{"id":13613,"date":"2017-03-27T00:00:00","date_gmt":"2017-03-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:37:13","modified_gmt":"2017-09-15T18:37:13","slug":"o-reclamao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-reclamao\/","title":{"rendered":"O reclam\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Eu n\u00e3o queria. Mas ouvi toda a conversa e, juro, n\u00e3o foi indiscri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o queria fazer parte dela. <\/p>\n<p>Am\u00e9m, Jesus, me livre desses babados.<\/p>\n<p>Curiosidade? Ah, sim. Quem vive de alinhavar letrinhas fica sempre atento a uma boa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Essas que nos chegam por acaso, muitas vezes, s\u00e3o as melhores.<\/p>\n<p>Meio da manh\u00e3 de uma segunda que se promete arrastada, a Pra\u00e7a de Alimenta\u00e7\u00e3o do shopping tem meia d\u00fazia de cadeiras ocupadas. No mais, tudo vazio. Resolvo tomar um caf\u00e9 enquanto aguardo abrir a Ag\u00eancia de C\u00e2mbio. Pego minha bandeja \u2013 caf\u00e9, \u00e1gua com g\u00e1s e um biscoito) e sento-me numa mesa vazia. Logo em seguida dois senhores (donos de lojas, talvez) sentam-se na mesa ao lado, munidos de seus alimentos, e iniciam a conversa.<\/p>\n<p>Em pauta, o Brasil de hoje.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>N\u00e3o era propriamente um di\u00e1logo a conversa. <\/p>\n<p>Um mon\u00f3logo que acabei por ouvir.<\/p>\n<p>Um dos senhores reclamava de tudo e de todos.<\/p>\n<p>Da Dilma e do Temer. Dos neg\u00f3cios que v\u00e3o de mal a pior. \u201cNingu\u00e9m compra nada. A turma vem andar, bater perna por aqui \u2013 e s\u00f3.\u201d Dos impostos. Das reformas que se anunciam desastrosas. Do Gilmar Mendes, da nomea\u00e7\u00e3o para juiz do STF \u201cdaquele ex-ministro da Justi\u00e7a\u201d. Do esc\u00e2ndalo da carne. Da Pol\u00edcia Federal, do Jornal Nacional. Como disse, de tudo e de todos.<\/p>\n<p>Lembrou at\u00e9 aquela velha m\u00e1xima dos anos 80\/90:<\/p>\n<p>\u201cA \u00fanica sa\u00edda para n\u00f3s, brasileiros honestos, \u00e9 o aeroporto de Guarulhos. Ala internacional&#8230;\u201d<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>O outro senhor acompanhava a lam\u00faria em sil\u00eancio. Ora balan\u00e7ava a cabe\u00e7a como a concordar, ora deixava o olhar perdido nas alturas como a demonstrar indiferen\u00e7a e t\u00e9dio. <\/p>\n<p>Sei que devemos estar conscientes dos graves problemas que o Pa\u00eds atravessa, mas, convenhamos, afiar um discurso desses logo na manh\u00e3 de uma segunda-feira, n\u00e3o \u00e9 propriamente melhor estrat\u00e9gia para tocar a semana que se inicia. <\/p>\n<p>Viver em fun\u00e7\u00e3o desses problemas todos \u2013 e n\u00e3o os enfrentar \u2013 beira a paranoia.<\/p>\n<p>Me pus solid\u00e1rio \u00e0 sina do incauto ouvinte.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Estava a ruminar esses pensamentos \u00f3bvios e me preparei para ir embora. <\/p>\n<p>O senhor que ouvia acompanhava meus movimentos. <\/p>\n<p>Assim que levantei da mesa e dei alguns picos passos, ou\u00e7o a voz desesperada a chamar:<\/p>\n<p>\u201cAmigo, amigo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Seria comigo? <\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>O amigo do falador, o ouvinte, achara um bom pretexto para escapar \u00e0 conversa. <\/p>\n<p>Eu lhe dei um bom \u00e1libi, sem querer e saber:<\/p>\n<p>\u201cNossa, quanto tempo que eu n\u00e3o lhe vejo. Precisava mesmo lhe falar. Vamos indo, eu lhe acompanho&#8230;\u201d<\/p>\n<p>E deixou o reclam\u00e3o falando sozinho.<\/p>\n<p>Entendi a letra que me deu. Fui c\u00famplice em sua fuga.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu n\u00e3o queria. 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