{"id":13513,"date":"2016-11-03T00:00:00","date_gmt":"2016-11-03T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:39:54","modified_gmt":"2017-09-15T18:39:54","slug":"pesadelos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/pesadelos\/","title":{"rendered":"Pesadelos"},"content":{"rendered":"<p>Cid Moreira, apresentador do Jornal Nacional por 25 anos, ainda hoje tem pesadelos com a fun\u00e7\u00e3o que exerceu entre 1969 e 1996. H\u00e1 noites em que sonha que o teleprompter empaca e as letras da noticia a ser lida se apagam \u00e0 sua frente \u2013 e ele fica sem saber o que fazer diante das c\u00e2meras. Um vexame que, a bem da verdade, nunca aconteceu diante dos milh\u00f5es de telespectadores do mais visto telejornal da televis\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Em tom de blague, Cid Moreira fez esse coment\u00e1rio recentemente ao ser entrevistado por Amaury J\u00fanior. O apresentador est\u00e1 com 89 anos, 72 dos quais dedicados \u00e0 profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Achei o relato divertido e diria at\u00e9 que, entre nossos pares, jornalistas da velha-guarda, o fato n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o raro assim.<\/p>\n<p>Basta encontrar um dos tais para ouvir del\u00edrios do mesmo tipo. Meu amigo Fernand\u00e3o, j\u00e1 me contou, \u00e9 especialista em sonhar que, entre a finaliza\u00e7\u00e3o da p\u00e1gina e a rodagem na impressora, as v\u00edrgulas, por livre e espont\u00e2nea vontade, mudam de lugar a bel prazer. O que d\u00e1 sentido diverso a tudo aquilo que ele acabara de escrever.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um sufoco, cara!<\/p>\n<p>Posso imaginar, respondi.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Para o Escova, o pesadelo recorrente \u00e9 o sumi\u00e7o do bloco de anota\u00e7\u00f5es ap\u00f3s entrevistar o mais importante dos mortais.<\/p>\n<p>Explica-se o temor do velho e not\u00e1vel rep\u00f3rter. <\/p>\n<p>N\u00f3s, os da antiga, t\u00ednhamos verdadeira ojeriza em levar para as entrevistas um daqueles jur\u00e1ssicos gravadores de rolo, do tamanho de uma caixa de sapato. Era uma tranqueira absolutamente desconfort\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ademais, confi\u00e1vamos no caderninho e em nossa mem\u00f3ria. Ali\u00e1s, esta poderia at\u00e9 falhar. Mas, nas folhas amarfanhadas do bloco, encontr\u00e1vamos tudo o que precis\u00e1vamos para uma boa reportagem.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisam me perguntar, amigos leitores, que vou logo respondendo. Tamb\u00e9m pade\u00e7o dessas involunt\u00e1rias afli\u00e7\u00f5es.  No meu caso, o terror me atinge quando estou no meio do fechamento da edi\u00e7\u00e3o na velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor.<\/p>\n<p>Na alucina\u00e7\u00e3o, algu\u00e9m me notifica que o jornal do dia seguinte n\u00e3o vai sair. As p\u00e1ginas sumiram e n\u00e3o chegaram \u00e0 oficina de impress\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 um perereco. Um salve-se quem puder. Subo, des\u00e7o. Corro daqui pra ali, de l\u00e1 pra c\u00e1. Pergunto \u2013 e ningu\u00e9m responde. Vou ao past-up, \u00e0 fotomec\u00e2nica, invado a oficina \u2013 e&#8230; desperto dando gra\u00e7as ao bom Deus que n\u00e3o corro mais esse perigo.<\/p>\n<p>Ufa!<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Junto com o al\u00edvio, \u00e9 inevit\u00e1vel: minutos depois, um vazio vai se \u2018aprochegando\u2019 e se instala, em mim, uma imensa saudade do tempo em que se era feliz e n\u00e3o sabia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cid Moreira, apresentador do Jornal Nacional por 25 anos, ainda hoje tem pesadelos com a fun\u00e7\u00e3o que exerceu entre 1969 e 1996. 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