{"id":13236,"date":"2015-11-13T00:00:00","date_gmt":"2015-11-13T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:51:44","modified_gmt":"2017-09-15T18:51:44","slug":"a-manauara","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-manauara\/","title":{"rendered":"A manauara"},"content":{"rendered":"<p>Sab\u00edamos apenas que tinha um nome pomposo, Deovaldo \u2013 mas, n\u00f3s s\u00f3 o cham\u00e1vamos de D\u00e9o. N\u00f3s que eu digo \u00e9 a fina flor dos desvalidos que frequentava aquele boteco que desapareceu no tempo, esquina das ruas Bom Pastor com Greenfeld, onde hoje est\u00e1 a igualmente pomposa Estac\u00e3o Sacom\u00e3 do Metr\u00f4.<\/p>\n<p>D\u00e9o era mo\u00e7o simples que mais ouvia as nossas hist\u00f3rias do que propriamente bebia e\/ou contava suas prosas. Nasci, Almir, Manoelino, Escova, Made, Cebola e outros tantos e tamanhos, com suas artes e manhas, eram os verdadeiros super-her\u00f3is do lugar. Imbat\u00edveis em seus causos e contos.<\/p>\n<p>Bebedeiras, conquistas amorosas, discuss\u00f5es club\u00edsticas, momento pol\u00edtico do Pa\u00eds (viv\u00edamos os idos da redemocratiza\u00e7\u00e3o), maledic\u00eancias generalizadas e hist\u00f3rias da boemia de uma S\u00e3o Paulo que n\u00e3o mais existia eram os temas de praxe \u2013 sempre regados \u00e0 cerveja e cacha\u00e7a que era pra aquecer as gargantas e as perip\u00e9cias.<\/p>\n<p>S\u00f3 uma vez, que eu me lembre, D\u00e9o se p\u00f4s a nos contar uma quase conquista. <\/p>\n<p>Sab\u00edamos da sua paix\u00e3o por uma (in)certa morena que, quase todos os dias, ele encontrava no ponto de \u00f4nibus logo pela manh\u00e3. Mesmo com seus olhares insistentes, elazinha n\u00e3o lhe dava mole e fazia quest\u00e3o de deixar bem \u00e0 mostra o anel de compromisso em um dos dedos da m\u00e3o direita.<\/p>\n<p>Vez ou outra, algu\u00e9m provocava o rapaz, com a c\u00e9lebre pergunta, natural em um ambiente amplamente machista como aquele:<\/p>\n<p>&#8211; E a\u00ed j\u00e1 passou o rodo na manauara do \u00f4nibus?<\/p>\n<p>Explico o \u201cmanauara\u201d. <\/p>\n<p>Pela descri\u00e7\u00e3o que o D\u00e9o fizera dela \u2013 taludinha, cabelos negros corridos, olhos grandes e de um instigante tom de castanho, boca grande e largo sorriso -, o Cebola, que havia retornado de uma viagem ao Norte do Pa\u00eds, garantia que, pelas fei\u00e7\u00f5es, era \u201cuma aut\u00eantica cidad\u00e3 de Manaus\u201d.<\/p>\n<p>D\u00e9o n\u00e3o sabia lhe responder sobre a origem da mo\u00e7a. Ela n\u00e3o dava a m\u00ednima. Havia ocasi\u00f5es em que seus olhares se cruzavam \u2013 e ele pr\u00f3prio sentia-se invadindo a privacidade dela. <\/p>\n<p>No ato, baixava o olhar, constrangido.<\/p>\n<p>At\u00e9 que, naquele s\u00e1bado, D\u00e9o chegou alegrinho, digamos assim. Disse que, no dia anterior, encontrou a amada logo cedo no ponto de \u00f4nibus. E ela estava diferente. Continuava de alian\u00e7a no dedo, mas era s\u00f3 sorrisos pro lado dele. Chegou mesmo a \u2018puxar\u2019 assunto. Perguntou se o \u201cIpiranga-Sumar\u00e9\u201d passava pela Doutor Arnaldo \u2013 ora se ela pegava o coletivo todos os dias, j\u00e1 deveria saber que sim.<\/p>\n<p>E a\u00ed, cara, foi pra cima dela? \u2013 perguntamos quase que em coro. Torc\u00edamos pelo sim.<\/p>\n<p>Mas, a resposta foi:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00c3O, est\u00e3o loucos! Claro que n\u00e3o. Sabem que dia era ontem? <\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem hora, n\u00e3o tem dia, para essas coisas acontecerem, cara. Vacilou&#8230; <\/p>\n<p>\u00c0 observa\u00e7\u00e3o abalizada do expert Escova, D\u00e9o foi contundente na resposta:<\/p>\n<p>&#8211; Ontem era sexta, dia 13, cara. D\u00e1 um azar danado come\u00e7ar algo nesse dia&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sab\u00edamos apenas que tinha um nome pomposo, Deovaldo \u2013 mas, n\u00f3s s\u00f3 o cham\u00e1vamos de D\u00e9o. 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