{"id":13215,"date":"2015-10-07T00:00:00","date_gmt":"2015-10-07T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:52:50","modified_gmt":"2017-09-15T18:52:50","slug":"jornalista-ou-torcedor","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/jornalista-ou-torcedor\/","title":{"rendered":"Jornalista ou torcedor"},"content":{"rendered":"<p>Fiquei orgulhoso pra caramba quando recebi a carteira de jornalista da Associa\u00e7\u00e3o dos Cronistas Esportivas do Estado de S\u00e3o Paulo. Entendi que logo, logo, seria destacado para cobrir um jogo, ao vivo e em cores, no est\u00e1dio.<\/p>\n<p>Era tudo o que sonha um apaixonado por futebol e jornalista.<\/p>\n<p>Fiquei empolgado.<\/p>\n<p>Mas, antes que alardeasse minha conquista aos quatro cantos da velha reda\u00e7\u00e3o, ou\u00e7o a voz professoral do grande Tonico Marques me avisar:<\/p>\n<p>&#8211; O burguesinho alienado (o chefe gostava de me provocar, rec\u00e9m-sa\u00eddo da USP, em pleno per\u00edodo ditatorial, era o fim ser chamado de \u2018burguesinho alienado\u2019), seguinte: voc\u00ea vai cobrir o jogo de domingo no est\u00e1dio, mas guarde essa: lugar de torcedor \u00e9 na arquibancada, leve s\u00f3 o jornalista para a tribuna de imprensa. <\/p>\n<p>Ouviu?<\/p>\n<p>Fiz alguns jogos no Pacaembu e no Morumbi, sem maiores problemas. Via ao meu lado alguns nomes do jornalismo esportivo que me eram caros: Solange Biba, \u00c1lvaro Paes Leme, entre outros menos cotados. Todos na maior postura&#8230;<\/p>\n<p>At\u00e9 aquele bendito domingo \u00e0 tarde (17 de junho de 1979) quando Palmeiras e S\u00e3o Paulo se enfrentaram no Morumbi, lotada\u00e7o \u2013 desconfio que havia mais de 100 mil pessoas. Era o jogo decisivo pelas quartas de finais do Campeonato Paulista e o empate credenciaria o meu amado Palestra para a final\u00edssima, diante do Santos (que havia eliminado o Guarani).<\/p>\n<p>A tribuna de Imprensa do Morumbi estava lotada \u2013 e todos na maior seriedade. Eu, mais do que compenetrado, segurava a onda, como podia, para n\u00e3o dar bandeira. <\/p>\n<p>O jogo terminou zero a zero.<\/p>\n<p>O Palmeiras na bica para mais uma conquista. Os anos 70 foram gloriosos para ao alviverde.<\/p>\n<p>Entre os jornalistas um sil\u00eancio sepulcral. E eu, ali, s\u00f3 me remoendo para n\u00e3o entoar com a torcida o tradicional refr\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cAi, ai, ai,ai, t\u00e1 chegando hora.<br \/>\nO dia j\u00e1 vem raiando meu bem<br \/>\nEu tenho que ir embora\u201d.<\/p>\n<p>Lugar de torcedor \u00e9 na arquibancada \u2013 me ensinou o inesquec\u00edvel Marc\u00e3o.<\/p>\n<p>Ledo engano, meus caros.<\/p>\n<p>Aos 13 minutos do segundo tempo da prorroga\u00e7\u00e3o, Serginho<br \/>\nChulapa escapou da vigil\u00e2ncia implac\u00e1vel de Marinho Peres e Beto Fusc\u00e3o e, diante de um Pires apatetado, cabe\u00e7ou firme longe do alcance do goleiro Gilmar.<\/p>\n<p>O est\u00e1dio explodiu num grito de gol.<\/p>\n<p>E lhes confesso, meus amados e fi\u00e9is leitores: a tribuna de imprensa tamb\u00e9m. <\/p>\n<p>O que havia de jornalista\/torcedor do S\u00e3o Paulo ali n\u00e3o era f\u00e1cil<\/p>\n<p>Gritaram gol, se abra\u00e7aram, festejaram. Chegaram at\u00e9 a improvisar um pequeno cord\u00e3o ali.<\/p>\n<p>Sa\u00ed atordoado dali por dois motivos: a derrota do Palmeiras e decep\u00e7\u00e3o com os coleguinhas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do que, o Marc\u00e3o nunca se enganara. Porque viera com aquela conversinha quando me passou a credencial da Aceesp. No dia seguinte, quando lhe contei o ocorrido, n\u00e3o deixou por menos assumiu, de novo, o tom professoral e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Eu lhe propus uma situa\u00e7\u00e3o ideal. Mas, vamos l\u00e1, outra li\u00e7\u00e3o: a tal imparcialidade jornal\u00edstica \u00e9 uma utopia. A gente corre atr\u00e1s, mas francamente ela n\u00e3o existe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fiquei orgulhoso pra caramba quando recebi a carteira de jornalista da Associa\u00e7\u00e3o dos Cronistas Esportivas do Estado de S\u00e3o Paulo. 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