{"id":13207,"date":"2015-10-01T00:00:00","date_gmt":"2015-10-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:52:51","modified_gmt":"2017-09-15T18:52:51","slug":"10-cruzeiros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/10-cruzeiros\/","title":{"rendered":"10 cruzeiros"},"content":{"rendered":"<p>A troco de encontrar um documento que lhe pediram no emprego, foi remexer no fundo de uma gaveta onde n\u00e3o fu\u00e7ava h\u00e1 anos. Vira daqui, mexe dali, sobrou em uma de suas m\u00e3os uma esmaecida nota de 10 cruzeiros, testemunha inexor\u00e1vel de um tempo pra l\u00e1 de antigo.<\/p>\n<p>Quando foi isso Meu Deus? <\/p>\n<p>Perguntou para si mesmo, mesmo sabendo que, de pronto, n\u00e3o teria qualquer resposta.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Aquela vis\u00e3o, no entanto, lhe trouxe alguma inquieta\u00e7\u00e3o e outro tanto de curiosidade.<\/p>\n<p>Sentiu a aspereza do papel e fixou o olhar na imagem impressa de D. Pedro II, o imperador deposto. Barba longa, n\u00e3o era sequer aparada; olhos cerrados, um aspecto l\u00fagubre. Naqueles idos dos anos 70 e 80, quando a nota circulou, aquela fisionomia lhe era distante, et\u00e9rea, um Papai Noel triste.<\/p>\n<p>Hoje, nem tanto.<\/p>\n<p>Enquanto pensava, riu de alguns amigos que, se vissem a nota, desistiriam de usar barbas cumpridas t\u00e3o em voga nos dias atuais. Se julgam modernos.<\/p>\n<p>V\u00e1 entender as voltas que o mundo d\u00e1 \u2013 concluiu.<\/p>\n<p>Mas, ali, tamb\u00e9m estavam (est\u00e3o?) patenteados a fluidez do tempo, inevit\u00e1vel, e o ef\u00eamero da condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Por que guardou aquele dinheiro, vil dinheiro, causa e raz\u00e3o de tantas ins\u00eddias, de tanta incompreens\u00e3o, de tantas trag\u00e9dias na hist\u00f3ria da humanidade? Naquele exato momento, a nota era uma trolha a mais em meio a fotos antigas, passaportes vencidos, carteira de estudante do tempo em que era um jovem sonhador e outros velhos pap\u00e9is sem qualquer serventia para a vida que hoje levava.<\/p>\n<p>Refletiu sobre o jeito t\u00e3o sem jeito que temos de nos apegar ao passar dos dias. Al\u00e9m da v\u00e3 tentativa de tentar resgatar algum naco de felicidade que tenhamos vivido l\u00e1 nos pratrazmentes.<\/p>\n<p>Buscamos sempre o eterno.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Voltou a se questionar:<\/p>\n<p>Quando foi que o cruzeiro virou real?<\/p>\n<p>Ele pr\u00f3prio tentou a resposta: em junho de 1994. Antes passou por um est\u00e1gio como \u201ccruzeiro novo\u201d, a\u00ed veio a URV e finalmente o Pa\u00eds assenhoreou-se de uma nova moeda.<\/p>\n<p>Este mesmo real que, antes da hecatombe social, pol\u00edtica e econ\u00f4mica que atravessamos, parecia ser uma moeda forte, indestrut\u00edvel. <\/p>\n<p>Logo, logo, ele pr\u00f3prio (o real) tende a desaparecer.<\/p>\n<p>\u00c9 da vida e dos amores, voltou a pensar.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Por falar em amores, n\u00e3o contava com a surpresa que o acaso lhe proporcionou.<\/p>\n<p>Virou a nota para melhor apreci\u00e1-la. <\/p>\n<p>Viu a esfinge impressa do Profeta Daniel, a obra do escultor Aleijadinho, um requinte cultural, digamos assim. Ao lado dela, em letras mi\u00fadas, quase impercept\u00edveis, notou uns rabiscos que lhe roubou a pouca serenidade que restara:<\/p>\n<p>\u201cOi!<br \/>\n Tchau&#8230;<br \/>\n Sua felicidade. Acima de tudo.<br \/>\n Comigo ou sem-migo\u201d.<\/p>\n<p>Quem assinou este quase poema?<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 n\u00edtido. O tempo apagou. N\u00e3o consegue ler. Mas, lembrou-se bem&#8230; Lembrou-se para n\u00e3o mais esquecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A troco de encontrar um documento que lhe pediram no emprego, foi remexer no fundo de uma gaveta onde n\u00e3o fu\u00e7ava h\u00e1 anos. 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