{"id":13136,"date":"2015-07-22T00:00:00","date_gmt":"2015-07-22T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:35:55","modified_gmt":"2017-09-14T03:35:55","slug":"a-sina-de-um-poeta-triste","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-sina-de-um-poeta-triste\/","title":{"rendered":"A sina de um Poeta triste"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 formas e formas de se estar s\u00f3.<\/p>\n<p>\u00c9 o amigo Poeta quem me diz. Tem um jeito triste, e parece lembrar um grande amor (que se perdeu no tempo).<\/p>\n<p>Tento consol\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Todos t\u00eam grandes amores que um dia se foram, digo.<\/p>\n<p>Generaliza\u00e7\u00f5es confortam, mas n\u00e3o aliviam.<\/p>\n<p>O Poeta, por ser poeta, sabe bem disso \u2013 eu \u00e9 que n\u00e3o me dou conta dessas sutilezas da vida.<\/p>\n<p>Outras nuances de casos assim: o sil\u00eancio prolongado e o olhar est\u00e1tico em algum ponto do infinito.<\/p>\n<p>Ele est\u00e1 assim.<\/p>\n<p>Precisa de um ombro amigo, talvez.<\/p>\n<p>Por isso o convite para nos encontrarmos depois de tantas semanas sem nos ver.<\/p>\n<p>&#8211; Naquele boteco em frente \u00e0 esta\u00e7\u00e3o Sacom\u00e3 do Metr\u00f4.<\/p>\n<p>Falei em chamar o Escova, mas ele sequer se pronunciou.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei porque intu\u00ed que fosse um n\u00e3o.<\/p>\n<p>Deixei quieto.<\/p>\n<p>At\u00e9 entendo a indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Sempre que o assunto descamba para amores, paix\u00f5es e afins, o Escova faz jus ao apelido de Dom Juan das Quebradas para tomar para si o protagonismo das a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio se revela quando o Poeta retoma a conversa.<\/p>\n<p>E conta o que aconteceu.<\/p>\n<p>Ele foi deixar um amigo no aeroporto de Congonhas e, de repente, n\u00e3o mais que de repente, imaginou que ali encontraria a mulher que amam [e de quem est\u00e1 separado h\u00e1 alguns bons anos.<\/p>\n<p>N\u00e3o soube explicar o que lhe motivou essa sensa\u00e7\u00e3o. Mas, o cora\u00e7\u00e3o acelerou, ele esqueceu o amigo no balc\u00e3o da companhia a\u00e9rea e se p\u00f4s a procurar pela mo\u00e7a que n\u00e3o v\u00ea \u2013 repito \u2013 h\u00e1 alguns bons anos.<\/p>\n<p>&#8211; Que loucura, cara! N\u00e3o sei o que me deu. Andei como um doido por aqueles corredores, pelas alas. Fui e voltei n\u00e3o sei quantas vezes, estava esbaforido at\u00e9 que vi algu\u00e9m muito parecido com ela sentada em um dos bancos perto da pra\u00e7a da alimenta\u00e7\u00e3o. Detalhe: tinha um cara ao lado dela&#8230; Olha a situa\u00e7\u00e3o!.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Meu sil\u00eancio \u00e9 sinal da minha cumplicidade. Por isso, o amigo se sente \u00e0 vontade para continuar o relato.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tive d\u00favidas. T\u00e3o desvairado que estava, fui l\u00e1 e me sentei ao lado dela. A\u00ed, minha cabe\u00e7a estava toda confusa. J\u00e1 n\u00e3o sabia se ela era ela. Ou se eu estava vendo uma miragem. \u00c0s vezes, eu pensava que sim. A mo\u00e7a percebeu que eu a estava \u2018secando\u2019 e ficou constrangida. Virou-se para o lado do rapaz que a acompanhava para me evitar. E eu ali, firme, pensando um jeito de me comunicar com ela, fosse ela quem eu pensava que fosse ou n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o me espantei com o que ouvi a seguir.<\/p>\n<p>Conhe\u00e7o bem meus amigos.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>&#8211; Naquele momento, eu me sentia absolutamente apaixonado. Olha que sem no\u00e7\u00e3o! Minha estrat\u00e9gia foi mudar de lugar. Fui para o balc\u00e3o em frente, do Viena. Pedi um caf\u00e9, e me posicionei em uma mesinha onde era imposs\u00edvel ela n\u00e3o me ver. Ela percebeu a manobra \u2013 e, sei que fez de prop\u00f3sito, ajeitou o cabelo com a m\u00e3o esquerda, aproveitou e mostrou a alian\u00e7a, deixando bem claro que era casada \u2013 e nada queria.<\/p>\n<p>Respiro aliviado.<\/p>\n<p>&#8211; Foi o suficiente para voc\u00ea sossegar, digo.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea que pensa. A\u00ed que eu resolvi investir&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Antes que o Poeta prosseguisse com a narra\u00e7\u00e3o de sua aventura em Congonhas, resolvi interpel\u00e1-lo para entender melhor o que aconteceu:<\/p>\n<p>&#8211; Quer dizer que, em meio a toda aquela muvuca do aeroporto, voc\u00ea imaginou ter visto sua ex, entrou em parafuso, ficou cercando a mo\u00e7a (que estava acompanhada, diga-se), viu que n\u00e3o era ela, mesmo assim continuou no encal\u00e7o da Fulana, mesmo ela sionalizando que n\u00e3o queria nada?<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9, meu caro, pois \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Poeta, vamos ser sincero, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 mais na idade de se meter nessas paradinhas. Queria arranjar confus\u00e3o, cara?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 isso, parceiro. Tamb\u00e9m n\u00e3o sei lhe dizer. Mas, sabe aquelas sensa\u00e7\u00f5es que surgem quando voc\u00ea se apaixona. Aquela alegria incontrol\u00e1vel, aquele arrebatamento, aquele doce veneno de que ali est\u00e1 o princ\u00edpio, o fim e o meio de tudo de bom que nos pode acontecer? Essas coisas, meu caro, eu n\u00e3o sentia h\u00e1 mil\u00eanios. De repente, despencaram em mim e tive uma privatiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o dos sentidos (que estavam a flor da pele), mas da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, ela estava acompanhada, Poeta. Voc\u00ea n\u00e3o pensou nos riscos?<\/p>\n<p>&#8211; Para ser sincero, n\u00e3o pensei em nada. Ainda mais quando o rapaz desapareceu n\u00e3o sei por qual motivo. Se foi no banheiro ou se foi verificar algo da viagem&#8230; A\u00ed enlouqueci de vez. Anunciei a todos que ali estava a mulher da minha vida e parti em dire\u00e7\u00e3o a ela. Era a minha chance.<\/p>\n<p>&#8211; E a\u00ed, como ela reagiu?<\/p>\n<p>&#8211; Saiu em desabalada carreira, entrou na livraria e desapareceu em meio \u00e0s estantes de livros.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, por fim, voc\u00ea se tocou que era hora de parar, n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, como lhe disse: h\u00e1 formas e formas de se estar s\u00f3. Mesmo em meio a toda aquela multid\u00e3o, em meio a toda aquela fissura, ali s\u00f3 havia n\u00f3s dois. Quando eu n\u00e3o a vi mais, me baixou uma profunda, uma imensa solid\u00e3o&#8230; Nada mais fazia sentido.<\/p>\n<p>Disse isso \u2013 e voltou a ficar em sil\u00eancio, olhos est\u00e1ticos, perdidos no entra-e-sai da Esta\u00e7\u00e3o Sacom\u00e3.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o permiss\u00e3o ao amigo para lhe fazer mais duas perguntas.<\/p>\n<p>Ele consente, balan\u00e7ando os ombros.<\/p>\n<p>&#8211; Poeta, e a\u00ed, voc\u00ea n\u00e3o a viu mais?<\/p>\n<p>Resposta:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, mas sonho com ela todos os dias. Acho que embarcou sem que eu tenha me dado conta. Ou se mandou, pela porta lateral. Vai saber?<\/p>\n<p>Pergunta dois:<\/p>\n<p>&#8211; E o amigo que voc\u00ea levou ao aeroporto? N\u00e3o estranhou o teu surto e o teu desaparecimento.<\/p>\n<p>Reposta 2:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o falei mais com ele. Mas, desconfio que n\u00e3o. Ele me conhece&#8230; \u00danico problema \u00e9 que ele embarcou com a chave do carro que iria ficar comigo e que, at\u00e9 agora, est\u00e1 preso no estacionamento do aeroporto. Vai ficar uma nota essa estadia.<\/p>\n<p>Concluo:<\/p>\n<p>&#8211; Poeta, acho que voc\u00ea perdeu a mulher \u2013 e vai perder o amigo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 formas e formas de se estar s\u00f3.<\/p>\n<p>\u00c9 o amigo Poeta quem me diz. 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