{"id":13399,"date":"2016-06-21T00:00:00","date_gmt":"2016-06-21T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:47:19","modified_gmt":"2017-09-15T18:47:19","slug":"um-sobradinho-na-vila","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/um-sobradinho-na-vila\/","title":{"rendered":"Um sobradinho na Vila"},"content":{"rendered":"<p>Alice n\u00e3o mora mais aqui, mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Ela se mudou n\u00e3o sei quanto tempo faz, tr\u00eas ou quatro semanas. Um m\u00eas, talvez.<\/p>\n<p>Eu a achava uma mo\u00e7a ador\u00e1vel, mesmo que a conhecesse apenas de cumpriment\u00e1-la.<\/p>\n<p>Trabalhadora, simples. Voltava todos os dias do trabalho ao entardecer.<\/p>\n<p>Sou um velho aposentado, sem vontade de jogar domin\u00f3, xadrez, esses jogos de mesa, sabe? Ent\u00e3o me ponho aqui, na entrada da Vila, a olhar o movimento da rua, dos carros, o entra e sai dos moradores dos moradores.<\/p>\n<p>Gosto de papear com amigos e conhecidos, coisa de desocupado, entende?<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Era comum v\u00ea-la quase todos os dias. \u00c0s vezes, eu at\u00e9 me prontificava em carregar as compras do supermercado que trazia em pacotes volumosos.<\/p>\n<p>Nunca entendi como uma mo\u00e7a t\u00e3o bonita quanto ela podia viver t\u00e3o sozinha? Nem bicho em casa ela tinha.<\/p>\n<p>A vida tem mesmo seus mist\u00e9rios, n\u00e3o acha?<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Soube que se chamava Alice no dia em que se mudou para c\u00e1. Chamou a aten\u00e7\u00e3o, quando os homens que faziam a mudan\u00e7a desembarcaram aquele piano de madeira escura e o levaram para dentro do sobradinho min\u00fasculo como esses que a gente mora na Vila. <\/p>\n<p>Todos pensaram que o morador era um senhor austero, descabelado e cheio de manias, como se imagina serem os maestros e solit\u00e1rios. Mas, de repente, surgiu aquela jovem, de roupas discretas e cabelos presos em coque, que se apresentou e disse que gostava de exercitar-se ao piano toda noite. Se caso a m\u00fasica nos incomodasse, era para avis\u00e1-la porque n\u00e3o queria perturbar o sossego da vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Era muito delicada com todos. Educada mesmo.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m, aqui da Vila, me disse que ela era professora de m\u00fasica. Que tocava em uma orquestra e dava aulas em um conservat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Nunca chequei a informa\u00e7\u00e3o, mas deve ser verdade mesmo. O que sempre me causou estranheza foi a solid\u00e3o em que vivia. Ser\u00e1 que n\u00e3o tinha fam\u00edlia? Um namorado? Um admirador que fosse?<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Como entender o que se passa n\u2019alma de cada um de n\u00f3s? Somos donos e senhores dos nossos \u201cais\u201d.<\/p>\n<p>V. <\/p>\n<p>Gostava de v\u00ea-la chegar. De ouvir mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia a m\u00fasica suave do piano que tocava. Velho tem dessas manias, sabe? <\/p>\n<p>Um dia ensolarado, logo pela manh\u00e3, quando sa\u00ed ao port\u00e3o, vi que havia um caminh\u00e3o de mudan\u00e7a parado em frente da casa da mo\u00e7a. Procurei por ela, mas n\u00e3o a vi. <\/p>\n<p>Ao cabo de algumas horas, o sobradinho estava vago, como continua at\u00e9 hoje. <\/p>\n<p>Desconfio que os donos pensam em reform\u00e1-lo. <\/p>\n<p>Sabe-se l\u00e1 quem vai morar aqui?<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Assim como chegou, Alice se foi.<\/p>\n<p>Tomara que esteja feliz, ela sempre me pareceu uma mo\u00e7a triste. Como se n\u00e3o<br \/>\nousasse mais sonhar. \u00c9 ruim quando se deixa de sonhar, especialmente quando se \u00e9 jovem e tem a vida pela frente.<\/p>\n<p>Mas, o senhor queria o qu\u00ea com ela?<\/p>\n<p>&#8211; Eu? Eu nem sei quem \u00e9 essa tal de Alice. S\u00f3 queria saber do aluguel do sobrado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alice n\u00e3o mora mais aqui, mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Ela se mudou n\u00e3o sei quanto tempo faz, tr\u00eas ou quatro semanas. 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