{"id":13088,"date":"2015-02-26T00:00:00","date_gmt":"2015-02-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:40:29","modified_gmt":"2017-09-14T03:40:29","slug":"sete-tons-de-azuis","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/sete-tons-de-azuis\/","title":{"rendered":"Sete tons de azuis *"},"content":{"rendered":"<p>Se pudesse escolheria ficar por aqui diante dos sete tons de azuis do mar da Ilha de San Andr\u00e9s.<\/p>\n<p>Nessa tarde dolente, o sol n\u00e3o se mostra dos mais escaldantes \u2013 e, sozinho, nesse p\u00eder abandonado, sento-me \u00e0 borda no r\u00fastico cimento \u00e0 espera do nada ou, quando muito, que os respingos de alguma onda mais abusada refresque meu corpo e tempere o remoer de pensamentos esparsos.<\/p>\n<p>Por vezes, tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que, assim como esse espet\u00e1culo \u00e0 minha frente, a vida se divide (e revela) em camadas n\u00e3o claramente definidas \u2013 nem sempre azuis, como o mar de San Andr\u00e9s -, mas cont\u00ednuas e finitas.<\/p>\n<p>O vaiv\u00e9m das ondas, eu o comparo as atribula\u00e7\u00f5es nossas de cada dia.<\/p>\n<p>H\u00e1 que se super\u00e1-las sem que se incline em demasia o barco [e a coluna]. <\/p>\n<p>Naveg\u00e1-las com destreza (e alguma ousadia) simula o passar do tempo, sina que \u00e9 indel\u00e9vel a mim e a ele, o tempo [no dizer do poeta, \u201co senhor de todos os destinos\u201d].<\/p>\n<p>A linha do horizonte prop\u00f5e o mist\u00e9rio do que est\u00e1 por vir.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Vez ou outra algu\u00e9m se aproxima, caminha pelo p\u00eder, mas n\u00e3o me faz companhia.<\/p>\n<p>Sozinho ou em bando, quase todos os que chegam vem com o mesmo prop\u00f3sito. <\/p>\n<p>Interessam-se mais em fotografar a si pr\u00f3prios do que em admirar um cen\u00e1rio t\u00e3o raro, t\u00e3o contundentemente belo.<\/p>\n<p>Para eles, a onda \u00e9 registrar nas tais redes sociais, instantaneamente, que est\u00e3o felizes, sempre sorrindo, e lindos e elegantes e, assim digamos, invej\u00e1veis aos olhos do s\u00e9quito de seguidores, groupies e afins que possuem no face, no instagram, no twitter, no whats e no que mais pintar.<\/p>\n<p>Fazem caras e bocas, poses e gestos. S\u00e3o pr\u00edncipes e princesas que reinam sem se incomodar com o plebeu ali ao lado que talvez lhe estrague o selfie.<\/p>\n<p>Nada que, na edi\u00e7\u00e3o, o photo shop n\u00e3o d\u00ea jeito.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o me chamarem de \u201ctio\u201d ou coisa do g\u00eanero, eles n\u00e3o me importunam. Sei que logo v\u00e3o embora, \u00e0 procura de outro cen\u00e1rio para exibirem sua alegria moment\u00e2nea e posti\u00e7a.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Pensando melhor&#8230;<\/p>\n<p>Talvez eu devesse invej\u00e1-los pela disponibilidade com que viram as costas, sem remorsos, para as nuances desse mar e se posicionam, soberanos, como o centro do mundo, do pr\u00f3prio mundo [ou do mundo que lhes interessa estar, eu diria].<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguiria.<\/p>\n<p>Diante de tamanha beleza, o que sei (e me cabe) fazer \u00e9 olhar, olhar e olhar.<\/p>\n<p>\u00c9 o que me basta e consola.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 disse e repito agora: se pudesse escolheria ficar por aqui diante dos sete tons de azuis do mar da Ilha de San Andr\u00e9s<\/p>\n<p>PARTE 2.<\/p>\n<p>&#8211; Na Ilha, me chamam de Caramelo. Mas, meu nome \u00e9 Carmelo.<\/p>\n<p>Eu acabo de conhec\u00ea-lo. \u00c9 um negro esguio, a\u00ed por volta dos 30 anos. Que se aproxima do p\u00eder onde ainda estou [vendo a tarde se por diante dos sete tons de azuis do mar da Ilha de San Andr\u00e9s].<\/p>\n<p>Ele nasceu aqui e, como quase todos, vive do que o turismo lhe proporciona. J\u00e1 foi barqueiro (\u201cera bem divertido\u201d), trabalhou em hotel (\u201codiava usar aquelas roupas\u201d), em restaurantes (\u201cgostava das gorjetas que recebia\u201d), entre outras fun\u00e7\u00f5es. Agora, diz ele, tem um neg\u00f3cio pr\u00f3prio. Vende mi\u00e7angas e colares artesanais pelas praias e ruas comerciais.<\/p>\n<p>Carmelo e a jovem mulher fazem os adere\u00e7os (\u201cmais ela do que eu\u201d) \u00e0 noite e, pela manh\u00e3, ele sai \u00e0 cata de compradores, os turistas que visitam o lugar, \u201cespecialmente as mo\u00e7as bonitas\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Melhor assim, sou meu pr\u00f3prio patr\u00e3o \u2013 e me sinto mais livre. Por enquanto, est\u00e1 bom. Aqui na Ilha, se vive um dia de cada vez.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>A bem da verdade, ele s\u00f3 veio at\u00e9 o p\u00eder porque havia um bando de jovens por aqui, com suas m\u00e1quinas e celulares a fotografar tudo o que se via, inclusive e exageradamente a eles pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Tentou vender seus artesanatos, mas n\u00e3o lhe deram aten\u00e7\u00e3o, Nem sequer o pre\u00e7o lhe perguntaram. Poderiam ao menos pechinchar, como \u00e9 regra se fazer por essas bandas.<\/p>\n<p>Trocou algumas palavras em ingl\u00eas, com uma das mo\u00e7as. Depois, sentou-se na beira do p\u00eder, rindo, e puxou conversa:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, Brasil, voc\u00eas s\u00e3o bem divertidos. Gostam de falar em ingl\u00eas com a gente. S\u00f3 depois assumem o portunhol.<\/p>\n<p>Desconfiei que o \u201cBrasil\u201d era eu. E quis saber: como soube que era brasileiro?<\/p>\n<p>&#8211; Ora&#8230; Como lhe disse, voc\u00eas s\u00e3o divertidos, simp\u00e1ticos, t\u00eam um jeito pr\u00f3prio de andar e, principalmente, nos olham como iguais. <\/p>\n<p>&#8211; Ah! As mulheres s\u00e3o mui guapas, salerosas.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Enquanto Carmelo ria maroto, eu me contento com a defini\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>Nem tudo est\u00e1 perdido, penso.<\/p>\n<p>Em nosso Pa\u00eds, vivemos um momento terr\u00edvel, divisionista, com o avan\u00e7o do conservadorismo. No \u00edntimo, tor\u00e7o para que a percep\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o ao lado seja mesmo uma verdade promissora. Tomara estejamos passando por uma transi\u00e7\u00e3o, mas, no fundo, o brasileiro continua sendo \u201cum homem cordial\u201d, no dizer do historiador S\u00e9rgio Buarque de Holanda, o pai do Chico.<\/p>\n<p>Quero retribuir o interesse generoso e amigo de Carmelo, ent\u00e3o pe\u00e7o a ele que me fale da Ilha, a hist\u00f3ria, os pontos tur\u00edsticos, como \u00e9 viver aqui, essas coisas.<\/p>\n<p>&#8211; Outra hora, Brasil. Preciso vender meus colares. Como lhe disse, na Ilha se vive um dia de cada vez<\/p>\n<p>PARTE 3.<\/p>\n<p>Carmelo n\u00e3o deu trela \u00e0 minha curiosidade.<\/p>\n<p>Mas, nos tr\u00eas dias em que l\u00e1 fiquei, assuntei daqui e dali, como viajante parvo que sou por voca\u00e7\u00e3o e escolha, e posso lhes contar algumas coisas sobre o arquip\u00e9lago.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, esta foi a minha primeira (e soberba) descoberta: San Andr\u00e9s \u00e9 a sede de um arquip\u00e9lago de pequenas ilhotas tamb\u00e9m chamado San Andr\u00e9s.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Ingleses e espanh\u00f3is disputaram, ao longo dos s\u00e9culos passados, quem ficaria com a soberania do lugar. Que hoje pertence \u00e0 Col\u00f4mbia embora fique a 700 quil\u00f4metros do litoral do pa\u00eds e a menos de 100 quil\u00f4metros da Nicar\u00e1gua [pa\u00eds que tamb\u00e9m se arvorava dono do peda\u00e7o].<\/p>\n<p>A Corte Internacional de Justi\u00e7a deu parecer favor\u00e1vel \u00e0 Col\u00f4mbia em 19 de novembro de 2012.<\/p>\n<p>Na Ilha, percebo que os nativos, no futebol, torcem pela Col\u00f4mbia (e, onde voc\u00ea anda, v\u00ea a camisa da sele\u00e7\u00e3o). Quando se pergunta pela origem, eles preferem dizer que s\u00e3o \u201cilheenses\u201d.<\/p>\n<p>Faz sentido.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Por forma\u00e7\u00e3o e origem, a maior parte dos 77 mil habitantes se diz pertencer \u00e0 ra\u00e7a \u201canglo-afro-caribenha\u201d. Que adora Bob Marley e o reggae, a rumba, a c\u00fambia e todo e qualquer ritmo dan\u00e7ante, e exagerado.<\/p>\n<p>S\u00e3o simp\u00e1ticos, e brincalh\u00f5es.<\/p>\n<p>A pobreza do lugar n\u00e3o lhes tira o bom humor.<\/p>\n<p>\u201cA Ilha n\u00e3o fabrica nada. Tudo o que precisamos vem de fora. At\u00e9 a \u00e1gua que bebemos, acredita? A que se usa nos hot\u00e9is para os turistas \u00e9 desalinizada. S\u00f3 o que a Ilha produz s\u00e3o coquinhos, pescados e&#8230; negritos\u201d, me disse Carmelo ao me responder sobre a vida por aqui. <\/p>\n<p>\u201cTudo o mais \u00e9 turismo\u201d.<\/p>\n<p>PARTE 4<\/p>\n<p>A grande esperan\u00e7a dos ilheenses repousa no crescimento do turismo [que a cada ano \u00e9 maior e conta com o apoio interessado e interesseiro do governo colombiano].<\/p>\n<p>N\u00e3o espere encontrar, na Ilha, o requinte da Riviera Maya, nem a organiza\u00e7\u00e3o da af\u00e1vel Aruba ou o t\u00fanel do tempo de Havana (veja antes que acabe). San Andr\u00e9s tem l\u00e1 seus encantos que, ali\u00e1s, voc\u00ea pode conhec\u00ea-los, numa boa, alugando um carrinho de golfe (por 30 d\u00f3lares) e percorrendo os 26 quil\u00f4metros que formam o litoral de toda a ilha.<\/p>\n<p>No trajeto, voc\u00ea vai trope\u00e7ando em atra\u00e7\u00f5es, digamos, r\u00fasticas; mas divertidas como a Piscinita, o Olho Soprador, a caverna do Pirata Morgan, o bairro t\u00edpico de San Luiz, West Will e o Museu que conta um pouco da hist\u00f3ria da Ilha.<\/p>\n<p>Reserve um dia, para conhecer a Ilha de Johnny Cay, (paradis\u00edaca) e outro, para visitar o que chamam de Aqu\u00e1rio e mergulhar (com snorks) entre peixes e arraias gigantes. N\u00e3o faz bem o meu g\u00eanero, mas quase todos gostam.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Sei que o d\u00f3lar a 3 paus n\u00e3o d\u00e1 mole \u00e0 ningu\u00e9m. <\/p>\n<p>No entanto, se o turist\u00e3o quiser se arriscar nas ruas comerciais da Ilha pode se dar bem. Especialmente se souber garimpar legal nas \u00e1reas de perfumaria, bebidas, eletr\u00f4nicos, materiais esportivos, malas de viagem e similares.<\/p>\n<p>Os artigos s\u00e3o livres de taxas, mas a conversinha dos vendedores pode confundir na hora de converter o pre\u00e7o de pesos colombianos para d\u00f3lares e, posteriormente, para real.<\/p>\n<p>Restaurantes e lanchonetes v\u00e3o na mesma linha. Quase todos modestos, mas corretos nas op\u00e7\u00f5es de pratos e, v\u00e1 l\u00e1, no pre\u00e7o.<\/p>\n<p>O cafezinho na rede Juan Valdez, este sim, \u00e9 imperd\u00edvel.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se ficou claro nesta s\u00e9rie de textos, n\u00e3o espere luxo e sofistica\u00e7\u00e3o na estada que fizer na Ilha de San Andr\u00e9s.<\/p>\n<p>Eu, particularmente, me senti \u00e0 vontade por ali. Principalmente quando me sentava \u00e0 beira do p\u00eder e ficava, ali, de bobeira, admirando os sete tons de azuis do mar \u2013 verdadeiramente a grande atra\u00e7\u00e3o do lugar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se pudesse escolheria ficar por aqui diante dos sete tons de azuis do mar da Ilha de San Andr\u00e9s.<\/p>\n<p>Nessa tarde dolente, o sol n\u00e3o se mostra dos mais escaldantes \u2013 e,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-13088","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13088","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13088"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13088\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13909,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13088\/revisions\/13909"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13088"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13088"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13088"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}