{"id":13111,"date":"2015-06-23T00:00:00","date_gmt":"2015-06-23T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:03:20","modified_gmt":"2017-09-15T19:03:20","slug":"desacorcoado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/desacorcoado\/","title":{"rendered":"Desacor\u00e7oado"},"content":{"rendered":"<p>Acho que j\u00e1 lhes contei essa historinha por aqui.<\/p>\n<p>Ouso repeti-la.<\/p>\n<p>Motivo?<\/p>\n<p>Simples. Parece-me oportuna relembr\u00e1-la diante do sentimento que ora me invade, como diria a letra daquele bolero.<\/p>\n<p>Aconteceu  naquela manh\u00e3 dos idos de 70 e desde ent\u00e3o passei a  entender mais amplamente o teor da palavra \u201cdesacor\u00e7oado\u201d.<\/p>\n<p>Antes que meus quatro ou cinco fi\u00e9is leitores me chamem de terer\u00ea, e n\u00e3o juntar l\u00e9 com cr\u00e9, narro os fatos.<\/p>\n<p>\u00c9ramos trinta ou quarenta estudantes da ECA\/USP a ouvir a professora Cremilda divagar sobre os rumos do jornalismo e a import\u00e2ncia da profiss\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa e cousa e lousa e maripo(u)a,<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos no sexto ou s\u00e9timo semestre, se bem me lembro. <\/p>\n<p>Muitos j\u00e1 trabalhavam na \u00e1rea. Quase todos ainda viviam a incerteza de terem ou n\u00e3o escolhido a carreira certa. Ang\u00fastias naturais a quem tem vinte e poucos anos.<\/p>\n<p>Para dar uma complexidade \u00e0 nossa sina, viv\u00edamos os tais anos de chumbo \u2013 a censura, os rigores da crise econ\u00f4mica e social, as dificuldades naturais do mercado de trabalho; enfim, n\u00e3o estava f\u00e1cil pra ningu\u00e9m. Imaginem pra n\u00f3s!<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro o motivo exato, mas em meio \u00e0 fala da professora eis que o amigo Maciel fez jus \u00e0s origens interioranas \u2013 ele era de Palmital \u2013, carregou no sotaque para interromper o discurso oficial e sair-se com essa:<\/p>\n<p>&#8211; Professora, vou ser sincero, ando desacor\u00e7oado com a profiss\u00e3o. <\/p>\n<p>A classe foi pega de surpresa. Primeiro, rimos da sinceridade do amigo. Depois, creio eu, caiu a ficha e, de alguma forma, entendemos que o Maci\u00e7a falava por todos n\u00f3s \u2013 empacados com os rumos do jornalismo, do Pa\u00eds e, de uma forma mais ampla, das nossas pr\u00f3prias vidas.<\/p>\n<p>Revivo a mem\u00f3ria daquela cena ap\u00f3s a leitura do notici\u00e1rio dos \u00faltimos dias. Tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que est\u00e1 tudo errado \u2013 e que n\u00e3o tem conserto: a intoler\u00e2ncia, o \u00f3dio generalizado, a dificuldade de entender que nosso interlocutor n\u00e3o precisa pensar exatamente como n\u00f3s, os descalabros de esc\u00e2ndalos, a viol\u00eancia exacerbada em neuras que se acumulam aqui e fora daqui. N\u00e3o tenho sequer coragem de nominar os fatos&#8230;<\/p>\n<p>Tudo isso me faz lembrar aquela manh\u00e3 que seu perdeu no mais antigo dos anos e do desabafo do Maci\u00e7a e, c\u00e1 estou eu a batucar essas mal tra\u00e7adas, sem esperan\u00e7a que algo mude pra melhor. E tal e qual o amigo tudo o que quero lhes dizer, car\u00edssimos leitores, \u00e9 que tamb\u00e9m este modesto escriba anda desacor\u00e7oado que nem sabe lhes explicar o quanto. <\/p>\n<p>Quem sabe amanh\u00e3 eu tenha palavras mais alentadoras&#8230;<\/p>\n<p>Tomara!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acho que j\u00e1 lhes contei essa historinha por aqui.<\/p>\n<p>Ouso repeti-la.<\/p>\n<p>Motivo?<\/p>\n<p>Simples. 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