{"id":13420,"date":"2016-07-22T00:00:00","date_gmt":"2016-07-22T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:42:38","modified_gmt":"2017-09-15T18:42:38","slug":"conversa-fiada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/conversa-fiada\/","title":{"rendered":"Conversa fiada"},"content":{"rendered":"<p>Convers\u00e1vamos sobre os dias que correm. As pequenas e grandes trag\u00e9dias, as incertezas, a inseguran\u00e7a que se abate em cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>N\u00e3o falamos sobre as Olimp\u00edadas, pois as tais n\u00e3o seduzem. Nem a mim, nem a ela.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a lembrou-se de um post que escrevi sobre Nice, a cidade francesa recentemente dilacerada pelo terror (\u201cRelatos de um viajante parvo 10\u201d, em 15 de fevereiro de 2013) e me perguntou se ainda cogitava ali morar um dia.<\/p>\n<p>N\u00e3o soube o que lhe responder.<\/p>\n<p>Esses meus devaneios s\u00e3o gratuitos \u2013 e, assim como chegam em um dia, se v\u00e3o em outro.<\/p>\n<p>Sou mesmo um viajante parvo, reitero.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Ando pessimista.<\/p>\n<p>E lhe falo do meu abatimento, de minha descren\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o aos tempos vindouros, os que est\u00e3o por vir.<\/p>\n<p>N\u00e3o vejo luz no fim do t\u00fanel. Apenas o trem em desabalada carreira em nossa dire\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Ela ri \u2013 mas, n\u00e3o desgruda do celular.<\/p>\n<p>Imagino, cabe ali, na engenhoca, o n\u00e3o t\u00e3o admir\u00e1vel mundo novo.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Houve um tempo em que n\u00e3o havia celulares, nem redes sociais. <\/p>\n<p>Mas, acreditem: era poss\u00edvel sonhar.<\/p>\n<p>Eu lhe disse a frase sem grande convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tentei historiar.<\/p>\n<p>Dar o contexto e motivos que me fazem, ainda que ingenuamente, assim pensar.<\/p>\n<p>Sou da gera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-guerra. A gera\u00e7\u00e3o sandu\u00edche, como dizia o mago Raulzito.   Crescemos, eu e os meus contempor\u00e2neos, ouvindo rock, Beatles, Rolling Stones, derrubando tabus e algumas conven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Acredit\u00e1vamos estar no caminho certo.<\/p>\n<p>O n\u00e3o \u00e0 guerra do Vietn\u00e3.<\/p>\n<p>Woodstock.<\/p>\n<p>Os hippies. <\/p>\n<p>O sexo livre.<\/p>\n<p>A filosofia paz e amor.<\/p>\n<p>No Brasil, vivemos a redemocratiza\u00e7\u00e3o, o fim da censura, a anistia, as Diretas, a Constitui\u00e7\u00e3o, a reconquista do direito \u00e0 democracia e \u00e0 cidadania.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Havia um sonho, repeti. Um sonho poss\u00edvel, ao nosso alcance.<\/p>\n<p>Para onde foi a utopia de uma sociedade fraterna, igualit\u00e1ria, socialmente mais justa? Uma sociedade de todos os viventes.<\/p>\n<p>Falei, e falei e falei&#8230;<\/p>\n<p>Quando dei por mim, e olhei minha jovem interlocutora, ela parecia ausente. Olhos fixos no visor do celular, dedos \u00e1geis no mini teclado, a encaminhar algum zap-zap sei l\u00e1 pra quem.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>N\u00e3o perdeu a pose diante do flagrante. Sacudiu os ombros, e sapecou, convicta do que dizia:<\/p>\n<p>&#8211; Pois, para mim, o mundo sempre foi assim. Nunca o vi de outra forma.<\/p>\n<p>Recordei a velha m\u00e1xima que se dizia na reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janelas para a rua Bom Pastor \u2013 \u201cTodo lugar \u00e9 o mesmo lugar\u201d \u2013 e dei a raz\u00e3o \u00e0 mo\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Convers\u00e1vamos sobre os dias que correm. 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