{"id":13410,"date":"2016-07-02T00:00:00","date_gmt":"2016-07-02T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:42:40","modified_gmt":"2017-09-15T18:42:40","slug":"um-oi-para-a-saudade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/um-oi-para-a-saudade\/","title":{"rendered":"Um oi para a saudade"},"content":{"rendered":"<p>Perguntam-me se sou um memorialista.<\/p>\n<p>Acho um exagero \u2013 e refuto.<\/p>\n<p>Quem sou eu para tanto?<\/p>\n<p>Sou um contador de causos, um escrevinhador raso. <\/p>\n<p>N\u00e3o tenho essa import\u00e2ncia toda para, mundo afora, memoriar.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Dizem, ent\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Ah, voc\u00ea \u00e9 mais um saudosista&#8230;<\/p>\n<p>Usam um tom desafiador, e argumentam que meus sofr\u00edveis textos, aqui e ali, s\u00e3o evid\u00eancias de que esta n\u00e3o \u00e9 uma tese inteiramente ins\u00f3lita.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 bem assim que me vejo, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Gostaria de discordar \u2013 e dizer como Paulinho da Viola, o poeta do samba, disse naquele c\u00e9lebre document\u00e1rio:<\/p>\n<p>\u201cMeu tempo \u00e9 hoje\u201d.<\/p>\n<p>Mas, reconhe\u00e7o: imposs\u00edvel a quem viveu como eu vivi e \u2018confesso que vivi\u2019 (parafraseando outro poeta, desta vez o chileno Neruda), n\u00e3o ter lembran\u00e7as que gotejam pingos de  nostalgia que desaguam no estu\u00e1rio que se pode chamar de Saudade.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Ao cronista, consta, basta uma janela.<\/p>\n<p>Ou uma lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>E esta nos \u00e9 incontrol\u00e1vel. <\/p>\n<p>Pode ser o sol esquivo de uma manh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8230; a silhueta daqueles pr\u00e9dios no horizonte.<\/p>\n<p>&#8230; o instante no supermercado diante da prateleira de vinhos.<\/p>\n<p>Pode ser aquela can\u00e7\u00e3o do Caetano que fala da rua deserta.<\/p>\n<p>Ou aquela outra, da lua e da estrela.<\/p>\n<p>Pode ser algu\u00e9m que se parece tanto com algu\u00e9m que o cora\u00e7\u00e3o acelera e agradece o doce equ\u00edvoco. <\/p>\n<p>E a sugest\u00e3o.<\/p>\n<p>Pode ser qualquer a\u00e7\u00e3o banal, cotidiana.<\/p>\n<p>Atender ao telefone com um \u201coi\u201d no lugar do tradicional \u201cal\u00f4\u201d.<\/p>\n<p>(O pai dizia: \u201cpronto\u201d.)<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o rir de si mesmo ao recordar o dia em que andou pelo alto das montanhas sobre as nuvens?<\/p>\n<p>Santo privil\u00e9gio.<\/p>\n<p>Retalhos de vida que valem por uma exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Cada qual tem os seus.<\/p>\n<p>E, no tempo da delicadeza que ora vivo, confesso: esses me s\u00e3o imprescind\u00edveis.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, o grande Mario Quintana ponderou sobre As Coisas do Tempo:<\/p>\n<p>\u201cCom o tempo, n\u00e3o vamos ficando sozinho apenas pelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns dos outros\u201d.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Permitam-me, pois, amigos leitores, que os meus textos sejam como o som daquele tocador de banjo no grupo de jazz. <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o protagonista, n\u00e3o \u00e9 o indispens\u00e1vel; quando aparece, por\u00e9m, faz com que todos se permitam o encantamento da dan\u00e7a. Ou, ao menos, estalem os dedos a acompanhar o ritmo.<\/p>\n<p>VII. <\/p>\n<p>Comecei com Paulinho da Viola \u00e9 justo que termine com um de seus versos mais bonitos que resume o of\u00edcio do bom sambista que, em ess\u00eancia, \u00e9 um cronista com trilha sonora:<\/p>\n<p>\u201cHoje eu vim, minha nega<br \/>\nComo venho quando posso<br \/>\nNa boca, as mesmas palavras<br \/>\nNo peito, o mesmo remorso<br \/>\nNas m\u00e3os, a mesma viola<br \/>\nOnde gravei o seu nome.\u201d <\/p>\n<p>*FOTO: J\u00f4 Rabelo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perguntam-me se sou um memorialista.<\/p>\n<p>Acho um exagero \u2013 e refuto.<\/p>\n<p>Quem sou eu para tanto?<\/p>\n<p>Sou um contador de causos, um escrevinhador raso. <\/p>\n<p>N\u00e3o tenho essa import\u00e2ncia toda para,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-13410","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13410","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13410"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13410\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14641,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13410\/revisions\/14641"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13410"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13410"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13410"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}