{"id":13137,"date":"2011-06-03T00:00:00","date_gmt":"2011-06-03T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:54:51","modified_gmt":"2017-09-14T03:54:51","slug":"o-gosto-de-quero-mais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-gosto-de-quero-mais\/","title":{"rendered":"O gosto de quero mais *"},"content":{"rendered":"<p>Eram dois \u2013 e imaginavam-se um.<\/p>\n<p>Viviam aquele exato momento em que se d\u00e1 e faz o amor.<\/p>\n<p>Sabem qual, n\u00e9?<\/p>\n<p>O brilho no olho. A vontade de n\u00e3o largar-se.<\/p>\n<p>O gosto de quero mais e mais e mais.<\/p>\n<p>Quem os via logo entendia a situa\u00e7\u00e3o \u2013 e, via de regra, os invejava.<\/p>\n<p>Outros preferiam nem acreditar.<\/p>\n<p>At\u00e9 porque o mo\u00e7o quase senhor ostentava grossa alian\u00e7a doirada na m\u00e3o esquerda.<\/p>\n<p>E ela \u2013 puxa vida! Ningu\u00e9m nunca prestara aten\u00e7\u00e3o nos encantos da secret\u00e1ria da<br \/>\ndiretoria, sempre envolta em afazeres, agendas e memorandos.<\/p>\n<p>Lidinha, uma corruptela de Ludmila, assim a chamavam. At\u00e9 com certo distanciamento.<\/p>\n<p>At\u00e9 que chegou o novo diretor, n\u00e3o t\u00e3o novo assim, como disse acima, de nome cerimonioso, Luiz Alfonso. Mas, de fin\u00edssima estampa. <\/p>\n<p>Dia vai, noite vem, com alguns ser\u00f5es de entremeios.<\/p>\n<p>E eis que o expediente se amplia para jantares e passeios, onde n\u00e3o s\u00f3 se limava a pauta da empresa como os dois encantaram-se.<\/p>\n<p>Lidinha soltou os cabelos, ajeitou o guarda-roupa e deu uma arejada no visual.<\/p>\n<p>Nem a arma\u00e7\u00e3o dos \u00f3culos escapou&#8230;<\/p>\n<p>Lidinha, desde logo, entendeu o enrosco em que entrara. Mas, o fazia de bom grado. Tamb\u00e9m se apaixonara. Nem por isso deixava de curtir suas dores de amor \u2013 especialmente nos fins-de-semana. Ou quando alguma crise familiar de<br \/>\nAlfonso o tirava por alguns dias da firma.<\/p>\n<p>A\u00ed, sim, ela sentia os olhares de repreens\u00e3o e, sejamos sinceros, a inveja dos mal amados.<\/p>\n<p>Nessas horas ela segurava o choro \u2013 e se impunha pela altivez.<\/p>\n<p>Lembrava a frase que sempre ouvia nas horas aquelas.<\/p>\n<p>Luiz Alfonso era sincero, algo cafa, mas sincero:<\/p>\n<p>&#8212; Lidinha, te amo. Vamos viver a vida momento a momento, um passo de cada vez&#8230;<br \/>\nII.<br \/>\nA vida se renova a cada manh\u00e3.<\/p>\n<p>Lidinha ouvira, quando crian\u00e7a, a frase da boca de uma tia, a quem chamavam de \u201csolteirona\u201d.<\/p>\n<p>Deu ent\u00e3o de imaginar que a tia &#8211; muito bonita, por sinal \u2013 n\u00e3o devia ser t\u00e3o s\u00f3 quanto todos pensavam.<\/p>\n<p>Pensando bem. Era vis\u00edvel que ela alternava fases de alegrias plenas com outras de cavas tristezas.<\/p>\n<p>Muito prov\u00e1vel que vivesse uma situa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 dela hoje.<\/p>\n<p>Veio claro em sua mente o dia em que a tia e ela conversavam em um fim de tarde.<\/p>\n<p>Olhavam a linha do horizonte \u2013 e deixavam-se apenas estar, juntas, mas fustigando, cada qual, mist\u00e9rios pr\u00f3prios e insond\u00e1veis.<\/p>\n<p>Entre um suspiro e outro, ela deixou escapar o lamento:<\/p>\n<p>&#8212; Sabe, Lidinha, viva o que tiver que viver. Porque quando a gente se d\u00e1 conta a vida j\u00e1 se foi.<\/p>\n<p>\u00c9, \u00e9 bem prov\u00e1vel que a tia escondera, de tudo e de todos um grande amor imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Tal e qual o que ela vive hoje.<\/p>\n<p>A frase de Luiz Alfonso e a frase da tia tinham muito em comum.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos viver a vida momento a momento, um passo de cada vez&#8230;<\/p>\n<p>Tudo a ver.<\/p>\n<p>S\u00f3 foram ditas em diferentes fases da vida.<\/p>\n<p>Na voz da tia, recordou, havia um tom de melancolia de quem j\u00e1 vivera o melhor da festa.<\/p>\n<p>Luiz Alfonso preconizava que tudo tem um tempo certo.<\/p>\n<p>Era um jeito de dizer para que ela n\u00e3o lhe cobrasse nada. <\/p>\n<p>Vivesse o momento. <\/p>\n<p>Esperasse&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; como a tia um dia esperou \u2013 em v\u00e3o!<\/p>\n<p>Lidinha encerrou o expediente com a certeza absoluta de que teria o mesmo fim.<\/p>\n<p>Um dia a paix\u00e3o n\u00e3o seria mais t\u00e3o intensa, t\u00e3o viva.<\/p>\n<p>E ela ent\u00e3o se veria s\u00f3, infinitamente s\u00f3.<\/p>\n<p>Em meio a esses pensamentos, nem se deu conta do caminho da volta. <\/p>\n<p>Resignada, abriu a porta do apartamento e deu de cara Luiz Alfonso (ela lhe dera uma c\u00f3pia). <\/p>\n<p>Estava ansioso \u2013 e disse que tinha algo para lhe dizer.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia esperar nem mais um segundo.<\/p>\n<p>Lidinha entendeu que a hora era aquela.<\/p>\n<p>Preparou-se para o baque:<\/p>\n<p>Tr\u00eamula, disse com um fio de voz:<\/p>\n<p>&#8212; Pois, fale&#8230;<\/p>\n<p>E o mo\u00e7o quase senhor n\u00e3o se fez de rogado:<\/p>\n<p>&#8212; Minhas malas est\u00e3o no carro. Vim para ficar. Acabo de me separar.<\/p>\n<p>&#8212; Hein! Como assim? Separar&#8230; Ficar&#8230;<\/p>\n<p>Lidinha apatetou-se de felicidade. Mesmo assim \u2013 e como s\u00f3 e acontecer com as mulheres que sabem amar e ser amadas \u2013 resolveu provoc\u00e1-lo:<\/p>\n<p>&#8212; U\u00e9, mas voc\u00ea n\u00e3o disse que era para andarmos um passo de cada vez?<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m n\u00e3o titubeou. <\/p>\n<p>Abriu os bra\u00e7os para aconcheg\u00e1-la em um grandioso abra\u00e7o, e se fez categ\u00f3rico:<\/p>\n<p>&#8212; Tem raz\u00e3o. Dizer eu disse. Mas, h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es na vida em que se n\u00e3o andarmos r\u00e1pido, de tr\u00eas em tr\u00eas, perdemos o momento e nunca seremos. Felicidade n\u00e3o se adia&#8230;<\/p>\n<p>Eram dois &#8211; e assim definitivamente se fizeram um.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eram dois \u2013 e imaginavam-se um.<\/p>\n<p>Viviam aquele exato momento em que se d\u00e1 e faz o amor.<\/p>\n<p>Sabem qual, n\u00e9?<\/p>\n<p>O brilho no olho.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-13137","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13137","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13137"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13137\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13942,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13137\/revisions\/13942"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13137"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13137"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13137"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}