{"id":13324,"date":"2016-03-28T00:00:00","date_gmt":"2016-03-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:47:31","modified_gmt":"2017-09-15T18:47:31","slug":"o-injustificavel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-injustificavel\/","title":{"rendered":"O injustific\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>Passo o dia a me justificar. Pelo Palmeiras, meu time do cora\u00e7\u00e3o.  Pelo Carlos Heitor Cony, um dos meus autores prediletos. <\/p>\n<p>O Palmeiras, todos sabem a fase que anda. Perdeu quatro seguidas. Est\u00e1 na imin\u00eancia de ser desclassificado da sonhada Libertadores, faz um papel\u00e3o no Paulistinha, \u00e9 o \u00faltimo do seu grupo, al\u00e9m de sofrer o risco do rebaixamento. <\/p>\n<p>Que horror!<\/p>\n<p>Como a sina dos palmeirenses, n\u00e3o vem de hoje. Tiro de letra as brincadeiras dos amigos, relevo as provoca\u00e7\u00f5es dos inimigos e vida que segue. Vesti uma camisa verde, e vim trabalhar na boa.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 dif\u00edcil explicar \u00e9 a coluna de ontem do Cony na Folha de S.Paulo. O homem se p\u00f4s a falar da P\u00e1scoa, origem, hist\u00f3ria, e v\u00e1rias cita\u00e7\u00f5es. \u201cSe Cristo n\u00e3o ressuscitou \u00e9 v\u00e3 a nossa f\u00e9\u201d, escreveu ele citando S\u00e3o Paulo e por a\u00ed foi at\u00e9 o par\u00e1grafo final da cr\u00f4nica, onde sapecou sem cuidados: \u201cAgn\u00f3stico por convic\u00e7\u00e3o, gosto de comemorar as duas p\u00e1scoas. Evito o terr\u00edvel cativeiro de me tornar ref\u00e9m de Dilma e Lula. Desejo que ambos se f&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Li e reli a frase final algumas vezes \u2013 e n\u00e3o acreditei.<\/p>\n<p>Depois apenas sorri. Imaginava que o anarquista Cony, mesmo aos 90 anos, mais cedo ou mais tarde, aprontaria alguma.<\/p>\n<p>Sei que o momento n\u00e3o \u00e9 dos mais oportunos. Especialmente porque os \u00e2nimos andam mais do que exaltados. Fui persona non grata em v\u00e1rios grupos que reencontrei neste fim de semana prolongado. <\/p>\n<p>Decidi n\u00e3o falo mais em pol\u00edtica.<\/p>\n<p>S\u00f3 que a\u00ed veio a cr\u00f4nica do Cony \u2013 e o pessoal agora me cobra a indesculp\u00e1vel baixaria daquele final de cr\u00f4nica que, seguramente, vai constar da antologia dos piores momentos do jornalismo brasileiro.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se voc\u00eas assistiram a um dos mais belos filmes de Woody Allen, Crimes e Pecados, de 1989. <\/p>\n<p>Vou resumir um dos trechos.<\/p>\n<p>O personagem central Cliff, interpretado pelo pr\u00f3prio diretor, passa longos anos de sua vida a filmar o depoimento de um ilustre fil\u00f3sofo a quem ele (Cliff) admira e que, a partir dessas divaga\u00e7\u00f5es, eternizadas em pel\u00edcula, o mundo ficar\u00e1 bem melhor. <\/p>\n<p>Certo dia, Cliff est\u00e1 ao lado da mulher amada (Mia Farrow) a editar um dos tantos quantos depoimentos do fil\u00f3sofo\/guru quando recebe a not\u00edcia que o pr\u00f3prio acabara de se suicidar. Pular\u00e1 do d\u00e9cimo andar dom pr\u00e9dio onde morava.<\/p>\n<p>O cineasta olha para as latas de filmes ao seu redor \u2013 e fica inconsol\u00e1vel. Mesmo assim, n\u00e3o resiste \u00e0 observa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cNem um bilhete o miser\u00e1vel deixou para explicar a pr\u00f3pria morte.\u201d<\/p>\n<p>Lembrei-me dessa cena, hoje, todas as vezes que precisava explicar o inexplic\u00e1vel aos amigos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passo o dia a me justificar. Pelo Palmeiras, meu time do cora\u00e7\u00e3o.  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