea, que est\u00e1 aqui me ouvindo, por exemplo&#8230; Basta levantar a bunda da cadeira, largar o telefone e a internet, sair da reda\u00e7\u00e3o e ir para a rua. Uma boa hist\u00f3ria sempre encontrar\u00e1 lugar para ser publicada, nem que seja s\u00f3 no teu Facebook.<\/p>\n<p>4. No lugar certo, na hora certa<\/p>\n<p>Por insond\u00e1veis mist\u00e9rios do destino, uma coisa que sempre me ajudou na carreira foi estar no lugar certo, na hora certa, tanto nos empregos como nas reportagens.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o dependeu s\u00f3 de sorte, mas tamb\u00e9m da disposi\u00e7\u00e3o de correr o risco de mudar quando n\u00e3o me sentia bem num lugar ou procurar um novo \u00e2ngulo para uma velha hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, nunca fui demitido de um emprego. Nunca dei a nenhuma empresa o prazer de me mandar embora e me dei bem nas trocas que fiz, n\u00e3o tenho arrependimentos.<\/p>\n<p>Assim, trabalhei nas principais reda\u00e7\u00f5es do pa\u00eds nos melhores momentos das diferentes empresas e depois acabei voltando para algumas delas.<\/p>\n<p>Certamente isso n\u00e3o aconteceu pelos meus belos olhos nem por ter bons amigos. Por mais que voc\u00ea j\u00e1 tenha feito, tem que estar sempre disposto a mostrar servi\u00e7o, n\u00e3o recusar uma pauta, acreditar em todas.<\/p>\n<p>Pautas raramente caem do c\u00e9u. Quando comecei, nem pauteiro existia nas reda\u00e7\u00f5es. \u00c9 voc\u00ea que precisa correr atr\u00e1s dos bons assuntos, ter iniciativa, ficar sempre antenado, cultivar fontes e chegar cedo para estar no lugar certo na hora certa.<\/p>\n<p>Um bom caminho \u00e9 n\u00e3o ser arrogante, n\u00e3o achar que voc\u00ea j\u00e1 sabe tudo e se preparar bem antes de sair a campo, descobrir bons personagens e tra\u00e7ar um roteiro para n\u00e3o perder tempo.<\/p>\n<p>Hoje, com o santo doutor Google, isso ficou muito mais f\u00e1cil, e n\u00e3o \u00e9 vergonha consulta-lo para saber como se escreve determinada palavra. Feio \u00e9 escrever errado e n\u00e3o admitir o erro.<\/p>\n<p>Uma vez, no final dos anos 1970, quando era correspondente do Jornal do Brasil na Alemanha, me mandaram cobrir uma importante reuni\u00e3o de chefes de Estado europeus na Dinamarca.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o era sobre bombas de n\u00eautrons, e eu n\u00e3o tinha a menor ideia do que se tratava. A reuni\u00e3o j\u00e1 tinha come\u00e7ado, n\u00e3o deu tempo de fazer uma pesquisa. Era um s\u00e1bado \u00e0 tarde, fui correndo para o aeroporto.<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o corria a portas fechadas e eu nem sei falar ingl\u00eas. Estava no mato sem cachorro. Por sorte, encontrei l\u00e1 um jornalista alem\u00e3o, da revista \u201cDer Spiegel\u201d, que era especialista no assunto e me explicou tudo o que estava acontecendo. Mandei mat\u00e9ria no mesmo dia. E, al\u00e9m de garantir meu emprego, fui muito elogiado, acharam que eu era um g\u00eanio&#8230; Se eles soubessem&#8230;<\/p>\n<p>5. Amigo e assessor de Lula<\/p>\n<p>Quando voltei da Alemanha, no final de 1978, fui trabalhar na revista Isto\u00c9 com o Mino Carta e logo ele me mandou a S\u00e3o Bernardo do Campo para entrevistar um tal de Lula, presidente do Sindicato dos Metal\u00fargicos, que eu n\u00e3o conhecia pessoalmente.<\/p>\n<p>Para mim, Lula era s\u00f3 uma pauta, mas logo descobriria que S\u00e3o Bernardo, palco das grandes greves, tinha se transformado no principal centro de resist\u00eancia \u00e0 ditadura, atraindo todo tipo de gente em torno do sindicato.<\/p>\n<p>Lula n\u00e3o foi muito com a minha cara. Como eu usava barba, e ele n\u00e3o, me chamou de \u201cmais um intelectualzinho da USP que vem aqui pra me encher o saco\u201d. Mas logo ficamos velhos amigos, gra\u00e7as ao Mino Carta e a um amigo comum, o Frei Betto.<\/p>\n<p>Dez anos depois, fui visita-lo no hospital onde ele tinha feito uma cirurgia, pouco antes de come\u00e7ar a campanha presidencial de 1989, a primeira depois da volta das elei\u00e7\u00f5es diretas.<\/p>\n<p>Nossas fam\u00edlias j\u00e1 eram muito pr\u00f3ximas e acho que por isso ele me convidou para ser seu assessor de imprensa. Eu nem era filiado ao PT, como n\u00e3o sou at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Para encurtar a hist\u00f3ria, fui seu assessor em 1989, depois em 1994 e, finalmente, em 2002, quando Lula foi eleito e me chamou para ser seu secret\u00e1rio de Imprensa, cargo que ocupei por dois anos. Continuo seu amigo at\u00e9 hoje, mas temos nos falado pouco ultimamente.<\/p>\n<p>Neste trabalho de assessor, conheci o outro lado do balc\u00e3o e vi como \u00e9 a conflituosa rela\u00e7\u00e3o da imprensa com o poder.<\/p>\n<p>Aprendi muito, tenho orgulho do trabalho que fiz no governo, mas n\u00e3o recomendo este servi\u00e7o para ningu\u00e9m. N\u00e3o faz bem para a sa\u00fade nem para a alma. \u00c9 melhor ser rep\u00f3rter.<\/p>\n<p>6. Pa\u00eds melhor, imprensa pior<\/p>\n<p>Olhando para tr\u00e1s, se for comparar o Brasil de quando comecei a trabalhar na profiss\u00e3o com o de hoje, s\u00f3 posso dizer que melhoramos muito nestes 50 anos, progredimos em todas as \u00e1reas da vida nacional, menos na imprensa.<\/p>\n<p>Claro que os bar\u00f5es da imprensa e seus porta-vozes v\u00e3o dizer exatamente o oposto. Para eles, o Brasil est\u00e1 se acabando, afundando na lama da corrup\u00e7\u00e3o, nunca esteve t\u00e3o ruim. E a m\u00eddia brasileira, ao contr\u00e1rio, \u00e9 a s\u00e9tima maravilha do mundo _ moderna, independente, com profissionais da maior compet\u00eancia, o \u00fanico orgulho nacional.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, ao longo dos \u00faltimos anos, criou-se imenso abismo entre a imprensa e o pa\u00eds, um cada vez mais distante do outro, vivendo realidades completamente diferentes.<\/p>\n<p>O Brasil real n\u00e3o est\u00e1 na m\u00eddia e a m\u00eddia fala outra l\u00edngua, vive em outro pa\u00eds.<\/p>\n<p>Encontram-se ambos agora numa encruzilhada. A partir do momento em que a grande imprensa assumiu oficialmente a lideran\u00e7a da oposi\u00e7\u00e3o _ como anunciou a ent\u00e3o presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Jornais, Judith Brito _ tivemos um desequil\u00edbrio na rela\u00e7\u00e3o entre os poderes.<\/p>\n<p>Chamada de quarto poder, a imprensa passou gradativamente a ocupar o papel dos outros tr\u00eas, querendo se tornar o primeiro e \u00fanico. Passou a comandar a pauta pol\u00edtica, a julgar o que \u00e9 certo ou errado e a criar suas pr\u00f3prias leis, que podem ser resumidas numa s\u00f3: a lei do mais forte.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a informa\u00e7\u00e3o se democratizou com o advento da internet e das novas m\u00eddias, a maior revolu\u00e7\u00e3o nas comunica\u00e7\u00f5es humanas desde que o alem\u00e3o Johannes Gutenberg inventou a imprensa, como a conhecemos hoje, cinco s\u00e9culos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Podemos agora ser todos receptores e emissores de informa\u00e7\u00f5es e opini\u00f5es, para o bem ou para o mal, dependendo do uso que fazemos deste instrumento. Isto n\u00e3o quer dizer que os jornalistas nos tornamos dispens\u00e1veis, muito ao contr\u00e1rio: na zona em que se transformou a blogosfera, nunca fomos t\u00e3o necess\u00e1rios para apurar, selecionar e editar informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis.<\/p>\n<p>Por isso, urge a cria\u00e7\u00e3o de um marco regulat\u00f3rio das comunica\u00e7\u00f5es, para estabelecer regras do jogo claras e civilizadas. Mas este debate foi interditado pela velha m\u00eddia familiar, a mais retr\u00f3grada do mundo, que ainda manda no Congresso Nacional e domina o Judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>7. O mercado e o futuro<\/p>\n<p>Vamos agora apagar o cen\u00e1rio pouco animador descrito acima, mas que \u00e9 a realidade destes dias dif\u00edceis que vivemos no momento, no pa\u00eds e na imprensa.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso vender ilus\u00f5es para voc\u00eas, nem brigar com os fatos.<\/p>\n<p>O fato, por\u00e9m, de ser assim hoje, n\u00e3o quer dizer que ser\u00e1 assim amanh\u00e3 e sempre.<\/p>\n<p>J\u00e1 foi muito pior, acreditem. Era muito mais dif\u00edcil ser jornalista em 1964 _ quando o mercado era restrito a meia d\u00fazia de reda\u00e7\u00f5es em cada cidade e a liberdade foi-se tornando cada vez menor _, do que agora, que as novas m\u00eddias abriram infinitas possibilidades de trabalho.<\/p>\n<p>Vamos fazer de conta que estamos em 2065.<\/p>\n<p>Olhando para tr\u00e1s, o que veremos daqui a 50 anos?<\/p>\n<p>\u00c9 nisso que voc\u00eas precisam pensar e acreditar: n\u00e3o se contentem com o que existe, mas com o mundo que voc\u00eas poder\u00e3o criar.<\/p>\n<p>Na encruzilhada, estamos vivendo o final de uma, \u00e9poca em v\u00e1rios sentidos e latitudes _, da fal\u00eancia do velho sistema pol\u00edtico \u00e0 crise da velha imprensa.<\/p>\n<p>Crise em grego quer dizer oportunidade. E \u00e9 nos momentos de crise que surgem as oportunidades de mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Eu mesmo, que j\u00e1 n\u00e3o sou t\u00e3o jovem, mudei minha vida profissional faz dez anos, ao trocar a m\u00eddia impressa pela eletr\u00f4nica.<\/p>\n<p>Virei blogueiro e depois comentarista de televis\u00e3o, coisas com que nunca tinha sonhado na vida.<\/p>\n<p>E continuei fazendo reportagens para a revista Brasileiros, que ajudei a criar, at\u00e9 onde a sa\u00fade permitiu.<\/p>\n<p>N\u00e3o senti nenhuma diferen\u00e7a ao trabalhar para diferentes meios. Para mim, tanto faz qual \u00e9 a plataforma: eu tenho que ter uma boa hist\u00f3ria, uma novidade para contar.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a natureza da nossa profiss\u00e3o e isto nunca vai mudar: precisamos estar sempre de olhos e ouvidos bem abertos para ver e ouvir o que h\u00e1 de novo, algo capaz de surpreender nossos leitores, ouvintes, internautas ou telespectadores, tanto faz.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea n\u00e3o acha ou n\u00e3o gosta do emprego, inventa um, como costuma dizer o Mino Carta.<\/p>\n<p>Hoje, com a internet, ficou muito mais f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Deixem de lado os preconceitos e os medos, e fiquem bem atentos aos sinais do mercado, que mudam a toda hora.<\/p>\n<p>S\u00f3 para voc\u00eas terem uma ideia, a maioria dos empregos j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 nas reda\u00e7\u00f5es dos grandes ve\u00edculos, mas nas assessorias de imprensa, nas ag\u00eancias de comunica\u00e7\u00e3o, na imprensa comunit\u00e1ria e sindical _ ou mesmo em casa. Basta ter uma boa ideia e um computador razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>Sim, cada vez \u00e9 maior o n\u00famero de profissionais que criaram um nicho de mercado e ganham a vida sem precisar sair de casa.<\/p>\n<p>\u00c9 at\u00e9 engra\u00e7ado eu dizer isso porque passei a vida toda dizendo que lugar de rep\u00f3rter \u00e9 na rua.<\/p>\n<p>Ainda acho, mas as coisas mudam e a gente tem que se adaptar \u00e0 realidade.<\/p>\n<p>Tem espa\u00e7o para todo mundo em qualquer lugar. S\u00f3 precisamos descobrir aonde, e ir atr\u00e1s, definir o que a gente quer, estabelecer a nossa meta e a nossa \u00e9tica.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 fazer o que a gente gosta e ganhar um dinheiro para pagar as contas no fim do m\u00eas.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o, o cargo ou a empresa que vai fazer o bom profissional, \u00e9 o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nesta profiss\u00e3o, s\u00f3 n\u00e3o vale ser infeliz, ficar reclamando da vida.<\/p>\n<p>Voc\u00eas escolheram a melhor profiss\u00e3o do mundo e vivem no melhor pa\u00eds do mundo.<\/p>\n<p>Conheci, trabalhando, este pa\u00eds inteiro, de ponta a ponta, e boa parte do mundo. Sei do que estou falando.<\/p>\n<p>Posso garantir a voc\u00eas que vale a pena ser jornalista e n\u00e3o \u00e9 preciso sair do Brasil para ser feliz.<\/p>\n<p>Espero que voc\u00eas possam dizer a mesma coisa daqui a 50 anos. Boa sorte!<\/p>\n<p>J\u00e1 falei demais.<\/p>\n<p>Agora, vamos conversar.<\/p>\n<p>Obrigado pelo convite.<br \/>\nRicardo Kotscho<\/p>\n<p><em>* Leia tamb\u00e9m o blog Balaio do Kotscho<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>por Ricardo Kotscho<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Universidade Metodista\/Aula Magna\/16.3.2015<\/p>\n<p>Bom dia,<\/p>\n<p>Antes de mais nada, quero agradecer aos professores Eduardo Nunomura e Rodolfo Martino pelo honroso convite para estar com voc\u00eas aqui hoje.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-13036","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uns-e-outros"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13036","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13036"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13036\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18603,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13036\/revisions\/18603"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13036"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13036"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13036"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}