{"id":13372,"date":"2016-05-05T00:00:00","date_gmt":"2016-05-05T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2021-10-08T20:18:57","modified_gmt":"2021-10-08T20:18:57","slug":"vencemos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/vencemos\/","title":{"rendered":"Vencemos? *"},"content":{"rendered":"<p>Ao ver o meu desencanto, o amigo me diz:<\/p>\n<p>\u201cA cada dia, a sua agonia, Rodolfo. J\u00e1 vivemos dias piores\u201d.<\/p>\n<p>A amiga, que nos acompanha, tamb\u00e9m interv\u00e9m &#8211; e se revela a militante de outros tempos:<\/p>\n<p>\u201cLembra? O Congresso tamb\u00e9m vetou as Diretas. Fomos para as ruas e pra\u00e7as e, meses depois, um civil ocupou a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. N\u00f3s vencemos\u201d.<\/p>\n<p>Vencemos?<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o a pergunta a mim mesmo, silenciosamente.<\/p>\n<p>Nada respondo.<\/p>\n<p>N\u00e3o gostaria de mago\u00e1-los, com minha sincera impress\u00e3o.<\/p>\n<p>Gostaria, sim, de acreditar.<\/p>\n<p>Assim que ambos se afastam, e eu me vejo s\u00f3, se apossa de meu troncho pensar a an\u00e1lise da trajet\u00f3ria que percorremos at\u00e9 os dias atuais .<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Em janeiro de 85, por vias indiretas, o Col\u00e9gio Eleitoral preferiu Tancredo Neves, um h\u00e1bil articulador de priscas eras, a Paulo Maluf, ent\u00e3o a express\u00e3o civil da ditadura.<\/p>\n<p>Tancredo n\u00e3o era propriamente um progressista. Tinha um perfil mineiramente conservador. Foi a solu\u00e7\u00e3o que se p\u00f4de e fez. Para o bem ou para o mal, nunca saberemos.<\/p>\n<p>O homem n\u00e3o chegou a tomar posse.<\/p>\n<p>E uma tristeza imensa se abateu sobre o povo brasileiro.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Em acordo de conveni\u00eancia (que tirou o presidente da C\u00e2mara, Ulysses Guimar\u00e3es, da sucess\u00e3o), assumiu o vice Jos\u00e9 Sarney que, sejamos francos, fez o que hoje faz Michel Temer, s\u00f3 que na m\u00e3o inversa, mas com os mesmos fins. Bandeou-se do PDS, sigla que sustentou o regime ditatorial, onde era um dos pr\u00f3ceres, para o MDB quando sentiu que perdera espa\u00e7o a partir do avan\u00e7o do malufismo no partido governista.<\/p>\n<p>Ou seja, a transi\u00e7\u00e3o acordada, da ditadura para as lides democr\u00e1ticas, se transformou em mais do mesmo.<\/p>\n<p>Retomo a pergunta.<\/p>\n<p>Vencemos?<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7a-se.<\/p>\n<p>Houve avan\u00e7os no campo da democracia. Especialmente pelo afastamento dos militares do centro das decis\u00f5es. Mais por vontade do comando da corpora\u00e7\u00e3o do que por se sentirem obrigados a tal.<\/p>\n<p>A bem da verdade, administrar o Pa\u00eds tornara-se um grande enrosco para os eles, os militares.<\/p>\n<p>Militares da ultradireita insistiam em agarrar-se ao poder, inclusive com a\u00e7\u00f5es violentas (estouravam bancas que vendiam jornais alternativos, houve o atentado ao Rio-Centro, entre outras mazelas).<\/p>\n<p>Mas, creiam, um certo bom-senso prevaleceu.<\/p>\n<p>E assim um civil, Sarney, se fez presidente .<\/p>\n<p>(Melhor n\u00e3o falar do Plano Cruzado e os atropelos inflacion\u00e1rios daqueles dias.)<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Aos trancos e barrancos, chegamos \u00e0s elei\u00e7\u00f5es presidenciais pela escolha popular, em 1989, vinte cinco anos depois do golpe civil-militar que nos jogou em um tempo sombrio e de amarga lembran\u00e7a<\/p>\n<p>Quem venceu?<\/p>\n<p>Fernando Collor, o ca\u00e7ador de maraj\u00e1, inventado pela Globo e a representar os mesmos Donos do Poder de sempre.<\/p>\n<p>Foi o personagem que estes (os Donos do Poder) encontraram para combater a amea\u00e7a do incendi\u00e1rio Brizola e do sapo-barbudo Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. Um ou outro amea\u00e7ava chegar ao Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Deu no que deu.<\/p>\n<p>O descontrole institucional, econ\u00f4mico e social inflado do voraz apetite de Fernando, o Belo n\u00e3o perdia sequer campeonatos de Surfe Ferrovi\u00e1rio, como ironizou Ben Jor na letra da sacolejante \u201cWBrazil\u201d<\/p>\n<p>Ainda hoje h\u00e1 quem pergunte se todo o dinheiro (lembram a interven\u00e7\u00e3o nas poupan\u00e7as?) foi devolvido quando setembro chegou.<\/p>\n<p>Mesmo assim, sua queda n\u00e3o estava nos planos da Tigrada. Mas, o Pimp\u00e3o exagerou e, sem controle sobre os atos do rapaz, trataram de se livrar dele assim que puderam.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se \u00e9 o ceticismo que me ataca desde ent\u00e3o; mas, n\u00e3o me iludo muito com a coisa dos Caras Pintadas nas ruas.<\/p>\n<p>Mais uma artimanha midi\u00e1tica \u2013 que contou inclusive com o enredo de uma s\u00e9rie global <em>O Que \u00c9 Isso, Companheiro<\/em>, baseado no livro de Fernando Gabeira \u2013 do que propriamente uma mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social.<\/p>\n<p>O impeachment (que acabou em ren\u00fancia) dava a sensa\u00e7\u00e3o de que haveria mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas, tudo continuou exatamente igual.<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Antes de continuar meu relato pretensamente hist\u00f3rico, creio ser importante esclarecer sobre os tais Donos do Poder.<\/p>\n<p>L\u00e1 nos anos 70 n\u00f3s os cham\u00e1vamos de Sistema. Tudo era culpa do dito-cujo.<\/p>\n<p>Nossas encrencas passavam pelos seus des\u00edgnios, inclusive a m\u00e3o pesada da ditadura militar em que est\u00e1vamos metidos.<\/p>\n<p>Mas, quais s\u00e3o esses predadores, afinal?<\/p>\n<p>Tento dissipar o enigma, ainda que sumariamente.<\/p>\n<p>S\u00e3o os que se curvam aos interesses internacionais, mais precisamente aos ditames norte-americanos na diplomacia. Os que se dobram ao deus-mercado e ao voraz apetite dos senhores da FIESP em detrimento aos programas sociais. Os rentistas. Os que se insurgem pela precariza\u00e7\u00e3o das leis trabalhistas. E, sobretudo, os que promovem loteamento dos bens nativos, a come\u00e7ar pelo pr\u00e9-sal, fonte de interesse e cobi\u00e7a do oligop\u00f3lio de empresas americanas.<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>Isto posto, seguimos o relato.<\/p>\n<p>Passo seguinte. Itamar Franco, o sucessor de Collor.<\/p>\n<p>Tido e havido como um simpl\u00f3rio, soube tocar uma recheada agenda de avan\u00e7os democr\u00e1ticos e, mesmo com seus percal\u00e7os carnavalescos (quem se lembra?), foi h\u00e1bil na escolha das prioridades: a estabiliza\u00e7\u00e3o da moeda e o combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Houve, a partir da\u00ed, n\u00edtidos reflexos no campo social.<\/p>\n<p>XI.<\/p>\n<p>Embic\u00e1vamos a vit\u00f3ria final com FHC presidente?<\/p>\n<p>Aproveito a pergunta para oportunizar (gostaram do termo?) que as expectativas eram muitas, grandiosas.<\/p>\n<p>Na Universidade de S\u00e3o Paulo, nos tempos do curso de jornalismo na Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes, em plenos anos 70, quando a ditadura e a repress\u00e3o se faziam mais intensas, o nome do soci\u00f3logo Fernando Henrique Cardoso, ent\u00e3o no ex\u00edlio, frequentava o pante\u00e3o da intelectualidade nativa. T\u00ea-lo como presidente, ainda que, v\u00e1 l\u00e1, 20 anos depois, era uma miragem. Entendia-se ent\u00e3o que o pa\u00eds estaria com um p\u00e9 na contemporaneidade. A um passo da conclamada justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>Era o que, diziam, ele prometia em seus livros e ensaios acad\u00eamicos.<\/p>\n<p>Era uma tese ing\u00eanua, creio. Como veremos a seguir.<\/p>\n<p>XII.<\/p>\n<p>O neoliberalismo logo se fez a pedra de toque do seu governo, de oito anos.<\/p>\n<p>O pr\u00edncipe dos soci\u00f3logos n\u00e3o nos poupou de quaisquer dos procedimentos econ\u00f4micos inerentes ao sistema. Inclusive a flagrante subservi\u00eancia aos ditames do Fundo Monet\u00e1rio Internacional.<\/p>\n<p>Houve a estabilidade da moeda, sim. Conquistas democr\u00e1ticas, tamb\u00e9m. Mas o sal\u00e1rio \u00f3&#8230;<\/p>\n<p>O m\u00ednimo, quando muito, bateu em 100 d\u00f3lares. Quem se lembra?<\/p>\n<p>Ao longo desse per\u00edodo, a taxa de desemprego acumulado chegou a 38 por cento.<\/p>\n<p>\u00d4 mem\u00f3ria fraca, os \u201cfiespinos\u201d t\u00eam&#8230;<\/p>\n<p>XIII.<\/p>\n<p>E, d\u00e1-lhe!, as privatiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No bojo de todo esse arsenal de maldades com o pov\u00e3o.<\/p>\n<p>(Um pirulito para quem se recorda de FHC chamando os aposentados de \u2018vagabundos\u2019).<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>No embalo dessas maldades, um pipocar de esc\u00e2ndalos: o da compra de votos para a reelei\u00e7\u00e3o, o da pasta cor de rosa, o das Ilhas Caymann, o das privatiza\u00e7\u00f5es, a den\u00fancia do jornalista Paulo Francis sobre as mazelas da Petrobras, entre outros.<\/p>\n<p>Tudo (in)devidamente varrido para debaixo do tapete, com a leni\u00eancia dos jornal\u00f5es, resvistas e telejornais, e o olhar morno da Pol\u00edcia Federal.<\/p>\n<p>Dizia-se \u00e0 \u00e9poca que t\u00ednhamos um Engavetador Geral da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>XIV.<\/p>\n<p>FHC sai em baixa do governo.<\/p>\n<p>Despeda\u00e7ou-se assim o projeto do PSDB de ficar ao menos 20 anos no poder.<\/p>\n<p>Vou-lhes ser sincero.<\/p>\n<p>Tinha uma coluna semanal. Critiquei pra caramba o Governo FHC (essas cr\u00f4nicas est\u00e3o reunidas no e-book <em>Das Coisas Simples, Sensatas e Sinceras<\/em>).<\/p>\n<p>Mesmo assim, meus caros cinco ou seis fi\u00e9is leitores (se \u00e9 que ainda estejam por a\u00ed), a impress\u00e3o \u00e9 de que caminh\u00e1vamos, segu\u00edamos em frente.<\/p>\n<p>Havia o projeto de dias melhores.<\/p>\n<p>XV.<\/p>\n<p>Confesso que me enrosquei nesse arrazoado de reflex\u00f5es sobre os passos que demos nos \u00faltimos 30 anos que hesito em por quais caminhos seguir.<\/p>\n<p>Prometi que o terminaria neste s\u00e1bado \u2013 e c\u00e1 estou, plena manh\u00e3 de domingo, a teclar sobre o assunto que, nessa altura do campeonato, parece interessar mais a mim mesmo do que aos meus incautos leitores \u2013 se \u00e9 que ainda andam por a\u00ed.<\/p>\n<p>A inc\u00f4moda pergunta que me surgiu l\u00e1 no primeiro cap\u00edtulo \u2013 \u201cVencemos?\u201d \u2013, a cada alinhavo de frase, me parece TEMERosamente (ui!) sem resposta.<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Sigamos.<\/p>\n<p>XVI.<\/p>\n<p>Como \u00e9 amplamente conhecido de todos os seres vivos que habitam a Terra Brasilis, ap\u00f3s tr\u00eas tentativas frustradas (em 89, 94 e 98), Lula se elege presidente da Rep\u00fablica em 2002. Vence mesmo com toda a resist\u00eancia do \u201cestablishment\u201d (outra express\u00e3o que l\u00e1 nos idos de 70 determinava o conluio de for\u00e7as dos mandachuvas de sempre).<\/p>\n<p>Houve um vale tudo para dissuadir os eleitores a votarem no ex-metal\u00fargico. Desde a alta do d\u00f3lar \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o descarada dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Sem falar de amea\u00e7as de toda sorte \u2013 ou seria azar?<\/p>\n<p>Ele, os petistas e os movimentos sociais incendiariam o Brasil.<\/p>\n<p>Era o que diziam&#8230;<\/p>\n<p>XVII.<\/p>\n<p>Mesmo assim &#8211; e com tudo contra -, o homem venceu e, queiram ou n\u00e3o reconhecer, deu uma cara de Brasil ao Brasil que antes se grafava com \u201cz\u201d.<\/p>\n<p>Foi \u201co cara\u201d, como disse Barack Obama em certa ocasi\u00e3o, do di\u00e1logo e da concilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, por essa \u00e9poca, ele mesmo se definia como \u201cLulinha, Paz e Amor\u201d.<\/p>\n<p>Avan\u00e7ou com o Plano Real, com a estabiliza\u00e7\u00e3o da economia, incentivou o consumo e, sobretudo, fez fortes investimentos no campo social. Retirou milh\u00f5es e milh\u00f5es da pobreza, combateu a mis\u00e9ria absoluta que grassa em v\u00e1rios pontos deste Brasilz\u00e3o de meu Deus e impressionou o planeta no primeiro mandato.<\/p>\n<p>Vencemos, ent\u00e3o? Finalmente.<\/p>\n<p>Quase isso.<\/p>\n<p>And\u00e1vamos felizes, mas havia quem desconfiasse.<\/p>\n<p>XVIII.<\/p>\n<p>Para que o Brasil caminhasse firmemente para o tal futuro promissor \u2013 e em nome dessa tal de governabilidade \u2013 o Governo Lula optou por \u2018fechar\u2019 alian\u00e7as com partidos e personagens que antes lhes causavam ojeriza, repugn\u00e2ncia at\u00e9.<\/p>\n<p>Lula pensava na reelei\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, \u00f3bvio.<\/p>\n<p>Mas, desagradou parte dos aliados de esquerda que, com raz\u00e3o, se viram preteridos do processo e do centro das decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Enquanto isso, segmentos do pr\u00f3prio PT adotaram, como pr\u00e1tica digamos de governan\u00e7a e de arrecada\u00e7\u00e3o de fundos para campanhas eleitorais, expedientes esp\u00farios que antes tanto combateram.<\/p>\n<p>Quando explode o esc\u00e2ndalo do \u2018mensal\u00e3o\u2019, vem abaixo todas as conquistas que se fez no per\u00edodo.<\/p>\n<p>Grossos setores da sociedade \u2013 que, a bem da verdade, nunca simpatizaram com Lula e o PT \u2013 tiveram arsenal suficiente para ir \u00e0 forra.<\/p>\n<p>XIX.<\/p>\n<p>Para a celebra\u00e7\u00e3o dos oposicionistas, o PT \u00e9 contemplado com a pecha de ser mais do mesmo.<\/p>\n<p>Pior.<\/p>\n<p>A partir de uma nunca vista virul\u00eancia midi\u00e1tica, o PT ganha a marca de ser o partido que inaugurou e sistematizou a corrup\u00e7\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Era o que precisavam, era o que agora tinham.<\/p>\n<p>XX.<\/p>\n<p>Mesmo com toda a campanha contra ele e seu partido, Lula emplacou o sucessor em 2010.<\/p>\n<p>Ou melhor, sucessora.<\/p>\n<p>Para espanto dos detratores e de largas fatias da sociedade \u2013 especialmente, no sudeste &#8211;, Dilma Rousseff se transformou na primeira mulher a tomar posse na Presid\u00eancia do Brasil.<\/p>\n<p>Sua biografia \u2013 ex-guerrilheira, presa e torturada pela ditadura militar e administradora de convic\u00e7\u00f5es firmes e determinadas \u2013 teve repercuss\u00e3o favor\u00e1vel de in\u00edcio.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o por muito tempo.<\/p>\n<p>XXI.<\/p>\n<p>Desconfio que mais esta derrota eleitoral foi uma surpresa para os tucanos e seus simpatizantes. E \u00e9 exatamente a\u00ed que come\u00e7a, creio, o divisionismo &#8220;entre n\u00f3s e eles&#8221; que hoje assola implacavelmente o pa\u00eds.<\/p>\n<p>E que se enraizou ainda mais a partir das manifesta\u00e7\u00f5es de 2013.<\/p>\n<p>XXII.<\/p>\n<p>Mas, antes de seguir o relato, voltemos aos primeiros anos da administra\u00e7\u00e3o Dilma. Amparada na cartilha pr\u00e9-estabelecida pelo governo anterior, n\u00e3o houve maiores sobressaltos. Transitou-se com certa tranquilidade pelo per\u00edodo, mesmo com o tom de cr\u00edticas cada vez mais beligerante a partir do aprofundamento e das pris\u00f5es da turma do \u201cmensal\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo com os pilares econ\u00f4micos profundamente afetados pela crise mundial que teve seu \u00e1pice em 2008 (h\u00e1 um filme \u00f3timo sobre o que detonou essa debacl\u00ea, <em>A Grande Aposta<\/em>. Vale a pena ver), o Brasil n\u00e3o enfrentava maiores dificuldades.<\/p>\n<p>Havia pleno emprego, um razo\u00e1vel aquecimento do consumo e as taxas de popularidade da presidente \u2013 que preferia ser chamada de presidenta \u2013 continuava nas alturas. Entre 60 e 70 por cento.<\/p>\n<p>XXIII.<\/p>\n<p>Uma breve pausa, explicativa.<\/p>\n<p>Em 2012, o Partido dos Trabalhadores ganhou a Prefeitura de S\u00e3o Paulo, com Fernando Haddad, ex-ministro de Lula.<\/p>\n<p>Entendo que esse foi o sinal de alerta para os oposicionistas, de todos os costados e mesmo para alguns supostos aliados: ou desconstru\u00edam o \u2018monstro\u2019 ou toda e qualquer aspira\u00e7\u00e3o eleitoral estaria comprometida.<\/p>\n<p>Com tamanha aprova\u00e7\u00e3o popular, Lula elegeria, sempre que quisesse, at\u00e9 um poste.<\/p>\n<p>XXIV.<\/p>\n<p>Havia um campo f\u00e9rtil para essa tarefa.<\/p>\n<p>Mesmo com os avan\u00e7os e as conquistas, o exerc\u00edcio do poder deixou o PT em muitos flancos bastante vulner\u00e1vel. A come\u00e7ar pelo deplor\u00e1vel \u2018mensal\u00e3o\u2019. Mas, vale citar tamb\u00e9m o distanciamento dos movimentos populares, alian\u00e7as cada vez mais suspeitas, pouco investimentos na educa\u00e7\u00e3o, o isolamento dentro do pr\u00f3prio partido, a falta de di\u00e1logo com as diversas camadas da sociedade e sobre tudo a dificuldade de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da presidente e seus pr\u00f3ximos, entre outras tantas e tamanhas derrapadas.<\/p>\n<p>Nesse contexto, conden\u00e1vel sobre todos os pontos de vista, colou no PT a imagem de que o partido professava uma verdade quando na oposi\u00e7\u00e3o, mas ao chegar ao Planalto se especializara em repetir as pr\u00e1ticas mais conden\u00e1veis para ali, no poder, se perpetuar.<\/p>\n<p>Mas, houve um momento em que tudo isso amea\u00e7ou ruir \u2013 se \u00e9 que n\u00e3o come\u00e7ou a ruir desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Fazem ideia qual?<\/p>\n<p>XXV.<\/p>\n<p>Acertou quem cravou a resposta nas manifesta\u00e7\u00f5es de rua que se iniciaram em junho de 2013.<\/p>\n<p>Estou para dizer \u2013 se h\u00e1 um exagero nisso, perdoem-me \u2013 que o pa\u00eds nunca mais foi o mesmo depois daqueles atribulados dias. Para o bem e para o mal.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, j\u00e1 fiz algumas alentadas leituras sobre o fen\u00f4meno. No entanto, n\u00e3o houve autor que me explicasse, com objetividade, o que de fato ocorreu naquele atribulado per\u00edodo entre a Copa das Confedera\u00e7\u00f5es e o Mundial de 2014, de triste lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>Vou lhes dizer que as quest\u00f5es ainda hoje permanecem sem respostas convincentes.<\/p>\n<p>XXVI.<\/p>\n<p>Como um movimento que come\u00e7ou se indispondo contra o aumento das tarifas dos transportes p\u00fablicos \u201ccolou\u201d implacavelmente em tr\u00eas figuras que, em primeira inst\u00e2ncia, nada tinham a ver com a reivindica\u00e7\u00e3o. Em duas ou tr\u00eas semanas, despencaram os \u00edndices de aprova\u00e7\u00e3o da presidente Dilma, do governador de S\u00e3o Paulo, Alckmin, e do governador do Rio, S\u00e9rgio Cabral.<\/p>\n<p>Os pol\u00edticos, indiferentes de partidos, tamb\u00e9m sa\u00edram chamuscados no processo.<\/p>\n<p>Celebrou-se, aos quatro cantos, o refr\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00eas n\u00e3o me representam.\u201d<\/p>\n<p>XXVII.<\/p>\n<p>Ok! As investiga\u00e7\u00f5es sobre as mazelas da Petrobras j\u00e1 ganhavam manchetes \u2013 e se aprofundavam.<\/p>\n<p>O caldeir\u00e3o das indigna\u00e7\u00f5es transbordava.<\/p>\n<p>Mas, quem articulou aquela histeria toda em cidad\u00e3os de diversas matizes pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas e a fim exatamente de qu\u00ea?<\/p>\n<p>Contra quem?<\/p>\n<p>Contra tudo e todos?<\/p>\n<p>Contra o Sistema, o establishment , os que no momento atual se arvoravam em Donos do Poder?<\/p>\n<p>As respostas continuaram evasivas.<\/p>\n<p>XXVIII.<\/p>\n<p>E a nobre imprensa nativa?, h\u00e1 de me perguntar o incans\u00e1vel leitor que ainda aqui me acompanha.<\/p>\n<p>Bem, meus caros, a imprensa \u2013 a chamada grande imprensa escrita, falada e televisada, como se dizia nos antigamentes, e agora tamb\u00e9m internatada, \u00e9 um cap\u00edtulo \u00e0 parte nessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou de um lado ao classificar os manifestantes de baderneiros, mas, de repente, mudou o discurso e tratou de desqualificar a classe pol\u00edtica e os governantes a raz\u00e3o de todos os nossos males e do ruidoso descontentamento,<\/p>\n<p>XXIX.<\/p>\n<p>Outro ponto que acho importante salientar: consolida-se um perigoso desequil\u00edbrio entre os tr\u00eas poderes legalmente constitu\u00eddos.<\/p>\n<p>Desde o desenrolar do epis\u00f3dio do mensal\u00e3o, o Judici\u00e1rio passa a ser \u2018santificado\u2019, como o Salvador da P\u00e1tria, enquanto o Executivo e o Legislativo s\u00e3o constantemente criticados e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, passam a viver dias de descr\u00e9dito absoluto.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que fizeram (e fazem) por merecer.<\/p>\n<p>De qualquer forma, vale preocupar-se com a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma velha m\u00e1xima do juridiqu\u00eas afirma, com alguma raz\u00e3o: toda vez que o ide\u00e1rio pol\u00edtico ou partid\u00e1rio invade o tribunal a Justi\u00e7a sai pela outra porta.<\/p>\n<p>XXX.<\/p>\n<p>Quem viveu h\u00e1 de se lembrar: entre 2013 e 2014, o Pa\u00eds foi sacudido por manifesta\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas por motivos os mais diversos.<\/p>\n<p>Era recorrente o refr\u00e3o que turba cantava \u00e0 exaust\u00e3o:<\/p>\n<p><em>N\u00e3o vai ter Copa!<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o vai ter Copa!<\/em><\/p>\n<p>Teve.<\/p>\n<p>Com relativa tranquilidade, diga-se.<\/p>\n<p>A gringaiada que nos visitou at\u00e9 que ficou bem impressionada com os encantos do pa_tro_pi.<\/p>\n<p>(Saltemos esse momento que, no \u00e2mbito esportivo, revelou-se uma cat\u00e1strofe sem precedentes. A sele\u00e7\u00e3o brasileira em campo foi um fiasco.)<\/p>\n<p>XXXI.<\/p>\n<p>Assim que a Copa terminou, a campanha eleitoral come\u00e7ou para valer, com os bar\u00f5es dos votos bradando suas armas para todos os moinhos. O embate foi dos mais contundentes \u2013 e raivosos \u2013 da hist\u00f3ria recente do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Como de h\u00e1bito dezenas de contendores se alinharam na linha de partida. Sobraram bordoadas para todos os lados. Mesmo assim, Dilma (contrariando todas as expectativas), A\u00e9cio e Eduardo Campos despontaram como favoritos.<\/p>\n<p>Uma das contendoras, Marina Silva, n\u00e3o conseguiu homologar sua candidatura por um vacilo junto \u00e0 Justi\u00e7a Eleitoral. Seu partido, a Rede, n\u00e3o conseguiu registro em tempo h\u00e1bil.<\/p>\n<p>Marina, que j\u00e1 havia concorrido em 2010, bandeou-se para o PSB, causando muito barulho na corrida eleitoral e uma significativa mudan\u00e7a nas pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de votos.<\/p>\n<p>O que mais chamava a aten\u00e7\u00e3o, no entanto, era o clima absolutamente b\u00e9lico que pairava entre os candidatos.<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso dizer, mas digo, que a m\u00eddia aproveitou essa atmosfera de FlaFlu e, n\u00e3o seria exagero dizer, que ateou um tantinho mais de combust\u00edvel nessa fogueira.<\/p>\n<p>Inevit\u00e1vel que essas dissens\u00f5es repercutissem junto ao eleitorado e, tamb\u00e9m ali, cavasse um profundo buraco entre os diferentes.<\/p>\n<p>XXXII.<\/p>\n<p>Nada, nada mesmo, se comparou ao espanto que todos viveram \u2013 eleitores e candidatos \u2013 quando aconteceu a tr\u00e1gica morte de Eduardo Campos em um acidente a\u00e9reo.<\/p>\n<p>Foi em agosto quando Campos se consolidava na vice-lideran\u00e7a das pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de votos e j\u00e1 se prognosticava um ascens\u00e3o de seu nome junto a outros tantos segmentos da sociedade brasileiras \u2013 especialmente, no Sul e Sudeste.<\/p>\n<p>Importante salientar que estava claro para muitos a constru\u00e7\u00e3o de uma candidatura que fosse anti-Dilma. Que satisfizesse todo o espectro de descontentamentos que havia em rela\u00e7\u00e3o a Dilma, a Lula e ao que se denominou de lulopetismo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Eduardo Campos era o nome mais promissor.<\/p>\n<p>XXXIII.<\/p>\n<p>O trauma perdurou por alguns dias, mas n\u00e3o amainou o tom das discuss\u00f5es em torno dos nomes dos candidatos.<\/p>\n<p>O inevit\u00e1vel se deu: Marina assumiu o lugar de Campos na cabe\u00e7a da chapa do PSB e tamb\u00e9m disparou nas pesquisas.<\/p>\n<p>Os ent\u00e3o favoritos Dilma e A\u00e9cio trataram de, cada um a seu modo, desestabilizar a nova candidatura com cr\u00edticas pesadas.<\/p>\n<p>A temperatura subiu no hor\u00e1rio eleitoral e na cobertura da m\u00eddia sobre a corrida presidencial.<\/p>\n<p>XXXIV.<\/p>\n<p>Esse rodamoinho de fatos e novidades, de troca de farpas e acusa\u00e7\u00f5es, caracterizou as \u00faltimas semanas da campanha.<\/p>\n<p>As for\u00e7as se equilibravam \u2013 e foi-se para a vota\u00e7\u00e3o do primeiro turno com um cen\u00e1rio n\u00e3o muito claro de quem sobreviveria \u00e0 vontade das urnas.<\/p>\n<p>Votos apurados. Deu o \u00f3bvio.<\/p>\n<p>Dilma e A\u00e9cio disputariam palmo a palmo o segundo turno.<\/p>\n<p>XXXV.<\/p>\n<p>Antes que me perguntem, vou logo respondendo: n\u00e3o perdi de vista a pergunta que motivou esse longo conversar \u2013 oito dias, com o post de hoje \u2013 sobre os desafios do Brasil de hoje e de nossa fr\u00e1gil democracia.<\/p>\n<p>Vencemos?<\/p>\n<p>Foi a pergunta que fiz a mim mesmo ap\u00f3s ouvir a amiga lembrar os tempos de milit\u00e2ncia pelas diretas e pela redemocratiza\u00e7\u00e3o em tempos idos e vividos. Tempos em que o sonho era uma promessa de dias melhores para todos os brasileiros.<\/p>\n<p>\u201cLembra? O Congresso tamb\u00e9m vetou as Diretas. Fomos para as ruas e pra\u00e7as e, meses depois, um civil ocupou a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. N\u00f3s vencemos.\u201d<\/p>\n<p>E no tal exerc\u00edcio de lembrar acabei por me perder na sinuosidade do caminho percorrido&#8230;<\/p>\n<p>XXXVI.<\/p>\n<p>&#8230; at\u00e9 a vit\u00f3ria de Dilma na elei\u00e7\u00e3o de 2014.<\/p>\n<p>Essa vit\u00f3ria n\u00e3o estava nos planos das for\u00e7as pol\u00edticas e econ\u00f4micas que sempre foram hegem\u00f4nicas no Brasil desde que as caravelas da Terra M\u00e3e aqui chegaram. Uma vit\u00f3ria n\u00e3o digerida desde as primeiras horas que as urnas foram abertas.<\/p>\n<p>A vantagem que o Sul e o Sudeste davam para A\u00e9cio Neves era enorme. No entanto, com o avan\u00e7ar da contagem de votos \u2013 com uma hora de atraso, por quest\u00f5es de fuso hor\u00e1rio \u2013 do Norte e Nordeste promoveu a virada inesperada, o que fez aflorar ainda mais o sentimento de Pa\u00eds dividido que hoje se vive. O tal clim\u00e3o entre \u201cn\u00f3s e eles\u201d que citei tantas vezes no decorrer dessas reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>XXXVII.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, como pude demonstrar \u2013 espero \u2013, n\u00e3o minimizo a tibieza da Senhora Presidente ao tentar dar um norte para o seu segundo mandato. Inclui-se a\u00ed as cr\u00edticas mais contundentes que se faz na \u00e1rea econ\u00f4mica (prometeu ir para um lado, foi para o outro), a falta de di\u00e1logo, o isolamento nas decis\u00f5es, o afastamento das bandeiras pelas quais foi eleita.<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o tamb\u00e9m que n\u00e3o foram \u2013 e n\u00e3o est\u00e3o \u2013 sendo f\u00e1ceis os enfrentamentos que tais for\u00e7as a submetem dia sim e outro tamb\u00e9m. Inclusive, e principalmente, a chamada grande imprensa. Que mais conspira do que informa.<\/p>\n<p>De todas as formas, tenho c\u00e1 minhas desconfian\u00e7as (que a cada dia ganham contornos mais reais). A principal delas: este passo que, neste momento, damos para um estado de inconstitucionalidade (embora tenha uma camuflagem de legalidade) configura-se um retrocesso aos olhos do mundo. E perante nossas mais almejadas convic\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>XXXVIII.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quanto tempo vamos levar para por a casa em ordem. Pode ser \u2013 repare, eu disse \u201cpode ser\u201d \u2013 que toda essa efervesc\u00eancia de den\u00fancias e esc\u00e2ndalos sirva para forjar um novo Pa\u00eds, mais justo, mais solid\u00e1rio, e contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Temo, no entanto, que essas feridas causadas pelo divisionismo exacerbado n\u00e3o cicatrizem assim t\u00e3o rapidamente. E a\u00ed nos encaminhar\u00edamos para o retrocesso e o descontrole social.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho a resposta definitiva para a pergunta-chave e motivadora.<\/p>\n<p>Vencemos?<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o, mas continuaremos na lida.<\/p>\n<p>E acreditando&#8230;<\/p>\n<p>At\u00e9 porque essa garotada secundarista, que foi para a luta, \u00e9 mesmo de renovar a esperan\u00e7a em um Brasil de todos os brasileiros.<\/p>\n<p>XXXIX.<\/p>\n<p>Termino.<\/p>\n<p>Ufa!<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se escrevi tudo o que gostaria.<\/p>\n<p>Mas, certamente, n\u00e3o escrevi uma palavra que n\u00e3o quis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao ver o meu desencanto, o amigo me diz:<\/p>\n<p>\u201cA cada dia, a sua agonia, Rodolfo. 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