{"id":13617,"date":"2017-03-31T00:00:00","date_gmt":"2017-03-31T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:37:13","modified_gmt":"2017-09-15T18:37:13","slug":"marcele-a-manauara","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/marcele-a-manauara\/","title":{"rendered":"Marcele, a manauara&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>\u201cDesemprego \u00e9 de 13,2% e atinge 13,5 milh\u00f5es<br \/>\nde trabalhadores, diz IBGE\u201d  &#8211; (Fonte: Uol)<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>Jairo, o Jair\u00e3o do RH, s\u00f3 conhecia a Marcele por ouvir falar.<\/p>\n<p>Diziam que era uma morena\u00e7a. Um tipo assim manauara, boca rasgada, cabelos lisos, toda roli\u00e7a. De encher os olhos.<\/p>\n<p>Ela trabalhava na \u00e1rea de TI e, vez ou outra, passava por ali para verificar os computadores, a rede administrativa, essas engenhocas que comandam os novos tempos.<\/p>\n<p>Jair\u00e3o dava de ombros para a m\u00e1 sorte de n\u00e3o estar no RH nos dias das tais inspe\u00e7\u00f5es. Sequer se importava com o falat\u00f3rio dos colegas de reparti\u00e7\u00e3o. Era muito na dele.<\/p>\n<p>II. <\/p>\n<p>Foi assim at\u00e9 o dia em trombou com a mo\u00e7a no hall de entrada da empresa.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 pode ser ela\u201d, murmurou para se dar conta de que n\u00e3o estava sonhando.<\/p>\n<p>Marcele sorriu, e desculpou-se pelo leve esbarr\u00e3o. Ele deu passagem \u2013 e seguiram, alguns passos, bem pr\u00f3ximos. Logo ela seguiu para o elevador da esquerda e Jair\u00e3o, algo desconsolado, continuou no mesmo andar, onde estavam seu destino e sua mesa de trabalho.<\/p>\n<p>N\u00e3o soube bem explicar o motivo. Mas, sentiu-se mexido, diferent\u00e3o. Algo acelerado.<\/p>\n<p>Lembrou o Poeta:<\/p>\n<p>\u201cA vida \u00e9 a arte do encontro\u201d.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, ao estacionar o carro no p\u00e1tio da firma, agitou-se com a ideia de reencontr\u00e1-la. <\/p>\n<p>Quem sabe um \u201cbom dia\u201d os aproximaria de vez? Apertou o passo \u2013 e &#8230; <\/p>\n<p>Nada da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Ficou arrasado. Ainda arriscou olhar para tr\u00e1s, imaginou um \u00e1libi qualquer para seguir com ela no elevador. Tudo em v\u00e3o.<\/p>\n<p>Seguiu decepcionado para a lida. Triste lida em tempos de crise. A empresa n\u00e3o ia l\u00e1 essas coisas \u2013 e sua rotina nas \u00faltimas semanas era despachar avisos pr\u00e9vios e demiss\u00f5es, com ou sem justa causa.<\/p>\n<p>Pais de fam\u00edlia, jovens que mal come\u00e7avam a trabalhar, tioz\u00f5es que ajudaram a fundar o neg\u00f3cio, mulheres de todas as idades. N\u00e3o havia distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cTemos de cortar o pessoal em 30 por cento\u201d \u2013 era a ordem da Dire\u00e7\u00e3o que os gerent\u00f5es de departamento cumpriam \u00e0 risca. Sem d\u00f3, nem piedade.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>\u00c0 sua frente, um ma\u00e7o de papel com a documenta\u00e7\u00e3o das demiss\u00f5es do dia.<\/p>\n<p>Imaginou uma certa cena, mas logo desconsiderou:<\/p>\n<p>\u201cSeria horr\u00edvel\u201d, murmurou, desviando-se do qye entendeu ser um pesadelo.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>V. <\/p>\n<p>Marcele reparou naquele quarent\u00e3o bem-apessoado que, inadvertidamente, lhe tomou a frente assim que chegou.<\/p>\n<p>Estranhou.<\/p>\n<p>Nunca o vira por ali. E olha que j\u00e1 batera a empresa inteirinha, atr\u00e1s de dar vida aos benditos computadores que dia sim e outro tamb\u00e9m apresentavam problemas.<\/p>\n<p>Ela gostou do jeito com que ele lhe olhou. N\u00e3o foi com a \u2018fome\u2019 exagerada dos outros rapazes. Percebeu alguma surpresa, um tanto de admira\u00e7\u00e3o e uma improv\u00e1vel timidez, t\u00e3o rara nos marmanjos hoje em dia.<\/p>\n<p>Desde que Amaro lhe aprontara aquela, havia desistido de novos romances, e se sentia bem assim como estava, sozinha.<\/p>\n<p>Gostara do desconhecido, por\u00e9m.<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Sua vida andava t\u00e3o igual. T\u00e3o desinteressante. Sempre as mesmas conversas, as mesmas baladas, as mesmas pessoas. <\/p>\n<p>Na TI, eram todos colegas de turma. Conheciam-se desde a universidade. O Oscar foi o primeiro a ir para a empresa. Assim que pintou uma vaga chamou a Marilda que chamou o Paulo que chamou a D\u00e9bora, o Lu\u00eds, ela e o Afonso.<\/p>\n<p>A corriola estava formada. <\/p>\n<p>N\u00e3o era ruim, n\u00e3o. Mas, tamb\u00e9m n\u00e3o era aquela coisa.<\/p>\n<p>Para ser sincera consigo, uma chatice!<\/p>\n<p>Talvez fosse hora de se dar outra chance.<\/p>\n<p>Aquele tiozinho, hum&#8230;<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Tentou reencontr\u00e1-lo na manh\u00e3 seguinte. Mas, o Metr\u00f4 lotado e as tais paralisa\u00e7\u00f5es contra o Governo n\u00e3o lhe ajudaram. <\/p>\n<p>Chegou tarde.<\/p>\n<p>Bateu o ponto, e entrou correndo, atrasada. Na cabe\u00e7a, uma estrat\u00e9gia marota:<\/p>\n<p>\u201cQueria tanto lhe dar um \u201cbom dia\u201d. Saber em que se\u00e7\u00e3o ele trabalha. Quem sabe o seu computador n\u00e3o est\u00e1 travado&#8230;\u201d<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Ria das bobagens que pensou, enquanto se preparava para come\u00e7ar o dia.<\/p>\n<p>Foi quando Sueli, a gerente, apareceu em sua frente.<\/p>\n<p>N\u00e3o estava com uma cara boa, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi objetiva no papo:<\/p>\n<p>&#8211; M\u00e1, o pessoal do RH pediu para voc\u00ea dar uma passadinha por l\u00e1. \u00c9 l\u00e1 no t\u00e9rreo. Eu sinto muito&#8230;<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho nada a ver com a hist\u00f3ria. Sou apenas o narrador. Mas, acho que posso completar os versos do Poetinha:<\/p>\n<p>\u201cA vida \u00e9 arte do encontro<br \/>\nEmbora haja tantos desencontros<br \/>\nPela vida\u201d<\/p>\n<p>Em tempos de desemprego, ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>*(Escrevi demais. Volto segunda!)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDesemprego \u00e9 de 13,2% e atinge 13,5 milh\u00f5es<br \/>\nde trabalhadores, diz IBGE\u201d  &#8211; (Fonte: Uol)<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>Jairo, o Jair\u00e3o do RH, s\u00f3 conhecia a Marcele por ouvir falar.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-13617","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13617","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13617"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13617\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14434,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13617\/revisions\/14434"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13617"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13617"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13617"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}