{"id":13087,"date":"2015-05-25T00:00:00","date_gmt":"2015-05-25T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:39:28","modified_gmt":"2017-09-14T03:39:28","slug":"repoteres-e-robos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/repoteres-e-robos\/","title":{"rendered":"Rep\u00f3teres e rob\u00f4s"},"content":{"rendered":"<p>Respondo ao Luciano, um dos meus cinco ou seis fi\u00e9is seguidores (ui!) aqui no Blog. Ele n\u00e3o \u00e9 do ramo, mas se diz preocupado com os rumos que segue o jornalismo atualmente e, pior, com a possibilidade de rob\u00f4s substitu\u00edrem os rep\u00f3rteres nas reda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como diria Jack, o esquartejador, vamos por partes.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m me preocupa o atual momento do jornalismo. Mais do que o futuro, eu diria.<\/p>\n<p>E explico.<\/p>\n<p>Hoje fala mais grosso a voz do Dono e quase n\u00e3o se ouve o que tem a dizer o<br \/>\nDono da voz.<\/p>\n<p>D\u00e1 para entender?<\/p>\n<p>Se n\u00e3o tiver em sintonia (ou coniv\u00eancia) com a verdade ab soluta dos propriet\u00e1rios dos grandes conglomerados de comunica\u00e7\u00e3o (e, portanto, com os interesses desses), o jornalista, creiam, ter\u00e1 pouqu\u00edssimo espa\u00e7o para viabilizar o seu trabalho.<\/p>\n<p>Por isso, h\u00e1 uma onda, cada vez maior, de os novos jornalistas investirem em uma carreira solo, fora das chamadas \u201cgrandes reda\u00e7\u00f5es\u201d. O desafio dessa turma \u2013 o bem-vindo desafio \u2013 \u00e9 inventar o pr\u00f3prio espa\u00e7o.<\/p>\n<p>De outro modo, n\u00e3o creio tanto assim na efic\u00e1cia das novas tecnologias para dimensionar o futuro do jornalismo.<\/p>\n<p>Mudam as plataformas, ok, mas em nada se alteram os pilares b\u00e1sicos, essenciais, ao que se convencionou chamar bom jornalismo. Aqueles mesmos que n\u00e3o canso de falar em sala de aula e, mesmo aqui, no Blog, j\u00e1 escrevi d\u00fazias de vezes ou mais.<\/p>\n<p>A saber:<\/p>\n<p>&#8211; o respeito \u00e0 verdade factual<\/p>\n<p>&#8211; a postura cr\u00edtica<\/p>\n<p>&#8211; a fun\u00e7\u00e3o fiscalizadora<\/p>\n<p>\u201cJornalismo \u00e9 oposi\u00e7\u00e3o. O resto \u00e9 armaz\u00e9m de secos e molhados\u201d, como disse l\u00e1 pratrazmente Millor Fernandes.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>A ess\u00eancia de tudo, meu caro, ainda continua sendo a boa e velha REPORTAGEM (grafo em caixa alta para que n\u00e3o haja d\u00favida): o rep\u00f3rter na rua, apurando os fatos, ouvindo as fontes, checando suas inquieta\u00e7\u00f5es e a verdade que levanta a cada passo que d\u00e1, a cada entrevista que faz.<\/p>\n<p>O rep\u00f3rter como mediador das demandas sociais. A colocar o interesse comum \u00e0 frente de qualquer outro interesse \u2013 inclusive, os pessoais e\/ou os que \u2018patr\u00f5es\u2019 defendem (e como defendem!).<\/p>\n<p>Eis o verdadeiro jornalismo de ontem, de hoje e de sempre.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Rob\u00f4s podem ajustar este e aquele dado, fazer esta e aquela conex\u00e3o e aprontar um lead correto, impessoal, leg\u00edvel. Mas, algu\u00e9m precisar\u00e1 abastec\u00ea-lo com essas informa\u00e7\u00f5es e com a interpreta\u00e7\u00e3o contextual que adv\u00e9m da ocorr\u00eancia do fato.<\/p>\n<p>Responda-me a\u00ed, caro Luciano:<\/p>\n<p>Quem far\u00e1 isso, com precis\u00e3o e coragem?<\/p>\n<p>Quem ir\u00e1 pautar a m\u00e1quina?<\/p>\n<p>Quem vai hierarquizar essas informa\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Quem ser\u00e1 o historiador do cotidiano?<\/p>\n<p>PARTE 2<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Sempre que converso sobre este assunto (a robotiza\u00e7\u00e3o dos jornalistas) me vem \u00e0 mente a c\u00e9lebre capa do livro A Regra do Jogo, do inesquec\u00edvel Cl\u00e1udio Abramo.<\/p>\n<p>A capa exibe uma foto do grande mestre a enfrentar a sua brava Olivetti, com a cabe\u00e7a erguida, a refletir sobre o que estava escrevendo e informando.<\/p>\n<p>\u00c9 o retrato de uma \u00e9poca, de um jornalismo compromissado e algo rom\u00e2ntico, ok; mas feito com alma, engajado na luta di\u00e1ria pelo bem-comum.<\/p>\n<p>Estou sendo um tanto piegas, mas v\u00e1 l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Hoje, o que se v\u00ea nas reda\u00e7\u00f5es \u00e9 justamente o contr\u00e1rio. A rapaziada est\u00e1 acoplada \u00e0 m\u00e1quina, \u00e9 quase uma extens\u00e3o do computador. Ora pendura-se no telefone, ora consulta as tais redes sociais, ora volta a teclar. Muitos exibem coloridos fones de ouvidos que os ausenta da conviv\u00eancia com os iguais na \u00e1rdua lida pela not\u00edcia em tempo real.<\/p>\n<p>As jornadas s\u00e3o longas, e penosas.<\/p>\n<p>N\u00e3o os culpo, mas me preocupam.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o tomarem tento, logo estar\u00e3o eles pr\u00f3prios transformados em rob\u00f4s, prestes a serem descartados pelo \u201cn\u00facleo duro do poder\u201d (e toda a reda\u00e7\u00e3o tem o seu, n\u00e3o se iludam) assim que novos modelos sa\u00edrem das f\u00e1bricas \u2013 ou melhor, da universidade.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um panorama dos mais alentadores, digo sempre aos meus pares, aqui, na Universidade. Mas, penso, tende a mudar. Penso tamb\u00e9m que h\u00e1 infinitas possibilidades de se praticar um bom jornalismo mesmo fora das reda\u00e7\u00f5es famosas.<\/p>\n<p>O empecilho \u00e9 como ganhar dinheiro (monetizar, como dizem os especialistas) com essas novas possibilidades que se apresentam, seja em qual for a plataforma, digital ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o financeira, ali\u00e1s, assusta tamb\u00e9m (e, eu diria, principalmente) os grandes grupos de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A bem da verdade, n\u00e3o temos certeza alguma sobre o futuro do jornalismo.<\/p>\n<p>S\u00f3 sabemos que n\u00e3o vai desaparecer.<\/p>\n<p>O mundo s\u00f3 existe pra gente e a gente s\u00f3 existe para o mundo se nos informarmos sobre ele.<\/p>\n<p>Parte 3<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Querem um exemplo?<\/p>\n<p>(Bem atual, por sinal)<\/p>\n<p>L\u00e1 vai:<\/p>\n<p>Ontem, pela manh\u00e3, acordei com um baticum e um vozerio, tumultuando os arredores do pr\u00e9dio onde moro. Achei estranho e fui \u00e0 varanda do apartamento para ver o que acontecia.<\/p>\n<p>Era um grupo de trabalhadores \u2013 uns 100, pouco mais, pouco menos \u2013 que se manifestavam incentivados por uma voz que dizia palavras de ordem da carroceria de um caminh\u00e3o de som.<\/p>\n<p>Do d\u00e9cimo nono andar, nada chegava com clareza aos meus ouvidos. Quando muito entendi que a bronca era com o prefeito da cidade (S\u00e3o Bernardo do Campo), pois toda vez que o nome dele era citado surgiam vaias e apupos.<\/p>\n<p>Por mais que estivesse no palco \u2013 n\u00e3o t\u00e3o privilegiado assim &#8211; dos acontecimentos, n\u00e3o tinha a no\u00e7\u00e3o exata do que se sucedia.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o existia. N\u00e3o podia sequer legitimar as reivindica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tudo o que eu queria, naquele preciso momento, \u00e9 que a turma se mandasse logo dali visto que o tr\u00e2nsito come\u00e7ava a se tornar ca\u00f3tico \u2013 e eu precisaria ir para o trabalho logo, logo.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>S\u00f3 a caminho do trabalho, hora e tanto depois, soube pelo r\u00e1dio do carro o que de fato se deu ali bem diante do meu nariz.<\/p>\n<p>Resumo da \u00f3pera:<\/p>\n<p>Eram, sim, servidores municipais que, desde fevereiro, tentam uma audi\u00eancia com o prefeito Marinho para discutir quest\u00f5es salariais. Querem um aumento e, ao que consta, a paci\u00eancia da rapaziada se esgotou.<\/p>\n<p>Cheguei na Universidade e n\u00e3o tive tempo de ouvir a vers\u00e3o dos assessores da Prefeitura para o caso, mas, creio, j\u00e1 deu para os meus am\u00e1veis cinco ou seis leitores entender mais exatamente o que queria demonstrar.<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Outro exemplo.<\/p>\n<p>(Este mais positivo)<\/p>\n<p>Assisto na madrugada, num desses canais de TV por assinatura, um breve e empolgante show do grupo Casuarina. \u00c9 a primeira vez que vejo a rapaziada que faz um samba da melhor qualidade, no melhor estilo Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Fico impressionado.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas tantas o principal vocalista do grupo diz que \u201cmelhor do que trabalhar em fam\u00edlia \u00e9 divertir-se em fam\u00edlia\u201d. Na sequ\u00eancia chama \u201do seu dign\u00edssimo pai\u201d: Lenine.<\/p>\n<p>E todos cantam \u201cEu Quero Botar Meu Bloco Na Rua\u201d, do saudoso S\u00e9rgio Sampaio, num momento que me \u00e9 inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>Fim do espet\u00e1culo, os cr\u00e9ditos sobem na tela escura e, surpreso, constato que a grava\u00e7\u00e3o \u00e9 de 2012 e o show reverenciava os 10 anos de carreira dos meninos.<\/p>\n<p>Onde eu andei esse tempo todo?<\/p>\n<p>E onde andam os bons jornalistas que n\u00e3o me trouxeram not\u00edcias dos caras.<\/p>\n<p>PARTE 4<\/p>\n<p>X.<br \/>\nPara encerrar minhas platitudes sobre os rumos do jornalismo, lembro a afirma\u00e7\u00e3o que o rep\u00f3rter Gay Talese fez quando esteve no Brasil h\u00e1 coisa de dois ou tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>O autor de \u201cFama e Anonimato\u201d n\u00e3o usou exatamente essas palavras, mas em linhas gerais disse o seguinte: n\u00e3o \u00e9 por que o sujeito abre seu notebook na cozinha e se p\u00f5e a escrever sobre isso e aquilo que ele se tornou jornalista ou est\u00e1 fazendo jornalismo.<\/p>\n<p>O profissional de Imprensa \u2013 diz Talese \u2013 deve ir al\u00e9m das opini\u00f5es e dos palpites. Ele tem que ir para a rua apurar, entrevistar, ouvir, contrapor as informa\u00e7\u00f5es, recuperar o contexto em que a not\u00edcia se d\u00e1 para, a partir da\u00ed, redigir uma REPORTAGEM que definitivamente ESCLARE\u00c7A a opini\u00e3o p\u00fablica, sem que qualquer outro interesse (que n\u00e3o seja em prol do bem comum) se sobreponha \u00e0 verdade dos fatos.<\/p>\n<p>Portanto, meu caro amigo (que l\u00e1 no in\u00edcio da s\u00e9rie, estava preocupado com a quest\u00e3o), fique tranquilo. Apesar de os patr\u00f5es e os \u2018moderninhos\u2019 de plant\u00e3o torcerem pelo fim do ser humano nas reda\u00e7\u00f5es, vai demorar um tempinho para que os rob\u00f4s substituam os rep\u00f3rteres no fazer jornal\u00edstico.<\/p>\n<p>Afinal&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; a vida merece mais do que 140 caracteres.<\/p>\n<p>Por isso, termino essa mat\u00e9ria saudando os grandes rep\u00f3rteres de ontem, de hoje e de sempre: Oct\u00e1vio Ribeiro, Marcos Faerman, Joel Silveira, Z\u00e9 Hamilton Ribeiro, Ricardo Kotsho, Bob Fernandes, Tim Lopes, Aud\u00e1lio Dantas, Marines Campos, Caco Barcelos, Percival de Souza, J\u00falio Moreno, Valdir Sanches, Eliane Brum, entre outros tantos e tamanhos.<\/p>\n<p>Que o talento dessa turma aben\u00e7oe os que est\u00e3o por vir&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Respondo ao Luciano, um dos meus cinco ou seis fi\u00e9is seguidores (ui!) aqui no Blog. 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