{"id":13213,"date":"2015-10-01T00:00:00","date_gmt":"2015-10-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:52:51","modified_gmt":"2017-09-15T18:52:51","slug":"meus-tipos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/meus-tipos\/","title":{"rendered":"Meus tipos *"},"content":{"rendered":"<p>Como recusar o convite de um filho? Por mais que seja um daqueles programas de \u00edndio (que evito o mais que posso), l\u00e1 fui eu ontem \u00e0 noitinha caminhar em uma pista p\u00fablica de Cooper que existe pertinho de casa.<\/p>\n<p>Em l\u00e1 chegando, surpreende-me duas coisas: 1- o que tem de gente ali se exercitando \u00e9 mesmo de impressionar (desconfio que o brasileiro m\u00e9dio tomou gosto por cuidar da sa\u00fade, como recomendam os m\u00e9dicos) 2 \u2013 meu filho se p\u00f5e a correr e me larga, por ali, a caminhar no ritmo que consigo e me garanto. Ainda tento provoc\u00e1-lo:<\/p>\n<p>&#8211; Me convida para caminhar junto com voc\u00ea \u2013 e agora me abandona?<\/p>\n<p>Em v\u00e3o.<\/p>\n<p>O cara j\u00e1 vai longe \u2013 e n\u00e3o me resta outra alternativa sen\u00e3o continuar no meu trotezinho maneiro.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Andava eu pelo quilometro, quilometro e tanto, eis que se aproxima de mim uma senhorinha e educadamente me pergunta:<\/p>\n<p>&#8211; Ademir, \u00e9 voc\u00ea?<\/p>\n<p>Reluto alguns instantes, mas respondo negativamente. Sempre fui muito sincero. N\u00e3o seria agora que iria iludir aquela fr\u00e1gil senhora.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, minha senhora, n\u00e3o sou o Ademir.<\/p>\n<p>Ela fica um tanto sem jeito e se desculpa. Diz que estava sem \u00f3culos e apressa o passo mi\u00fado para se distanciar o mais que pode de mim.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Fico ruminando o epis\u00f3dio na mem\u00f3ria \u2013 e me ponho a imaginar quantas e tantas vezes fui confundido com outra pessoa. Sou um tipinho comum.<\/p>\n<p>L\u00e1 nos antigamente fui a um show de um cantor\/compositor vanguardista, Walter Franco, que fazia muito sucesso \u00e0 \u00e9poca com can\u00e7\u00f5es como \u201cVela Aberta\u201d, \u201cRespire Fundo\u201d, \u201cSerra do Luar\u201d, entre outras. Cheguei cedo e me instalei em um boteco pr\u00f3ximo ao Teatro da GV at\u00e9 que se abrissem as portas do audit\u00f3rio. Percebi que, aos poucos, as mesas ao meu redor lotaram de prov\u00e1veis espectadores que n\u00e3o paravam de me olhar e conversar baixinho sobre n\u00e3o sei o qu\u00ea.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m me perguntou algo sobre o espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Respondi que tamb\u00e9m estava ali para assisti-lo e ouvi o rapaz dizer:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 ele n\u00e3o, turma. Parece, mas n\u00e3o \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>O pessoal foi embora desalentado. <\/p>\n<p>Reconheci a decep\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m no rosto do portugu\u00eas, dono da birosca. Em fun\u00e7\u00e3o da minha resposta, perdeu uma receita que jurava estar segura.<\/p>\n<p>Tudo bem. Vida que segue&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Meses depois, encontrei-me com Walter Franco nos corredores da ent\u00e3o gravadora CBS (atual Sony). Meus amigos rep\u00f3rteres e o assessor de imprensa, o Art\u00falio, brincaram comigo e com ele:<\/p>\n<p>&#8211; Enfim, os irm\u00e3os se encontraram.<\/p>\n<p>Fiquei super sem gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Walter foi gentil:<\/p>\n<p>&#8211; Ele tem os tra\u00e7os mais suaves que os meus.<br \/>\nV.<\/p>\n<p>Continuei minha caminhada a recordar outras situa\u00e7\u00f5es que vivi vida afora. <\/p>\n<p>Certa vez, esperava uma carona de algu\u00e9m em frente ao pr\u00e9dio onde moro \u2013 e percebi que uma jovem senhora me olhava insistentemente. <\/p>\n<p>Ela j\u00e1 se encontrava na portaria quando cheguei, mas penso que n\u00e3o se deu conta que sai pelo port\u00e3o da garagem. Porque, passado alguns minutos e me vendo ali de bobeira, ela se aproximou e me perguntou com forte sotaque de americano:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 o marceneiro?<\/p>\n<p>Disse que n\u00e3o \u2013 e ela se afastou, toda sorridente,<\/p>\n<p>Dias depois, soube que era uma nova moradora do pr\u00e9dio.<\/p>\n<p>Contei essa hist\u00f3ria, tempos depois, para o Escova que foi enf\u00e1tico. Se fosse com ele, s\u00f3 esclareceria o mal-entendido l\u00e1 em cima, no interior do apartamento da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Quem sabe n\u00e3o dava jogo?<\/p>\n<p>O Escova \u00e9 um patife, concordo. Mas \u00e9 meu amigo.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Nos tempos em que trabalhei com o Padre Brito \u2013 edit\u00e1vamos o jornal O<br \/>\nCarpinteiro, na Par\u00f3quia S\u00e3o Jos\u00e9 do Ipiranga \u2013 tamb\u00e9m se vivi situa\u00e7\u00e3o semelhante.<\/p>\n<p>Antes de come\u00e7ar os trabalhos daquela manh\u00e3, passei pela igreja para ver se o Padre Brito estava por ali e tamb\u00e9m para rezar um tantinho \u2013 nunca \u00e9 demais pedir prote\u00e7\u00e3o aos C\u00e9us. <\/p>\n<p>Estava entretido contemplando as pinturas de uma das primeiras igrejas do Ipiranga, quando uma senhora me abordou, com ares aflitos e me perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 padre?<\/p>\n<p>N\u00e3o era, e n\u00e3o sou. Mas, fiquei feliz por exalar ares de santidade.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Enquanto caminhava ia lembrando essa e outras hist\u00f3rias, mas uma quest\u00e3o, confesso, ainda me incomodava: quem seria o tal Ademir a quem a senhora de referira?<\/p>\n<p>Ademir \u00e9 um nome antiguinho. Faz jus aos meus sessenta e tantos.<\/p>\n<p>Seria professor, como eu?<\/p>\n<p>Dentista?<\/p>\n<p>S\u00edndico de algum pr\u00e9dio na regi\u00e3o?<\/p>\n<p>Seria uma pessoa respeit\u00e1vel e de fino trato?<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Batucava essas bobagens na minha cabe\u00e7a quando meu filho chegou e deu o<br \/>\ntoque que j\u00e1 era hora de ir. <\/p>\n<p>Concordei na hora por dois motivos:<\/p>\n<p>1 &#8211; Eu estava na faixa dos quatro quil\u00f4metros de caminhada; e ele bem mais, pois correra o tempo todo.<\/p>\n<p>2 \u2013 Vai que o tal do Ademir fosse algu\u00e9m listado na Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato ou coisa que o valha. <\/p>\n<p>Nunca se sabe, \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como recusar o convite de um filho? 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