{"id":13398,"date":"2011-06-18T00:00:00","date_gmt":"2011-06-18T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:54:10","modified_gmt":"2017-09-14T03:54:10","slug":"a-grita-do-ipiranga","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-grita-do-ipiranga\/","title":{"rendered":"A grita do Ipiranga *"},"content":{"rendered":"<p>Morei um bom tempo no Ipiranga.<\/p>\n<p>Trabalhei no jornal local outro tanto.<\/p>\n<p>Ano passado, fui orientador de um livrorreportagem sobre o hist\u00f3rico bairro.<\/p>\n<p>Chamou-se \u201cIpiranga \u2013 Hist\u00f3rias de um bairro que virou metr\u00f3pole\u201d.<\/p>\n<p>Quer dizer, essa por aquelas, permito-me dizer que conhe\u00e7o o suficiente \u201cas gentes do Ipiranga\u201d, como dizia um amigo que como eu frequentava o Clube Atl\u00e9tico Ypiranga, para entender perfeitamente o que motivou o Conselho de Seguran\u00e7a local, formado por moradores, a tomar a decis\u00e3o que tomou: entrar com uma representa\u00e7\u00e3o no Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual para impedir a realiza\u00e7\u00e3o das festividades de 1o de maio da Central \u00danica dos Trabalhadores no Parque da Independ\u00eancia.<\/p>\n<p>A estimativa inicial \u00e9 de que, no m\u00ednimo, um milh\u00e3o de pessoas estar\u00e3o presentes, esparramadas pelo ch\u00e3o sagrado onde (supostamente) se deu o Grito da Independ\u00eancia.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Ch\u00e3o sagrado.<\/p>\n<p>N\u00e3o se espantem com a express\u00e3o, am\u00e1veis quatro ou cinco leitores.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente assim que os ipiranguistas definem aquelas paragens ao redor do hoje polu\u00eddo Riacho do Ipiranga, onde se aninham o Museu Paulista da Universidade de S\u00e3o Paulo (tamb\u00e9m chamado de Museu do Ipiranga), o Monumento do Ipiranga, a Cripta onde repousam os restos mortais do Imperador, a Casa do Grito, os Jardins Franceses, o Museu de Zoologia (tamb\u00e9m da USP) e um dos raros nacos da Mata Atl\u00e2ntica que possui a metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m a Capelinha de Bom Jesus do Horto, tida e havida como a primeira igreja da regi\u00e3o. Uma preciosidade que sobreviveu \u00e0 demoli\u00e7\u00e3o do Convento das Irm\u00e3zinhas, que aconteceu ainda nos anos 80, e que abrigou Santa Paulina, quando chegou a s\u00e3o Paulo no in\u00edcio do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>Trata-se, como se pode ver, de um consider\u00e1vel patrim\u00f4nio hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Alguns desses bens, inclusive, s\u00e3o tombados pelas inst\u00e2ncias competentes \u2013 e devem ser preservados como bens p\u00fablicos.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Claro que h\u00e1 e\/ou pode haver um componente pol\u00edtico\/ideol\u00f3gico na representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, c\u00e1 para n\u00f3s, o lugar n\u00e3o \u00e9 adequado para tamanha manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 a m\u00ednima infraestrutura para atender \u00e0s necessidades b\u00e1sicas da multid\u00e3o.<\/p>\n<p>Nem vou tocar na quest\u00e3o dos banheiros.<\/p>\n<p>Fico apenas com o tr\u00e2nsito e as condi\u00e7\u00f5es para estacionamento de ve\u00edculos.<\/p>\n<p>S\u00f3 quem mora na regi\u00e3o pode afian\u00e7ar o caos que se instala por horas e horas.<\/p>\n<p>Arremato dizendo que trata-se mesmo de uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>Bem pr\u00f3ximos existem dois hospitais \u2013 o Ipiranga e o S\u00e3o Camilo \u2013 que tem o atendimento comprometido pelo tumulto que se espalha por toda regi\u00e3o.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Sei que d\u00e1 um charme danado promover-se qualquer evento ali.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do que, \u00e9 garantida a presen\u00e7a de p\u00fablico (at\u00e9 em fins de semana de chuva, tem sempre duas ou tr\u00eas mil pessoas perambulando pelas alamedas e jardins). No entanto, os riscos e inconvenientes definitivamente n\u00e3o compensam.<\/p>\n<p>Em 1981 ou 82, a Globo e outros parceiros promoveram ali, em um 7 de setembro, o que seria a representa\u00e7\u00e3o do Grito do Ipiranga. Correram boatos de que Tarc\u00edsio Meira, ao vivo e em cores, faria o papel de D. Pedro I e que Cid Moreira seria o apresentador.<\/p>\n<p>Um p\u00fablico aproximado de 500 mil pessoas acorreu ao local.<\/p>\n<p>Foi um furd\u00fancio.<br \/>\nV.<br \/>\nComo ontem lhes contava&#8230;<\/p>\n<p>Foi um furd\u00fancio.<\/p>\n<p>Alamedas, jardins e at\u00e9 o espa\u00e7o reservado para a encena\u00e7\u00e3o foi tomado pelo p\u00fablico em del\u00edrio.<\/p>\n<p>O sistema de som bem que tentou por ordem na coisa toda \u2013 mas, os apelos feitos pelo locutor foram todos em v\u00e3o.<\/p>\n<p>Mal conseguiram preservar o lugar da orquestra que fez a abertura do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>At\u00e9 o reservado para as autoridades civis e militares foi invadido.<\/p>\n<p>Quando o ent\u00e3o governador Paulo Maluf chegou, n\u00e3o havia lugar para ele.<\/p>\n<p>Uma senhora \u2013 imagino, respons\u00e1vel pelo cerimonial \u2013 mostrava-se desesperada:<\/p>\n<p>&#8212; Onde eu coloco o governador? Onde eu coloco o homem?<\/p>\n<p>VI.<br \/>\nEm meio \u00e0 confus\u00e3o e ao empurra-empurra, como voc\u00eas devem imaginar, h\u00e1 sempre um engra\u00e7adinho para fazer aquela sugest\u00e3o de praxe \u2013 e de baixo cal\u00e3o.<\/p>\n<p>Diria que n\u00e3o foi um somente que fez o tal coment\u00e1rio. Que, diga-se, a senhora preferiu relevar.<\/p>\n<p>Por fim, achou-se um lugar para o governador, protegido por uma muralha de seguran\u00e7as.<\/p>\n<p>Alguns cavalarianos do ex\u00e9rcito, vestidos com fardas de \u00e9poca, estavam prontos para encenar como se deu o Grito do Ipiranga, segundo as vers\u00f5es dos livros oficiais. \u00c0 frente deles, um tenente ostentando costeletas e barbas posti\u00e7as seria o infante D. Pedro a bradar a c\u00e9lebre frase: <\/p>\n<p>\u201cIndepend\u00eancia ou Morte!\u201d<br \/>\nVII.<br \/>\nH\u00e1 um novo tumulto na plat\u00e9ia em busca de um lugar para ver melhor a representa\u00e7\u00e3o do quadro de Pedro Am\u00e9rico \u2013 os cavalos se assustam, e um deles derruba o pseudofuturo Imperador do Brasil.<\/p>\n<p>Nada de grave. Mas, a organiza\u00e7\u00e3o resolveu suspender o espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Foi uma decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, quem estava l\u00e1 reconheceu que este era mesmo o melhor a ser feito.<\/p>\n<p>No dia seguinte, o Parque da Independ\u00eancia estava devastado. <\/p>\n<p>Demorou meses para se recompor e voltar a ser o ber\u00e7o solene da nossa Independ\u00eancia.<\/p>\n<p>* A prop\u00f3sito, citei no post de ontem o livrorreportagem &quot;Ipiranga &#8211; Hist\u00f3rias de um bairro que virou metr\u00f3pole&quot;. Seu autores s\u00e3o: Ana Paula Pavanello, Camila Zanforlin, Fernanda Guerra, Gabriela Vieira, Jacqueline Toledo e Victor Ribas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morei um bom tempo no Ipiranga.<\/p>\n<p>Trabalhei no jornal local outro tanto.<\/p>\n<p>Ano passado, fui orientador de um livrorreportagem sobre o hist\u00f3rico bairro.<\/p>\n<p>Chamou-se \u201cIpiranga \u2013 Hist\u00f3rias de um bairro que virou metr\u00f3pole\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-13398","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13398","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13398"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13398\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13941,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13398\/revisions\/13941"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13398"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13398"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13398"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}