{"id":13135,"date":"2015-07-20T00:00:00","date_gmt":"2015-07-20T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:38:36","modified_gmt":"2017-09-14T03:38:36","slug":"times-do-coracao-palmeiras-huracan-e-america","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/times-do-coracao-palmeiras-huracan-e-america\/","title":{"rendered":"Times do cora\u00e7\u00e3o: Palmeiras, Huracan e Am\u00e9rica"},"content":{"rendered":"<p>Sempre fui palmeirense \u2013 e \u00e9 s\u00f3 e me basta.<\/p>\n<p>Tenho um carinho especial pelo Huracan da Argentina porque o meu cunhado, o saudoso Waltinho, era craque do Huracan da V\u00e1rzea do Glic\u00e9rio que, segundo se comentava \u00e0 \u00e9poca, era uma \u201cfilial\u201d do time portenho. Pode ser que sim, pode ser que n\u00e3o. Uns diziam que os gringos estiveram, em excurs\u00e3o, por S\u00e3o Paulo e, mais do que qualquer apresenta\u00e7\u00e3o, o lind\u00edssimo uniforme serviu de inspira\u00e7\u00e3o para os boleiros do Cambuci na funda\u00e7\u00e3o do novo clube.<\/p>\n<p>Acho mais prov\u00e1vel essa vers\u00e3o.<\/p>\n<p>O time tinha o mais belo fardamento que j\u00e1 vi: camisas gren\u00e1s, cal\u00e7\u00f5es pretos e mei\u00f5es cinzas. O distintivo era um desses bal\u00f5es com a letra H sobressalente.<\/p>\n<p>Aos meus olhos de garoto, era um encantamento.<\/p>\n<p>Aos 16, 17 anos, cheguei a jogar no segundinho do Huracan. Mas, n\u00e3o fiz l\u00e1 grande carreira. O bom mesmo era o Waltinho, vulgo solado, lateral esquerdo de inesquec\u00edvel talento.<\/p>\n<p>Ele sempre me dizia:<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 n\u00e3o fui profissional porque era arrimo de fam\u00edlia. Perdi meu pai muito cedo\u201d.<\/p>\n<p>Era a mais pura verdade.<\/p>\n<p>Naquele tempo, a S\u00e3o Paulo dos anos 50, ou se trabalhava ou se jogava futebol&#8230;<\/p>\n<p>Conto essa hist\u00f3ria para embicar a segunda \u2013 a bem da verdade, o motivo da cr\u00f4nica de hoje.<\/p>\n<p>Soube ontem que o Am\u00e9rica est\u00e1 de volta \u00e0 elite do futebol carioca.<\/p>\n<p>Fiquei feliz com a boa nova.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou assim um Jos\u00e9 Trajano, americano de fina estirpe, mas tenho uma simpatia especial por este clube, desde garoto.<\/p>\n<p>Como disse era (e sou) palmeirense \u2013 e s\u00f3 e me basta.<\/p>\n<p>Mas, era moda, para a molecada daqueles idos, torcer por um time no Rio de Janeiro. Todos os anos o Torneio Rio\/S\u00e3o Paulo a\u00e7odava essa rivalidade pelas quebradas do Cambuci. Ainda mais que n\u00f3s, os sub 12, acreditem!, pod\u00edamos assistir aos jogos de gra\u00e7a no Pacaembu, desde que estiv\u00e9ssemos acompanhados por um adulto.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, fossem quais fossem, os clubes que se enfrentassem l\u00e1 est\u00e1vamos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Havia uma equival\u00eancia de clubes para voc\u00ea torcer. Quem era Corinthians aqui torcia para o Flamengo l\u00e1. Os s\u00e3opaulinos eram tricolores tal e qual o Fluminense. O Santos de Pel\u00e9 correspondia ao Botafogo de Garrincha. N\u00f3s, palmeirenses, fic\u00e1vamos assim numa d\u00favida cruel. Poder\u00edamos torcer pelo Vasco \u201cque tamb\u00e9m era um time de col\u00f4nia\u201d, que era o que eu pai dizia.<\/p>\n<p>Dizia mais:<\/p>\n<p>&#8211; Ou para o Fluminense que tem as cores da bandeira da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Nenhum deles me convencia, embora o Fluminense tivesse o goleiro Castilho como grande \u00eddolo. Ademais o Vasco era t\u00e3o lusitano quanto a nossa aguerrida Portuguesa de Desportos.<\/p>\n<p>Estava dif\u00edcil escolher.<\/p>\n<p>O pai tentou me ajudar na escolha.<\/p>\n<p>Foi ao Rio para assistir a um Grande Pr\u00eamio Brasil do turfe e, de l\u00e1, me trouxe um chaveirinho com o distintivo do Flu.<\/p>\n<p>&#8211; Logo voc\u00ea vai ter a chave de casa, ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>O Velho Aldo era brincalh\u00e3o, eu tinha nove, dez anos.<\/p>\n<p>A m\u00e3e ficava horrorizada, com a liberdade que ele dava ao \u201cca\u00e7ula\u201d da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O pai me defendia com o jarg\u00e3o da \u00e9poca:<\/p>\n<p>&#8211; Ele \u00e9 homem, chacoalha a cal\u00e7a e est\u00e1 tudo resolvido.<\/p>\n<p>Mesmo assim, eu ainda n\u00e3o estava convencido em torcer pelo Flu. O Roberto, um amigo s\u00e3opaulino da rua Muniz de Souza, j\u00e1 era tricolor tamb\u00e9m no Rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o gostava dessa ideia.<\/p>\n<p>Certa vez, um amigo do pai, o Judeu, levou dois ou tr\u00eas garotos ao Pacaembu assistir ao jogo Corinthians e Am\u00e9rica, pelo Rio S\u00e3o Paulo. O homem levou a gente para a numerada e, de l\u00e1, presenciamos maravilhados um festival de gols. N\u00e3o lembro quanto foi, mas foram muitos. Acho que 6 a 5 ou 5 a 4, sei l\u00e1.<\/p>\n<p>O Corinthians venceu.<\/p>\n<p>O not\u00e1vel foi que, a certa altura da partida, eu me vi surpreendentemente torcendo adoidado pelos cariocas. Pelo goleiro Ari, e pelo ponta esquerda Nilo (que mais tarde jogou no Palmeiras).<\/p>\n<p>Sa\u00ed do est\u00e1dio triste, mas convencido a ser Am\u00e9rica no Rio.<\/p>\n<p>Cheguei em casa fui direto conferir no meu \u00e1lbum de figurinhas \u2013 e a simpatia se consolidou.<\/p>\n<p>Era um time verdadeiramente poderoso. Al\u00e9m do goleiro Ari, do Nilo, havia Djalma Dias (o melhor zagueiro que vi jogar), Amaro, Calazans, um lateral direito chamado Jorge e Quarentinha, centro-avante goleador. Um tima\u00e7o campe\u00e3o carioca de 60.<\/p>\n<p>Esse t\u00edtulo, confesso, ajudou a me conquistar.<\/p>\n<p>Um cap\u00edtulo \u00e0 parte nessa historinha de inf\u00e2ncia: o goleiro Pomp\u00e9ia que revezava com Ari a titularidade do time americano. S\u00f3 o conhecia por figurinha ou por imagens do Canal 100. Mas, a narrativa de seus feitos povoava minha imagina\u00e7\u00e3o de garoto apaixonado por futebol.<\/p>\n<p>Acontece que um dos \u00eddolos da molecada era o Manolo, espanhol atarracado que devia ter a\u00ed seus 20 anos e era goleiro de um dos times de maior prest\u00edgio no Cambuci, o Rep\u00fablica Futebol Clube, voltou de uma viagem ao Rio falando barbaridades do goleiro do Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Imagino que tenha visto algum jogo por l\u00e1.<\/p>\n<p>Que o Pomp\u00e9ia era melhor que o Gilmar, que o Castilho, que o Ari; o melhor do Brasil. Que saltava feito um gato, fazia \u2018pontes\u2019 inimagin\u00e1veis, e at\u00e9 numa simples atrasada de bola do zagueiro (naquele tempo, podia) fazia uma das suas perip\u00e9cias. Deixava a bola passar no v\u00e3o das pernas para, em seguida, saltar para tr\u00e1s e encaixar a bola.<\/p>\n<p>Levava a torcida ao del\u00edrio!<\/p>\n<p>Um par\u00eanteses:<\/p>\n<p>Naquele tempo, vou lhes explicar: n\u00f3s ador\u00e1vamos jogar futebol e a suprema honra que pod\u00edamos almejar era jogar no principal de uma das poderosas equipes varzeanas do Cambuci: o Santos, o Rep\u00fablica, o Tri\u00e2ngulo, o Huracan, o Mocidade do Glic\u00e9rio, o S\u00e3o Luiz e outros tantos.<\/p>\n<p>Jogar em uma equipe profissional era um sonho long\u00ednquo.<\/p>\n<p>Ser o bambambam da v\u00e1rzea j\u00e1 estava de bom tamanho.<\/p>\n<p>Por isso, o Manolo tinha toda a credibilidade do mundo.<\/p>\n<p>Eu fiquei impressionado \u2013 e passei a me imaginar o Pomp\u00e9ia nas \u2018peladas\u2019 do campinho da rua Pia\u00ed e do \u2018barranc\u00e3o\u2019 do Jardim da Aclima\u00e7\u00e3o. Aja joelho, aja cotovelos ralados.<\/p>\n<p>Engra\u00e7ado lembrar tudo isso agora&#8230;<\/p>\n<p>O tempo passou, virei um zagueir\u00e3o esfor\u00e7ado, um torcedor sempre apaixonado pelo Palmeiras, esqueci essas coisas da meninice. Mas, sempre que ou\u00e7o falar do Huracan (que disputou a Libertadores este ano) e do Ameriquinha, me emociono e \u00e9 inevit\u00e1vel lembrar a can\u00e7\u00e3o do grande Ataulfo Alves:<\/p>\n<p>\u201cEu era feliz, e n\u00e3o sabia\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre fui palmeirense \u2013 e \u00e9 s\u00f3 e me basta.<\/p>\n<p>Tenho um carinho especial pelo Huracan da Argentina porque o meu cunhado, o saudoso Waltinho, era craque do Huracan da V\u00e1rzea do Glic\u00e9rio que,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-13135","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13135","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13135"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13135\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13906,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13135\/revisions\/13906"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13135"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13135"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13135"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}