{"id":13186,"date":"2015-09-09T00:00:00","date_gmt":"2015-09-09T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:35:15","modified_gmt":"2017-09-14T03:35:15","slug":"a-vida-nao-pede-licenca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-vida-nao-pede-licenca\/","title":{"rendered":"A vida n\u00e3o pede licen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>At\u00e9 parece aqueles velhos causos que o grande Stanislaw t\u00e3o bem relatava em suas cr\u00f4nicas di\u00e1rias \u2013 e que eram \u201ca cara\u201d do Brasil nos anos 60. No entanto, o ocorrido se deu aqui mesmo em S\u00e3o Paulo, em um dos nossos valorosos bairros perif\u00e9ricos que n\u00e3o sou louco de nominar porque n\u00e3o quero confus\u00e3o pro meu lado. Conto o milagre, mas n\u00e3o deduro quem s\u00e3o os santos (que, ali\u00e1s, n\u00e3o h\u00e1 nenhum nessa historieta). Vou trocar tamb\u00e9m o nome de tr\u00eas dos quatro personagens. De verdadeiro mesmo, fica o Manoel, que \u00e9 o dono da padaria e, como tal, dificilmente teria outro nome. Mesmo se chamasse Afonso, para os mais abusados da freguesia seria sempre o Seu Man\u00e9.<\/p>\n<p>Acontece que o Seu Man\u00e9 vivia um drama. Tinha uma mulher que n\u00e3o era f\u00e1cil e uma ajudante de cozinha, toda roli\u00e7a e jeitosa, que se fazia de dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Dona Luzia, a esposa, n\u00e3o dava mole para o marido. N\u00e3o sei se desde sempre cultivava o estilo \u201cbuzina\u00e7o\u201d ou se foi a presen\u00e7a de Jacira, a tenta\u00e7\u00e3o, que lhe acirrou os \u00e2nimos e a ca\u00e7a impiedosa a tudo o que o pobre Manoel fazia e\/ou falava.<\/p>\n<p>&#8211; Assim n\u00e3o d\u00e1. Seu Man\u00e9 t\u00e1 lascado, desse jeito. \u00c9 um esporro atr\u00e1s do outro. A Dona Encrenca n\u00e3o d\u00e1 folga pro coitado.<\/p>\n<p>Com licen\u00e7a, apresento a voc\u00eas, meus queridos cinco ou seis leitores, o Jeremias, o autor da fala acima. Como podem ver, ele j\u00e1 demonstra toda a sua indigna\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o. Jeremias, vez em quando, qalmo\u00e7a por l\u00e1, mas gosta mesmo de terminar a tarde na padoca. \u201cS\u00f3 na cervejinha, \u00f4\u00f4&#8230;\u201d Sente-se \u00e0 vontade com a rapaziada, bota sua banca, conta suas lorotas e est\u00e1 na bronca com a Dona Luzia.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero tomar partido, longe de mim. Mas, ele tem raz\u00e3o. Dona Luzia trabalha pra caramba, \u00e9 verdade. Ajuda no que for preciso. S\u00f3 que, em compensa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o perde uma para esculhambar o simp\u00e1tico Seu Man\u00e9 (a freguesia gosta dele). Discorda de tudo o que ele diz ou pensa dizer, chama a aten\u00e7\u00e3o do pobre (pobre, n\u00e3o; que Seu Man\u00e9 t\u00e1 bem de vida) na frente de todo mundo e, n\u00e3o contente, gosta de dizer que, sem ela, a luminosa padaria Flor de Avis iria para o belel\u00e9u.<\/p>\n<p>A quem chega pela primeira vez no lugar e n\u00e3o entende as broncas de Dona Luzia, Jeremias se d\u00e1 ao trabalho de bancar o rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e cuida da imagem e reputa\u00e7\u00e3o do estabelecimento:<\/p>\n<p>&#8211; Digamos que o casal de propriet\u00e1rios est\u00e1 numa fase de tucanos versus petistas, mas experimenta a coxinha de catupiry que \u00e9 o que h\u00e1&#8230; Logo logo eles se acalmam.<\/p>\n<p>Aos mais chegados, Jeremias d\u00e1 uma de psic\u00f3logo e alardeia o resumo da \u00f3pera:<\/p>\n<p>&#8211; Ela faz do pobre coitado o seu contraponto com o mundo. No fundo, no fundo, a Dona Luzia, que \u00e9 uma balzaca ainda no prumo, n\u00e3o est\u00e1 satisfeita com o dia a dia que anda vivendo entre o forno, o fog\u00e3o, a pia, a farinha e os salgadinhos. T\u00e1 mal com ela mesma, d\u00e1 para entender?<\/p>\n<p>H\u00e1 quem entenda. Outros, como este humilde escriba, continuam boiando. De real mesmo, \u00e9 que, feito o diagn\u00f3stico, o Jeremias ajeitou o colarinho da camisa Dudalina e resolveu intervir.<\/p>\n<p>&#8211; No estilo, meu caro, no estilo&#8230;<\/p>\n<p>Ele bolou a seguinte estrat\u00e9gia que lhes conto amanh\u00e3, se o dito-cujo n\u00e3o roer a corda.<\/p>\n<p>Aguardem!<\/p>\n<p>PARTE 2<\/p>\n<p>Como ia dizendo no post de ontem, Jeremias, o interventor sentimental, deu trato \u00e0s ideias \u2013 e n\u00e3o demorou para ir da teoria \u00e0 pr\u00e1tica. Foi conversar com o \u2018portuga\u2019 na delicadeza sobre a situa\u00e7\u00e3o que o espinafrado vivia e como o amigo Man\u00e9 poderia se livrar da incomoda persegui\u00e7\u00e3o da patroa (at\u00e9 hoje n\u00e3o entendo porque o pessoal adora chamar esposa de patroa, enfim&#8230;).<\/p>\n<p>Podia ser um grande equ\u00edvoco, mas n\u00e3o custaria tentar.<\/p>\n<p>Como \u2018agitador cultural\u2019 (belo emprego em rapaziada) de um desses Sesc\/Senac\/Senai da vida (nunca sei ao certo que institui\u00e7\u00e3o oferece o qu\u00ea, a quem, mas sigamos a hist\u00f3ria), Jeremias sugeriu, assim na base do sem querer querendo, que Dona Luzia se matriculasse em um desses cursos que a nobre institui\u00e7\u00e3o oferecia. Havia um pouco de tudo, do prosaico curso de manicure e cabeleireiro at\u00e9 alguns mais sofisticados como design de interiores e tal.<\/p>\n<p>A primeira dama da padoca Flor de Avis s\u00f3 precisaria escolher o que mais lhe interessasse. De sua parte, o seu Man\u00e9 deveria aliviar a carga de trabalho da mesma e lhe dar algumas horas de folga para que ela pudesse respirar novos ares e buscar novos horizontes.<\/p>\n<p>&#8211; Quem sabe assim ela n\u00e3o se distraia e deixe de pegar tanto no seu p\u00e9, quem sabe?<\/p>\n<p>\u201cQuem sabe?\u201d, ponderou Seu Man\u00e9, que era do tipo calad\u00e3o, mas n\u00e3o era bobo, nem nada, e pensou logo nas horas livres que teria sem o buzina\u00e7o na orelha e, principalmente, na possibilidade de ficar &#8211; sozinho, sem policiamento preventivo \u2013 perto de Jacira, aquela tet\u00e9ia.<\/p>\n<p>Topou no ato.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei como lhe agradecer, \u00f3 gajo.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi preciso editorial em O Estado, nem mat\u00e9ria de capa na Veja para convencer Dona Luzia que elazinha estava trabalhando demais e que era hora de cuidar um pouco mais dela mesma.<\/p>\n<p>&#8211; Uma reciclagem sempre vai bem, madama.<\/p>\n<p>N\u00e3o queria dizer, mas digo: a observa\u00e7\u00e3o do Jeremias deixou o Seu Man\u00e9 ressabiado. Mas, convenhamos, aquela lindeza da Jacira merecia correr qualquer risco.<\/p>\n<p>&#8211; Pode deixar, nem se preocupe. Luzia, querida, que, por aqui, eu me viro e fa\u00e7o os funcion\u00e1rios trabalharem um bocadinho mais e tudo vai continuar nos conformes.<\/p>\n<p>Segura o facho, Man\u00e9. Devagar com o andor que a santa \u00e9 de barro e, mesmo de casa, Dona Luzia pode desconfiar&#8230;<\/p>\n<p>PARTE 3<\/p>\n<p>Meus am\u00e1veis cinco ou seis leitores podem (e devem) me perguntar, como autor desse amontoado de letrinhas, o que motivou Jeremias a tamanho gesto de amizade \u2013 e por que n\u00e3o? \u2013 de solidariedade desinteressada?<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, para ser sincero, os frequentadores da magn\u00e2nima Flor de Avis tamb\u00e9m faziam a mesma pergunta a si mesmo e a seus pares.<\/p>\n<p>Farei minha a inquieta\u00e7\u00e3o da rapaziada:<\/p>\n<p>\u201cO que deu no malandro? De gra\u00e7a, de bobeira \u00e9 que n\u00e3o foi.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade que se levantaram in\u00fameras hip\u00f3teses, mil e uma possibilidades, mas o fato \u00e9 que nada se apurou que comprometesse, em primeira inst\u00e2ncia, o enigm\u00e1tico Jeremias e tudo ficou no achismo e no disse-que-me-disse.<\/p>\n<p>Voc\u00eas sabem: o que seria dos botecos sem a especula\u00e7\u00e3o da vida alheia?<\/p>\n<p>At\u00e9 porque \u2013 e aqui cabe o destaque e o par\u00e1grafo \u2013 Dona Luzia surpreendeu a todos, especialmente ao marid\u00e3o, quando anunciou, com ares de encantamento, o curso que escolhera para dedicar-se nos pr\u00f3ximos tr\u00eas meses, com possibilidade de um segundo m\u00f3dulo com o mesmo per\u00edodo de aprendizagem. Dona Luzia, recatada e trabalhadora, matriculou-se no curso de, acreditem!, neurolingu\u00edstica.<\/p>\n<p>&#8211; Jesuisss, mas que diabus \u00e9 isso???<\/p>\n<p>A contradit\u00f3ria exclama\u00e7\u00e3o do Seu Man\u00e9 se perdeu no v\u00e1cuo e ficou sem resposta. Dona Luzia se mostrou animad\u00edssima e, pela primeira vez em anos, n\u00e3o retrucou severamente ao que disse o marido.<\/p>\n<p>Jeremias sorriu maroto ao ver a cena.<\/p>\n<p>Os dotes de Jacira a batucar na imagina\u00e7\u00e3o do Seu Man\u00e9, as possibilidades que lhe acenava a aus\u00eancia de Dona Luzia, o fim das broncas e outras cositas mais \u2013 tudo isso fez o homem n\u00e3o insistir na quest\u00e3o e se conformar com os novos tempos que se projetavam:<\/p>\n<p>\u201cOra, pois, \u00e9 importante que se distraia\u201d \u2013 confabulou para si mesmo.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m, em s\u00e3 consci\u00eancia, poderia avaliar a transforma\u00e7\u00e3o que aquela decis\u00e3o acarretaria na vida de nossos quatro personagens.<\/p>\n<p>Um desses s\u00e1bios que s\u00e3o ass\u00edduos em botecos, bares, padarias e \u2018sujinhos\u2019 e se disfar\u00e7am em \u2018z\u00e9 povinho\u2019 ainda tentou alertar:<\/p>\n<p>&#8211; Se cuida, Manoelino, se cuida. As mulheres mudam e se esquecem de nos avisar.<\/p>\n<p>PARTE 4<\/p>\n<p>Juro que, ao iniciar o relato da interven\u00e7\u00e3o art\u00edstica\/sentimental de Jeremias, n\u00e3o me dei conta que me enroscaria em atos e fatos (salve grande Cony!) que fizesse tal narrativa parecer uma hist\u00f3ria sem fim.<\/p>\n<p>\u201cT\u00e1 se achando autor de novela \u00e9, beb\u00e9? Tu n\u00e3o ganha pra isso, n\u00e3o\u201d \u2013 a observa\u00e7\u00e3o, como meus am\u00e1veis leitores devem saber, \u00e9 de Escova, aquele que se intitula ombudsman do nosso modesto Blog e posso lhes afian\u00e7ar nada tem a ver com o Jeremias, embora, em muitos momentos, um me lembre o outro.<\/p>\n<p>Tento me defender:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e9rie, Escova. A hist\u00f3ria acabou por virar uma s\u00e9rie.<\/p>\n<p>&#8211; Nada disso \u2013 retruca ele. \u2013 \u00c9 novela, e das antigas, por que tu j\u00e1 virou o Cabo da Boa Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Cabo da Boa Esperan\u00e7a?<\/p>\n<p>Nem eu me lembrava dessa!<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Sigamos com a nossa hist\u00f3ria que, na verdade, \u00e9 o que nos interessa e nos cabe.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>N\u00e3o foi necess\u00e1rio mais do que duas ou tr\u00eas aulas para que \u201ca linda balzaquiana\u201d (no parecer avalizado de Jeremias) recuperasse um brilho no olhar de h\u00e1 muito n\u00e3o visto l\u00e1 pelos lados da Flor de Avis.<\/p>\n<p>Digamos que ficou mais livre, leve e solta. Deu uma repaginada no figurino e, dias depois, apareceu com um novo corte de cabelo todo cheio de bossas e repiques.<\/p>\n<p>Lembram aquele s\u00e1bio bebum que encerrou o post de ontem? Pois bem, leitores, ele fez outra observa\u00e7\u00e3o, preocupante para o amigo, Seu Manoel, o marido desatento.<\/p>\n<p>&#8211; Mulher n\u00e3o corta o cabelo em v\u00e3o, meu camarada. Prepare-se que vem vento forte pela frente, pren\u00fancio de tempestade.<\/p>\n<p>Na esteira dessas mudan\u00e7as \u2013 em prol e a partir da neurolingu\u00edstica que tanto a encantou -, Luzia (\u201cesque\u00e7am essa tristeza de \u201cdona\u201d, por favor) passou a diminuir os expedientes na padoca. At\u00e9 que desapareceu de vez. Deixou como legado o seguinte recado ao desconsolado Man\u00e9:<\/p>\n<p>&#8211; Toma que o neg\u00f3cio \u00e9 seu! Faz um remanejamento de cargos e fun\u00e7\u00f5es, racionaliza os custos, programe-se que agora quero ter uma carreira pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Em resumo, vire-se, Man\u00e9!<\/p>\n<p>O que o malemolente Jeremias, o interventor, pensa disso tudo?<\/p>\n<p>Bem, veremos no post de amanh\u00e3. O que posso lhes antecipar \u00e9 que o aparvalhado Man\u00e9 esqueceu a linda Jacira e as poss\u00edveis investidas e foi pedir um aconselhamento a quem?<\/p>\n<p>Ao Jeremias.<\/p>\n<p>No parecer do s\u00e1bio bebum, foi um gesto t\u00e3o temer\u00e1rio quanto aquele dono do galinheiro que solicitou \u00e0 raposa orienta\u00e7\u00f5es para cuidar das galinhas.<\/p>\n<p>(Sem insinua\u00e7\u00f5es, por favor!)<\/p>\n<p>Parte 5<\/p>\n<p>N\u00e3o sou de dar pitacos na vida alheia.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 minha praia, nem me sinto \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>Veja bem que&#8230;<\/p>\n<p>Com os argumentos acima, o malaco Jeremias bem que tentou, mas n\u00e3o conseguiu escapar ao desabafo do inconformado Seu Man\u00e9.<\/p>\n<p>O amigo abriu a comporta das reclama\u00e7\u00f5es, sem qualquer cerim\u00f4nia: estava trabalhando demais, a mulher era o seu bra\u00e7o direito no dia a dia da padoca, preocupava-se tamb\u00e9m com essas mudan\u00e7as todas que Dona Luzia estava vivendo, ela agora parecia um tanto avoada, n\u00e3o ligava mais para ele, para os neg\u00f3cios, para a casa&#8230; Parecia outra pessoa, nunca ficara tanto tempo, ao longo desses quase 20 anos de casamento, sem ralhar com ele.<\/p>\n<p>Deus n\u00e3o lhes dera um filho, \u00e9 bem verdade, Mas, tocavam suas vidas harmoniosamente, sem grandes problemas. Apesar dos costumeiros arranca-rabos (ela entrava com o \u201carranca\u201d e ele&#8230;, bem deixa pra l\u00e1&#8230;), eram felizes \u2013 e se bastavam.<\/p>\n<p>&#8211; Agora, amigo Jeremias, sinto falta at\u00e9 dos esculachos que ela me dava a cada cinco minutos. Eram uma prova de carinho. Me sinto abandonado.<\/p>\n<p>Jeremias se fez de apiedado com a situa\u00e7\u00e3o. Assumiu ares de isen\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a, para dizer que n\u00e3o era do seu feitio se intrometer nessas desaven\u00e7as entre marido e mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Diz a sabedoria popular que em briga de casal n\u00e3o se deve&#8230;<\/p>\n<p>Seu Manoel n\u00e3o esperou que ele terminasse a frase, indignou-se;<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 gajo, foste tu que vieste com essa conversa de curso, de que ela precisava mudar de ares, que andava estressada. N\u00e3o lembras, n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Man\u00e9, amigo de longa a data, fiz isso pensando no seu pr\u00f3prio bem. Nas aporrinha\u00e7\u00f5es di\u00e1rias que sofria. Voc\u00ea sofria um bullying lascado. Sabe o que \u00e9 isso, n\u00e9? Tamb\u00e9m como iria prever que a Lu fosse mudar tanto assim \u2013 e como mudou! Que sa\u00fade!<\/p>\n<p>&#8211; Lu!!! Lu!!!<\/p>\n<p>Direi apenas que bem mais que voc\u00eas e eu, Seu Man\u00e9 foi atropelado pela aparente intimidade de Jeremias com a sua dign\u00edssima senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Luzia, Dona Luzia, olha o respeito, \u00f3 gajo \u2013 indignou-se o padeiro-mor diante de um Jeremias apatetado diante do vacilo.<\/p>\n<p>No contexto da inc\u00f4moda situa\u00e7\u00e3o, Jeremias s\u00f3 p\u00f4de se desculpar e programar uma sa\u00edda \u00e0 francesa.<\/p>\n<p>&#8211; Aonde vai, homem? N\u00e3o vai almo\u00e7ar como de costume?<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9, amigo&#8230; Tenho um almo\u00e7o de neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>E l\u00e1 se foi Jeremias, passo mi\u00fado, apressado, louco para fugir dali.<\/p>\n<p>N\u00e3o, meus caros e am\u00e1veis leitores, o s\u00e1bio bebum n\u00e3o estava ali naquele momento para registrar a cena. Mas, se estivesse, estou certo que diria algo no g\u00eanero.<\/p>\n<p>\u201cEsse cara pode n\u00e3o ser mordomo, mas tem toda pinta de suspeito.\u201d<\/p>\n<p>PARTE 6<\/p>\n<p>Escova \u2013 sempre ele \u2013 me pergunta se o bebum do boteco n\u00e3o repete, em nosso enredo, o papel do cego no cordel nordestino ou do ermit\u00e3o da montanha como personagem mediador, digamos, da nossa hist\u00f3ria sem fim.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia pensado nisso, a princ\u00edpio. Mas, concordo em parte com a observa\u00e7\u00e3o do auto-proclamado ombudsman do nosso humilde Blog. Essas tr\u00eas ilustres figuras revelam uma percep\u00e7\u00e3o antecipada dos fatos que se sucedem. Mostram uma consci\u00eancia cr\u00edtica desta ou daquela a\u00e7\u00e3o, desta ou daquela fala.<\/p>\n<p>Achei divertida a compara\u00e7\u00e3o, mas reitero ao Escova, experiente freq\u00fcentador de padocas, botecos, bares e afins, que todo estabelecimento desse g\u00eanero que se preze (especialmente o das antigas, que preservam as paredes ladrilhadas e o balc\u00e3o de m\u00e1rmore ou f\u00f3rmica) tem como figura impoluta um personagem assim.<\/p>\n<p>Naqueles bons e velhos tempos do \u2018sujinho\u2019 da rua Bom Pastor, onde se exibe imponente a Esta\u00e7\u00e3o Sacom\u00e3 do Metr\u00f4, o grande e s\u00e1bio guru da nossa turma era o saudoso Nasci.<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Deixemos de lero-lero e voltemos \u00e0 nossa hist\u00f3ria que, no cap\u00edtulo de ontem (ui!), terminou com s\u00e9rias suspeitas sobre os procedimentos do Jeremias. Lembram?<\/p>\n<p>Para ser bem sincero, o Seu Man\u00e9 n\u00e3o ouviu o coment\u00e1rio do s\u00e1bio-bebum, nem outro qualquer. Passou o dia injuriado com a realidade, a esquisita realidade, de seus dias.<\/p>\n<p>A pimpolha Jacira j\u00e1 n\u00e3o era motivo de suas cobi\u00e7as, embora continuasse \u201cum chuchuzinho\u201d. E cada dia mais sorridente para o seu lado. Na administra\u00e7\u00e3o do forno e do fog\u00e3o, no entanto, deixava a desejar \u2013 o que s\u00f3 fazia aumentar a \u201csaudade\u201d da amada Luzia.<\/p>\n<p>Toda vez que atrasava a fornada de p\u00e3o, quando desandava a massa dos salgados ou havia um desacerto no card\u00e1pio do almo\u00e7o, era um \u201cai Jesus\u201d para o desalentado Seu Man\u00e9. Tudo isso mais o espectro da crise que aflige o pa\u00eds.<\/p>\n<p>O amigo temia pelo bom nome do seu patrim\u00f4nio maior, a Flor de Avis e, l\u00e1 no fundinho d\u2019alma, preocupava-se mais, bem mais, com o abandono a que Luzia lhe deixara.<\/p>\n<p>N\u00e3o gostou nada quando um rapazote desconhecido, mas com pinta de sacana, pediu uma cerveja e se p\u00f4s a cantarolar baixinho:<\/p>\n<p>\u201cMalandro \u00e9 malandro<br \/>\nMan\u00e9 \u00e9 Man\u00e9<br \/>\nPodes crer que \u00e9\u201d<\/p>\n<p>Pela primeira vez em tantos e tantos anos de padaria, pensou em encerrar o expediente antes da hora e voltar a casa para esclarecer algumas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Malandro \u00e9 malandro, Man\u00e9 \u00e9 Man\u00e9, ora pois&#8230; Ser\u00e1 que esse fedelho est\u00e1 com goza\u00e7\u00e3o para cima de mim?<\/p>\n<p>PARTE 7<\/p>\n<p>Ufa!<\/p>\n<p>Fim do expediente.<\/p>\n<p>Seu Man\u00e9 baixou as portas de a\u00e7o, como nunca dantes em sua vida. Aliviado, ansioso.<\/p>\n<p>Queria chegar logo em casa. At\u00e9 notou que Jacira, a tal e qual, insistiu em ficar al\u00e9m do tempo normal e, \u00e0quela hora da noite, naquelas circunst\u00e2ncias, se ele lhe oferecesse uma carona, seria dif\u00edcil segurar. A menina estava lhe dando um mole.<\/p>\n<p>Ficou tentado, mas segurou a onda. Naquele dia, n\u00e3o. Estava ansioso, como disse. Ansioso, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Amargurado. Queria esclarecer aquela situa\u00e7\u00e3o de uma vez por toda.<\/p>\n<p>Vez ou outra, lembrava a intimidade com que o sacana do Jeremias lhe tratara hoje cedo.<\/p>\n<p>\u201cLu, Lu&#8230; Que intimidade do malandro com a minha patroa!\u201d, pensava e se entristecia.<\/p>\n<p>Sabem aquela velha can\u00e7\u00e3o da Maysa \u2013 mesmo os mais jovens devem saber, porque andou tocando a\u00ed numa miniss\u00e9rie da globo \u2013 que diz \u201cmeu mundo caiu\u201d?<\/p>\n<p>Pois ent\u00e3o, n\u00e3o quero assust\u00e1-los, n\u00e3o, leitores. Mas, lhes antecipo que serviria como uma boa trilha sonora para a recep\u00e7\u00e3o que o nosso Man\u00e9 teve em casa assim que abriu a porta.<\/p>\n<p>Dona Luzia lhe esperava para reviver os bons tempos. Os bons tempos dos esculachos na padaria.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o deu sequer boa noite, e lhe sapecou uma saraivada de improp\u00e9rios que deixou a alma e o cora\u00e7\u00e3o tal e qual aquele famoso queijo sui\u00e7o, repleto de buracos.<\/p>\n<p>Para piorar, a pauleira terminou com o seguinte e bandeiroso recado:<\/p>\n<p>&#8211; E nunca mais ouse incomodar o Jej\u00ea com perguntas sobre a minha vida. O coitadinho perdeu at\u00e9 fome. T\u00e1 me ouvindo, Man\u00e9? Nunca mais, ouviu?<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Confesso que n\u00e3o sei ao certo o que dizer aos meus am\u00e1veis cinco ou seis leitores.<\/p>\n<p>Sinto que devo continuar a hist\u00f3ria, \u00e9 meu dever. Mas, imagino que, assim como eu, voc\u00eas tamb\u00e9m est\u00e3o um tanto \u2013 ou muito \u2013 decepcionados com Dona Luzia, Luzia ou Lu, que seja!<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de minha compet\u00eancia julg\u00e1-la.<\/p>\n<p>Por isso, sigo relatando o que pensou o Seu Man\u00e9:<\/p>\n<p>(Sei o que pensou, \u00f3bvio, porque sou o autor dessa historieta \u2013 e todo autor que se preze tem acesso \u00e0 \u2018caixa preta\u2019 dos personagens).<\/p>\n<p>\u201cQuer dizer que, enquanto eu trabalho duro para tocar os neg\u00f3cios do estabelecimento, me esfalfo atr\u00e1s do balc\u00e3o, a minha Luzia fica de papinho furado com aquele vagabundo, aquele salafr\u00e1rio, aquele&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Bem, bem paremos por aqui.<\/p>\n<p>O pensamento do Seu Man\u00e9 continuou bem mais prolixo e, digamos, contundente. No entanto, e de forma at\u00e9 surpreendente, nada disse. N\u00e3o pediu explica\u00e7\u00f5es. Sentiu uma tonteira, uma ard\u00eancia no peito, n\u00e3o estava entendendo nada, mas, naquele \u00e1timo de segundo, teve a compreens\u00e3o exata de tudo que estava se passando.<\/p>\n<p>Deu meia-volta \u2013 e saiu.<\/p>\n<p>PARTE 8<\/p>\n<p>Vida que segue, meus caros.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que nossa hist\u00f3ria s\u00f3 n\u00e3o teve um final tr\u00e1gico por que, entendamos ou n\u00e3o, Seu Manoel revelou-se um manso \u2013 quer dizer, um cara pac\u00edfico, minimamente tranquilo, a ponto de preferir, mesmo em desatino, chorar suas magoas num quarto do apart-hotel do que partir para o bate-boca ou algo pior.<\/p>\n<p>Quem nada entendeu foi Dona Luzia, a Luzia ou a Lu, como queiram.<\/p>\n<p>&#8211; O que deu no homem?<\/p>\n<p>Andava t\u00e3o envolvida com as novas conquistas que mal se deu conta de que n\u00e3o era mais quem sempre foi.<\/p>\n<p>Estava em outra enquanto o marido continuava na mesma. A vidinha de sempre. De casa para a padaria, da padaria para casa. Vidinha que ela pr\u00f3pria levou por anos e anos a fio, mas que, talvez j\u00e1 n\u00e3o lhe bastasse.<\/p>\n<p>Horrorizou-se com a possibilidade de voltar \u00e0quela lida de forno, fog\u00e3o &amp; Cia.<br \/>\nPassava 14, 16 horas por dia ali. De segunda a segunda. Dia livre s\u00f3 no Natal e no dia 1\u00ba de janeiro.<\/p>\n<p>Tanta coisa pra se viver mundo afora.<\/p>\n<p>N\u00e3o queria se mostrar injusta. Nem relegar a vida que levou.<\/p>\n<p>Teve consci\u00eancia que estava em uma encruzilhada.<\/p>\n<p>\u00c9 muito prov\u00e1vel que o marido n\u00e3o entendesse a nova fase.<\/p>\n<p>Talvez fosse bom conversar com a professora de neurolingu\u00edstica. Antes, por\u00e9m, iria procurar Jeremias, o Jej\u00ea, para que ele lhe buscasse not\u00edcias do Manoel.<\/p>\n<p>\u201cEm tantos e tantos de conviv\u00eancia, nunca vi o Man\u00e9 t\u00e3o atarantado pra me largar falando sozinha\u201d.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Antes de se aboletar em um apart-hotel, seu Man\u00e9 vagou de carro pelas ruas da cidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha um destino certo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o conseguia pensar em nada.<\/p>\n<p>Estava em choque.<\/p>\n<p>Aquela mulher a sua frente, falando, falando, falando&#8230;<\/p>\n<p>Chamando um estranho por apelido, Jej\u00ea, Jej\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>Perdera o controle.<\/p>\n<p>Aquela mulher n\u00e3o podia ser a sua Luzia.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o fosse mesmo&#8230;<\/p>\n<p>Talvez ele tamb\u00e9m n\u00e3o fosse mais o mesmo.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>J\u00e1 devidamente hospedado, Seu Man\u00e9 derrubou uma garrafa de vinho que havia no frigobar e apagou.<\/p>\n<p>Dormiu o sono dos inocentes.<\/p>\n<p>Parte 9<\/p>\n<p>Algu\u00e9m me chama a aten\u00e7\u00e3o para o final do cap\u00edtulo anterior.<\/p>\n<p>\u201cDormiu o sono dos inocentes\u201d.<\/p>\n<p>Seu Man\u00e9 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o inocente assim.<\/p>\n<p>O leitor tem l\u00e1 suas raz\u00f5es. At\u00e9 porque no mundo de hoje at\u00e9 as crian\u00e7as brincam de enganar.<\/p>\n<p>De qualquer forma, minha inten\u00e7\u00e3o com a frase pretendeu mostrar que o \u201dportuga\u201d, em meio a tamanho imbr\u00f3glio pessoal e profissional, dormiu pesado, profundo.<\/p>\n<p>Tanto que os funcion\u00e1rios da imp\u00e1vida Flor de Avis estranharam a aus\u00eancia da chefia assim que chegaram para o expediente do dia.<\/p>\n<p>Nunca acontecera antes.<\/p>\n<p>Por sorte, Jacira possu\u00eda uma chave reserva \u201cpara qualquer eventualidade\u201d e, ao cabo de 45 minutos, tomou a frente e, para espanto geral, de seus pares e da freguesia, deu ordem ao padeiro que a ajudasse a abrir o estabelecimento e agilizasse a primeira fornada de p\u00e3o do dia e toda a rotina de atendimento.<\/p>\n<p>Houve quem comentasse:<\/p>\n<p>&#8211; Que abusada!<\/p>\n<p>Outros mais maledicentes foram para o inevit\u00e1vel:<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 est\u00e1 se achando a primeira dama da padaria.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 quest\u00e3o de tempo, disse outro.<\/p>\n<p>Bem, meus caros cinco ou seis leitores, nem sei ao certo o que lhes dizer.<\/p>\n<p>A vida n\u00e3o pede licen\u00e7a.<\/p>\n<p>A vida n\u00e3o pede desculpa.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nota de rodap\u00e9 ou anexo que explique, l\u00e1 na frente, quando come\u00e7a e quando termina uma hist\u00f3ria de amor.<\/p>\n<p>Antes que o n\u00f3 se desate, acho importante registrar que caminhamos (ufa!) para o fim da nossa narrativa sobre as venturas e as desventuras do casal Seu Man\u00e9 e Luzia.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o a voc\u00eas, amigos, que me desculpem, mas n\u00e3o darei detalhes, min\u00facias, meandros sobre as tr\u00eas ou quatro conversas que houve entre eles para acertar os finalmentes.<\/p>\n<p>S\u00e3o conversas dif\u00edceis, concordam? Que s\u00f3 interessam aos dois personagens.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que o quase ex-marido n\u00e3o teve coragem para fazer a cl\u00e1ssica pergunta entre os enganados:<\/p>\n<p>&#8211; Existe outro homem?<\/p>\n<p>Vai que \u00e9 ela diz sim, \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9? A dor \u00e9 mais aguda. Melhor fingir que n\u00e3o sabe.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Luzia n\u00e3o tocou no assunto que, a bem da verdade, parecia n\u00e3o existir \u2013 ao menos at\u00e9 aquele momento.<\/p>\n<p>Ela queria mesmo \u00e9 cair no mundo e, nessa nova fase, assim como ela virou Lu era compreens\u00edvel que adotasse o diminutivo carinhoso para todos que estivessem ao redor. Jeremias virou Jej\u00ea, a comadre Maria se transformou em M\u00e1, o sobrinho Ferdinando em Nando e a professora de neurolingu\u00edstica (a base ou a desculpa para tantas mudan\u00e7as) era simplesmente \u201ca pr\u00f4\u201d.<\/p>\n<p>O \u00fanico que ficou fora dessa lista \u2013 que ironia! \u2013 foi o marid\u00e3o. Ele continuou sendo Manoel. O que, convenhamos, era sintom\u00e1tico. Ele n\u00e3o fazia parte dos planos futuros de Lu.<\/p>\n<p>PARTE 10<\/p>\n<p>\u201cO tempo n\u00e3o para no porto<\/p>\n<p>N\u00e3o apita na curva<\/p>\n<p>N\u00e3o espera ningu\u00e9m\u201d<\/p>\n<p>(Reginaldo Lessa)<\/p>\n<p>Nessa toada do ef\u00eamero, o que era previsto aconteceu.<\/p>\n<p>Seu Man\u00e9 e dona Luzia seguiram cada qual o pr\u00f3prio destino.<\/p>\n<p>Indagado a respeito, Jeremias, tido e havido no bairro como \u201co interventor\u201d, foi cir\u00fargico no parecer:<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 n\u00e3o eram as mesmas pessoas. \u00c9 natural que cada um siga o seu caminho.<\/p>\n<p>Jurou de p\u00e9s juntos que nada tinha a ver com a separa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; O clima na padaria estava pesado. S\u00f3 dei uma sugest\u00e3o.<\/p>\n<p>A linda Jacira, empossada nas fun\u00e7\u00f5es de bra\u00e7o direito e esquerdo do Seu Man\u00e9, tomou partido \u2013 e nem poderia ser diferente:<\/p>\n<p>-N\u00e3o sei como tem mulher que abandona um hom\u00e3o desses!<\/p>\n<p>O s\u00e1bio-bebum preferia n\u00e3o se pronunciar:<\/p>\n<p>&#8211; Vai que eles voltam amanh\u00e3 ou depois, como \u00e9 que fica quem falou?<\/p>\n<p>Diante da insist\u00eancia dos frequentadores e \u2013 por que n\u00e3o? \u2013 disc\u00edpulos saiu-se com um t\u00edtulo de um dos filmes de Woody Allen:<\/p>\n<p>&#8211; Igual a tudo na vida. N\u00e3o sei por que tanta surpresa?<\/p>\n<p>Em termos de rumos tomados, direi apenas que o de dona Luzia (ou a nova Lu) apresentou um diferencial. Engatou um curso atr\u00e1s do outro e, com a grana da partilha, resolveu passar um tempo fora do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>A mo\u00e7oila, como se v\u00ea, n\u00e3o era fraca, n\u00e3o.<\/p>\n<p>A \u00faltima not\u00edcia que se tem da figura \u00e9 que ela participou de um desses reality de culin\u00e1ria na Austr\u00e1lia, pode isso? Foi desclassificada na primeira eliminat\u00f3ria do Masterchef de l\u00e1.<\/p>\n<p>Jeremias, aquele, garante que foi uma injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Preconceito, meus caros, xenofobia. Quem se deliciou com os quitutes da Lu sabe bem o que eu estou dizendo.<\/p>\n<p>Sobre os burburinhos que os dois tiveram um romance, o malandro foi discreto:<\/p>\n<p>&#8211; Prefiro n\u00e3o comentar.<\/p>\n<p>Na outra margem do rio, deu o \u00f3bvio e o previsto. Uma coisa leva a outra, e a outra leva a uma. Jacira as fun\u00e7\u00f5es de dona do peda\u00e7o na padaria e na vida do (inicialmente) apatetado Seu Man\u00e9.<\/p>\n<p>Para surpresa de muitos, at\u00e9 que formaram um casal apaixonado.<\/p>\n<p>No meio desse enrosco todo, sobrou para o neg\u00f3cio. A padaria j\u00e1 n\u00e3o era mais a mesma.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a crise que o pa\u00eds atravessa, justificava-se Seu Man\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Dona Luzia faz falta, arrematou Jeremias.<\/p>\n<p>&#8211; Seu Man\u00e9 agora s\u00f3 quer o deleite do novo amor, diziam os mais enciumados<br \/>\n(alguns cheios de ideinha em rela\u00e7\u00e3o a Jacira).<\/p>\n<p>Ali\u00e1s dizem que foi sugest\u00e3o da pr\u00f3pria vender a padaria e propor um novo rumo para a vida de ambos.<\/p>\n<p>Dito e feito.<\/p>\n<p>Com o dinheiro arrecadado (ou parte dele), compraram um trailer adaptado, desses bem moderninhos, com comidinhas transadas e coisa e tal.<\/p>\n<p>Agora, s\u00f3 participam de feiras e eventos \u2013 e aproveitam para curtir e conhecer esse Brasilz\u00e3o de Meu Deus.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o viajam, voc\u00ea pode encontr\u00e1-los na Vila Madalena, no meio da mo\u00e7ada que, faminta, sai das baladas locais.<\/p>\n<p>\u00danico sen\u00e3o: seu Man\u00e9 n\u00e3o gosta quando o chamam de \u201ctioz\u00e3o\u201d e odeia quando os mais abusados perguntam se Jacira \u00e9 sua filha e provocam:<\/p>\n<p>&#8211; Fala a\u00ed, sogr\u00e3o.<\/p>\n<p>Sabe como \u00e9, \u2018portuga\u2019 escaldado&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 parece aqueles velhos causos que o grande Stanislaw t\u00e3o bem relatava em suas cr\u00f4nicas di\u00e1rias \u2013 e que eram \u201ca cara\u201d do Brasil nos anos 60. 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