{"id":13506,"date":"2016-10-27T00:00:00","date_gmt":"2016-10-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:39:55","modified_gmt":"2017-09-15T18:39:55","slug":"belchior-70-anos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/belchior-70-anos\/","title":{"rendered":"Belchior, 70 anos"},"content":{"rendered":"<p>De lugar incerto e n\u00e3o sabido, o amigo Escova me encaminhou um e-mail, com um alerta: \u201camanh\u00e3, 26 de outubro, o grande Belchior completa 70 anos. Merece registro no Blog. N\u00e3o esque\u00e7a!\u201d<\/p>\n<p>Ops.<\/p>\n<p>Cabecinha oca que sou, esqueci.<\/p>\n<p>Mas, para evitar qualquer constrangimento diante do amigo e do compositor que admiro, trato hoje de registrar o que ontem deveria ter feito.<\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, um adendo:<\/p>\n<p>H\u00e1 uma similaridade entre o amigo Escova e o quase-amigo Belchior. Por raz\u00f5es distintas, ambos ca\u00edram fora do pa\u00eds e n\u00e3o est\u00e3o, ao que consta, nem a\u00ed para a saudade dos f\u00e3s (no caso do cantor e compositor cearense) e dos amigos (caso espec\u00edfico do parceirinho querido de tantas jornadas na velha reda\u00e7\u00e3o, o Escova).<\/p>\n<p>Enfim, sigamos em frente&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>A obra de Ant\u00f4nio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes \u00e9 seguramente uma das que melhor retratou os jovens do Brasil naqueles conturbados anos 70 e parte dos 80. <\/p>\n<p>Falo especificamente das ang\u00fastias, sonhos e amores do pessoal da minha gera\u00e7\u00e3o. N\u00f3s o t\u00ednhamos como o Bob Dylan nativo. Faz\u00edamos de suas can\u00e7\u00f5es dolentes, com versos discursivos e sens\u00edveis, a trilha sonora de luta e esperan\u00e7a em meio a um per\u00edodo obscuro dilacerado por uma ditadura tosca que n\u00e3o dava sinais de, t\u00e3o cedo, se encerrar.<\/p>\n<p>Sua estreia na Polygran, com o disco \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d, surpreendeu positivamente a cr\u00edticos e ao grande p\u00fablico. A voz rouca, anasalada, enfileirou um punhado de sucessos \u2013 \u201cA Palo Seco\u201d, \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cVelha Roupa Colorida\u201d, \u201cApenas Um Rapaz Latino Americano\u201d, \u201cParalelas\u201d, \u201cGalos, Noites e Quintais\u201d e o hino \u201cComo Nossos pais\u201d, entre outros \u2013 que nos fez acreditar em dias melhores e at\u00e9 mesmo na ainda remota redemocratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Entrevistei Belchior diversas vezes nesse per\u00edodo. <\/p>\n<p>Certa noite, ele me encontrou com o pessoal jornal no restaurante Gigheto (comemor\u00e1vamos n\u00e3o sei bem o qu\u00ea) e foi \u00e0 nossa mesa agradecer a reportagem que eu havia feito semanas atr\u00e1s sobre o novo disco e show. <\/p>\n<p>Fiquei sem gra\u00e7a, mas com a moral l\u00e1 em cima com a rapaziada.<\/p>\n<p>&#8211; O cara \u00e9 amigo do Belchior, diziam.<\/p>\n<p>E eu todo-todo, por uns tempos andei com aquele olhar morno e indiferente de quem n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed para os reles mortais que n\u00e3o eram da \u2018tchurma\u2019 do Belchi.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Anos depois, em 2003\/2004, fui entrevist\u00e1-lo com um grupo de estudantes para um trabalho de conclus\u00e3o de curso que falava exatamente da MPB como pe\u00e7a de resist\u00eancia nos idos da d\u00e9cada de 70 (o livrorreportagem \u201cViver \u00c9 Melhor Que Sonhar\u201d). <\/p>\n<p>Achei que impressionaria a meninada, assim que Belchior me reconhecesse. Ele nos recebeu em sua casa\/ateli\u00ea, repleta de quadros de diversos pintores, nas imedia\u00e7\u00f5es do aeroporto de Congonhas. Disse que preparava uma exposi\u00e7\u00e3o de artes pl\u00e1sticas na Alemanha e, mesmo assim, arranjou um tempo para nossa conversa.<\/p>\n<p>Imaginei que os estudantes creditariam ao prest\u00edgio do professor tamanha defer\u00eancia.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Ledo e ivo engano.<\/p>\n<p>O homem falou por hora e tanto e sequer me reconheceu.<br \/>\n(O tempo \u00e9 implac\u00e1vel, meus caros. Cabelos ralos, acinzentados, barba, alguns muitos quilos a mais.)<\/p>\n<p>Como me reconhecer?<\/p>\n<p>Mesmo assim, \u00e0 sa\u00edda, Belchior me olhou firmemente e, enquanto eu pensava \u201c\u00e9 agora\u201d, ele me disse, com gentileza:  <\/p>\n<p>&#8211; Suas fei\u00e7\u00f5es n\u00e3o me s\u00e3o estranhas.<\/p>\n<p>Antes da minha resposta, ele fez pose de sabido e brincou:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 parente do Walter Franco (cantor\/compositor dos anos 70, autor de \u201cCabe\u00e7a\u201d, \u201cSerra do Luar\u201d, \u201cVela Aberta\u201d entre outras can\u00e7\u00f5es consideradas experimentais)? Lembra muito, j\u00e1 lhe falaram? <\/p>\n<p>Fiz que n\u00e3o com a cabe\u00e7a, e preferi n\u00e3o comentar com meus orientandos que um dia, l\u00e1 no passado, eu fui um quase-amigo do grande Belchior.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De lugar incerto e n\u00e3o sabido, o amigo Escova me encaminhou um e-mail, com um alerta: \u201camanh\u00e3, 26 de outubro, o grande Belchior completa 70 anos. Merece registro no Blog. 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