{"id":13640,"date":"2017-05-08T00:00:00","date_gmt":"2017-05-08T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:36:50","modified_gmt":"2017-09-15T18:36:50","slug":"meu-pai-faria-hoje-100-anos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/meu-pai-faria-hoje-100-anos\/","title":{"rendered":"Meu pai faria hoje 100 anos"},"content":{"rendered":"<p>&#8212; Sou de maio de 17. Dia 8, quase sou do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>O Velho Aldo, meu pai, era homem de poucas palavras (mas, de sorriso cativante). Tinha l\u00e1 suas convic\u00e7\u00f5es, e cren\u00e7as. Benzia-se seguidamente, por tr\u00eas vezes, antes de deitar. Mas, n\u00e3o era l\u00e1 de se vangloriar disso ou daquilo.<\/p>\n<p>Achava que o mais importante da vida era viver.<\/p>\n<p>Certa vez, lembro-me bem, ele pagou duas vezes o mesmo imposto ao dono da casa onde mor\u00e1vamos de aluguel. Est\u00e1vamos de mudan\u00e7a e o avarento locador se fez de bobo, insistiu que havia o d\u00e9bito do IPTU daquele ano. <\/p>\n<p>O pai n\u00e3o guardara os recibos do pagamento e tentou convenc\u00ea-lo de que estava tudo em dia. Diante da insist\u00eancia malandra do homem, o Velho Aldo sacou alguns trocados do bolso e fez o pag\u00f3rio, ali mesmo, na minha frente.<\/p>\n<p>\u00c0 sa\u00edda, eu o recriminei. <\/p>\n<p>&#8211; Puxa, pai, o cara foi bem malandro. N\u00e3o devia ter pago.<\/p>\n<p>&#8211; Bobagem, rapaz, n\u00e3o vou ficar mais pobre por isso. Nem ele vai ficar mais rico do que \u00e9. Estou com a consci\u00eancia tranquila. Agora ele&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Homem simples, nascido e criado na Rep\u00fablica Federativa do Cambuci, o Velho Aldo parecia n\u00e3o ter outra ambi\u00e7\u00e3o sen\u00e3o a de criar os filhos e ter o suficiente para viver uma vidinha normal. Sem luxo, mas repleta de divers\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi um valente center-forward do Atlantic e do 1\u00ba de Maio nos tempos da APEA (Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Esportes Atl\u00e9ticos), quando o futebol apenas engatinhava. Mas, vou lhes dizer com sinceridade, o esporte preferido do Ald\u00e3o era mesmo o turfe. Adorava ir ao J\u00f3ckey fazer uma fezinha nas patas dos pangar\u00e9s e, ali, sou testemunha, sua aura resplandecia. Ganhasse (o que raramente acontecia) ou perdesse, a festa era a mesma.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Trabalhou quase toda sua vida. Foi crupi\u00ea das Casas Lopes (at\u00e9 que o jogo foi proibido), carregador de rolos de pano, representante comercial e uma esp\u00e9cie de \u201cfaz-tudo\u201d no escrit\u00f3rio da Vetorazzo Tecidos. Mesmo aposentado, trabalhou por v\u00e1rios anos como balconista na loja de tecidos do tio Antenor, no Ipiranga.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o pode mais trabalhar (problemas no cora\u00e7\u00e3o), o Calabr\u00eas veio morar em S\u00e3o Bernardo do Campo para ficar perto do neto ca\u00e7ula (o meu filho acabara de nascer) e dar uma for\u00e7a para o filh\u00e3o (eu mesmo).<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, escreveu um novo cap\u00edtulo na sua branda hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>Passava o dia na esquina da Oragnoff com a \u00c1lvaro Guimar\u00e3es, no bairro do Planalto. Caminhava entre a padaria e a banca de jornal, proseando com Deus e o mundo que se dispusesse a discutir o notici\u00e1rio do dia, a falar do Palmeiras, a comentar sobre as mo\u00e7as bonitas que passavam.<\/p>\n<p>O pai era um galanteador, de nascen\u00e7a.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Um ano ap\u00f3s a sua morte (em 1\u00ba de setembro de 1999), fomos eu e minha m\u00e3e at\u00e9 a igreja S\u00e3o Judas, no bairro, para pedir que se rezasse uma missa pela alma do pai. <\/p>\n<p>Assim que nos viu, o sacrist\u00e3o foi logo nos tranquilizando.<\/p>\n<p>&#8211; A missa ser\u00e1 manh\u00e3 \u00e0s 19 horas. Rezaremos em mem\u00f3ria do seu Aldo. <\/p>\n<p>&#8211; Como voc\u00eas se lembraram? \u2013 a m\u00e3e perguntou.<\/p>\n<p>E o senhor com uma express\u00e3o marota respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o para de vir&#8230; pessoas aqui pedindo uma missa em inten\u00e7\u00e3o a sua alma. Ele era muito querido aqui no bairro.<\/p>\n<p>A m\u00e3e n\u00e3o gostou nada dessas pessoas apressadinhas. Saiu de l\u00e1 bem desconfiada&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Escrevi muitas cr\u00f4nicas tendo o pai como personagem central. No Blog e nos livros. Vou citar tr\u00eas delas:<\/p>\n<p>+ Ora\u00e7\u00e3o do Homem Comum (21.12.2001)<\/p>\n<p>+ Meu Periquitinho Verde (30.03.2007)<\/p>\n<p>+ Pai, 90 anos (08.05.2007)<\/p>\n<p> Fiquem \u00e0 vontade para conferir um pouco mais do meu saudoso pai, Aldo Martino, que nos aben\u00e7oe hoje e sempre&#8230; Saudades.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8212; Sou de maio de 17. Dia 8, quase sou do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>O Velho Aldo, meu pai, era homem de poucas palavras (mas, de sorriso cativante). 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