{"id":13517,"date":"2016-11-07T00:00:00","date_gmt":"2016-11-07T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:39:54","modified_gmt":"2017-09-15T18:39:54","slug":"o-uniforme-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-uniforme-2\/","title":{"rendered":"O uniforme (2)"},"content":{"rendered":"<p>V.<\/p>\n<p>Um por\u00e9m, e sempre existe um por\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o havia grana. Nem faltando, nem sobrando.<\/p>\n<p>Bolou-se, ent\u00e3o, a seguinte estrat\u00e9gia: percorrer\u00edamos a sede dos clubes da regi\u00e3o (que jogavam alternadamente nos finais de semana no est\u00e1dio distrital do Parque da Aclima\u00e7\u00e3o) para pedir\/implorar a doa\u00e7\u00e3o de algum fardamento roto, esgar\u00e7ado, velho que j\u00e1 n\u00e3o usassem.<\/p>\n<p>Quem sabe n\u00e3o tirar\u00edamos a sorte grande?<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Feito o p\u00e9riplo, a arrecada\u00e7\u00e3o, enfim, n\u00e3o foi das mais convincentes. <\/p>\n<p>Nenhum dos poderosos esquadr\u00f5es da bola tinha um jogo de camisas para nos ofertar.<\/p>\n<p>(Era de se esperar&#8230;)<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>No entanto, a rapaziada foi generosa conosco, na medida do poss\u00edvel. Cada um, a seu modo, doou uma ou duas camisas de uniformes antigos, amplamente avariada pelo tempo e o uso.<\/p>\n<p>Ao fim do dia, quando o pessoal se reuniu e conferiu a coleta, foi inevit\u00e1vel um clima de decep\u00e7\u00e3o. N\u00e3o poder\u00edamos jogar cada qual com um manto diferente.<\/p>\n<p>O que fazer?<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Com a palavra o Claudinho Zeola que teve um lampejo de criatividade. Inspirado no pai que era funcion\u00e1rio da ind\u00fastria de Corantes Guarani, Zeola sugeriu que ting\u00edssemos as camisas \u2013 todas \u2013 de uma s\u00f3 cor e, assim, todos os problemas estariam resolvidos.<\/p>\n<p>Aceita a sugest\u00e3o, tratamos de nos reunir, na manh\u00e3 seguinte, em um terreno baldio da Vila (tamb\u00e9m chamada de Maloc\u00e3o), onde ningu\u00e9m nos visse, para o intr\u00e9pido trabalho. <\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Providenciamos uma fogueira e um enorme lat\u00e3o. Enchemos o recipiente de \u00e1gua e, seguindo as instru\u00e7\u00f5es do tubinho de corante, fomos despejando a po\u00e7\u00e3o m\u00e1gica \u00e0 medida que a \u00e1gua fervia. <\/p>\n<p>Passo seguinte: mergulhar as camisas uma a uma no pretenso caldeir\u00e3o enquanto nos revez\u00e1vamos em mexer a \u00e1gua improvisando dois cabos de vassoura.<\/p>\n<p>Foram horas ali, na lida.<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>Horas ali, na lida \u2013 para nada.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se carregamos demais na tinta. Ou se deixamos a \u00e1gua ferver al\u00e9m da conta. N\u00e3o sei se mexemos demais ou de menos a mistureba&#8230; Sei que n\u00e3o resistiram \u00e0 nossa alquimia.<\/p>\n<p>Quando fomos estender as ditas-cujas num imenso varal que providenciamos \u00e0s pressas, as pe\u00e7as se desfaziam em peda\u00e7os em nossas m\u00e3os, como se fossem bolhas de sab\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao menor toque, um rasgo.<\/p>\n<p>XI.<\/p>\n<p>Sem alternativa, l\u00e1 fomos n\u00f3s para o campinho devidamente descamisados, Mas, com o firme prop\u00f3sito de sermos campe\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o fomos \u2013 e o torneio n\u00e3o terminou. No meio da primeira partida, come\u00e7ou um temporal daqueles e alagou tudo \u2013 inclusive o campinho. Corremos para nos abrigar no bar da esquina da rua Ub\u00e1 com a Muniz. <\/p>\n<p>Dali, ainda deu pra ver o lat\u00e3o em que tingimos as camisas boiando na enxurrada, levando com ele o que restou dos nossos trapinhos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V.<\/p>\n<p>Um por\u00e9m, e sempre existe um por\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o havia grana. 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