{"id":13105,"date":"2015-04-10T00:00:00","date_gmt":"2015-04-10T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:40:03","modified_gmt":"2017-09-14T03:40:03","slug":"apesar-de-voce-a-cancao-e-a-censura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/apesar-de-voce-a-cancao-e-a-censura\/","title":{"rendered":"Apesar de Voc\u00ea, a can\u00e7\u00e3o e a censura"},"content":{"rendered":"<p>A coisa aqui andava preta. <\/p>\n<p>In\u00edcio dos anos 70. A ditadura (esta que o pessoal quer de volta) comia solta. <\/p>\n<p>No embalo do caudilho da vez, o general M\u00e9dici, a tigrada fazia e acontecia. Eram os senhores do Poder \u2013 e n\u00e3o permitiam que ningu\u00e9m ousasse criticar seus feitos e decis\u00f5es.<\/p>\n<p>A censura era implac\u00e1vel. Nos jornais, nas artes.<\/p>\n<p>Todo e qualquer obra precisava pelo visto dos auto-intitulados \u201ctutores da ordem p\u00fablica\u201d<\/p>\n<p>A chamada MPB era um dos principais alvos da \u2018zelosa\u2019 tesoura.<\/p>\n<p>Compositores como Chico Buarque de Holanda, por exemplo, n\u00e3o conseguiam passar nem se fizessem uma cantiga de roda. Os tais j\u00e1 estavam de sobreaviso: o que pintasse por ali, assinado por Chico, era pra ser vetado \u2013 e n\u00e3o havia choro, nem vela.<\/p>\n<p>A tal ponto que Chico chegou a gravar um disco s\u00f3 como int\u00e9rprete, Meus Caros Amigos. A bem da verdade, o compositor inventou um heter\u00f4nimo, Julinho da Adelaide, que assinou a not\u00e1vel \u201cChame Um Ladr\u00e3o\u201d, uma das faixas mais tocada do disco que fez enorme sucesso.<\/p>\n<p>Depois que os homens descobriram a farsa e o vacilo, a\u00ed que o caldo engrossou de vez.<\/p>\n<p>Chico era persona non grata ao Sistem\u00e3o.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Houve uma inevit\u00e1vel entressafra em termos de composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Chico fazia seus shows, cantava velhos sucessos; mas, nada de can\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas para a grava\u00e7\u00e3o de um novo elep\u00ea.<\/p>\n<p>O fato atemorizava a dire\u00e7\u00e3o da Philips\/Polygran. Seus produtores andavam desalentados com a produ\u00e7\u00e3o do artista. Chico n\u00e3o aliviava \u2013 e era \u00f3bvio que, naquela toada de composi\u00e7\u00e3o, os vetos seriam inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p>III. <\/p>\n<p>Certa tarde, o produtor Manoel Barenboim, que conhecia Chico desde os tempos em que cursava a Faculdade de Arquitetura em S\u00e3o Paulo, recebeu um telefonema de Chico ansioso para lhe mostrar a nova can\u00e7\u00e3o que fizera. <\/p>\n<p>Era para Barenboim largar tudo o que estava fazendo e encontr\u00e1-lo na mesma hora.<\/p>\n<p>Barenboim foi at\u00e9 a casa de Chico e l\u00e1 encontrou o compositor, ao lado de Vinicius de Moraes, j\u00e1 de viol\u00e3o em punho para lhe mostrar a rec\u00e9m terminada \u201cApesar de Voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p>O produtor desconfiou que era uma roubada. <\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Diante do entusiasmo do autor e at\u00e9 do Poetinha, topou grav\u00e1-la no dia seguinte \u2013 o que foi feito ainda com alguma desconfian\u00e7a.<\/p>\n<p>Mesmo assim, mandou prensar os compactos simples enquanto aguardava o veredito da censura.<\/p>\n<p>No que eles autorizassem, o disquinho iria para a rua no mesmo instante.<br \/>\nIV.<\/p>\n<p>&#8211; Pode soltar roj\u00f5es. Passou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o vai acreditar. A m\u00fasica do Chico passou.<\/p>\n<p>&#8211; Do que voc\u00ea est\u00e1 falando?<\/p>\n<p>&#8211; \u201cApesar de voc\u00ea\u201d. Os homens aprovaram, sem cortes.<\/p>\n<p>Manoel Barenboim n\u00e3o s\u00f3 acreditou no que lhe dizia ao telefone o representante da Philips em Bras\u00edlia como fez mais e melhor. Ligou para todos os setores da gravadora para que n\u00e3o perdessem um minuto sequer \u2013 e colocasse nas lojas o compacto de Chico Buarque que a censura acabara de liberar.<\/p>\n<p>No dia seguinte, o disco estava nas melhores casas do ramo e nas r\u00e1dios (que mal acreditaram quando receberam o material de divulga\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Em dois dias, o samba estava na boca do povo. Vendeu 80 mil exemplares. Com menos de uma semana, j\u00e1 batia os 100 mil.<\/p>\n<p>Sucesso absoluto.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Sucesso absoluto at\u00e9 que o jornalista Sebasti\u00e3o Nery publicou uma inocente nota no jornal Tribuna da Imprensa. Ele se dizia encantado: a can\u00e7\u00e3o de Chico virara hino da juventude. Inclusive os pr\u00f3prios filhos do jornalista a cantavam da manh\u00e3 \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m de farda suspeitou que houvesse algo de estranho naquela publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(Nesse \u00ednterim, a cantora Clara Nunes, de incr\u00edvel popularidade \u00e0 \u00e9poca, se encantou com a m\u00fasica e decidiu grav\u00e1-la no disco que estava finalizando. Dizem que Clara n\u00e3o se deu conta do cunho pol\u00edtico dos versos de \u201cApesar de Voc\u00ea\u201d. Imaginou que se tratasse de um desabafo de algu\u00e9m que viu seu amor desmoronar.)<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>No depoimento de Sebasti\u00e3o Nery ao Departamento de Censura, os senhores do Poder, enfim, se deram conta de que haviam comido bola. O \u201cvoc\u00ea\u201d que Chico entoava era ningu\u00e9m mais, ningu\u00e9m menos que o general-presidente de plant\u00e3o, M\u00e9dici. Por extens\u00e3o, a letra proclamava que, apesar da ditadura, \u201camanh\u00e3 h\u00e1 de ser um novo dia\u201d.<\/p>\n<p>Foi o suficiente para que a festa acabasse.<\/p>\n<p>Os discos foram recolhidos das lojas. As r\u00e1dios foram proibidas de execut\u00e1-la. E for\u00e7as militares invadiram os dep\u00f3sitos da gravadora e de l\u00e1 levaram caixas e caixas de compactos que ainda seriam distribu\u00eddos por todo o Brasil.<\/p>\n<p>O censor que a liberou foi demitido por incompet\u00eancia.<\/p>\n<p>Clara Nunes foi \u201cconvidada\u201d a reparar o erro e se apresentar na Olimp\u00edada do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>E Chico continuou na dele:<\/p>\n<p>\u201cA censura me enche muito o saco. Mas, eu tamb\u00e9m encho muito o saco da censura.\u201d<\/p>\n<p>** A m\u00fasica foi liberada oito anos depois, no governo do general-presidente Ernesto Geisel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A coisa aqui andava preta. <\/p>\n<p>In\u00edcio dos anos 70. 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