{"id":13668,"date":"2017-06-02T00:00:00","date_gmt":"2017-06-02T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:35:51","modified_gmt":"2017-09-15T18:35:51","slug":"leitinho-para-os-pangares","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/leitinho-para-os-pangares\/","title":{"rendered":"Leitinho para os pangar\u00e9s"},"content":{"rendered":"<p>O pai tinha verdadeira paix\u00e3o pelos jogos.<\/p>\n<p>Todos, n\u00e3o. Apenas alguns \u2013 corridas de cavalos, bilhetes de loteria, jogo do bicho&#8230; Carteado n\u00e3o era seu forte. \u201cMuito parado. Vez ou outra \u2013 raras, diga-se \u2013 arriscava um \u201821\u2019, um \u20187,5\u2019, uma \u2018cacheta\u2019, \u2018um domin\u00f3zinho b\u00e1sico\u2019, com os amigos do Bar Ast\u00f3ria. Mas, o que fazia o Velho Aldo feliz era mesmo passar as tardes de s\u00e1bado e domingo no Jockey Club.<\/p>\n<p>L\u00e1, ele andava de um lado para o outro. Ia ver o \u2018canter\u2019 dos favoritos, conversava com desconhecidos sobre a barbada do p\u00e1reo, corria a banca para fazer a aposta, circulava pelas sociais e chegava ao del\u00edrio quando o p\u00e1reo come\u00e7ava numa v\u00e3 tentativa de incentivar o alaz\u00e3o escolhido.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>A m\u00e3e n\u00e3o entendia a paix\u00e3o do pai. Quando o via sair, todo empolgado, para ir Jockey, comentava em voz alta, e em tom de repreens\u00e3o: <\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 vai garantir \u2018o leitinho\u2019 para os pangar\u00e9s\u201d. <\/p>\n<p>Era uma clara alus\u00e3o de que o pai estava desviando o sacrossanto dinheiro da fam\u00edlia para divers\u00e3o pr\u00f3pria na famigerada jogatina.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Sempre entendi o que significavam para o pai aqueles momentos de magia e descontrole. Talvez porque, quando garotinho de tudo, eu o acompanhei em tardes ensolaradas e inesquec\u00edveis. Para mim, era uma festa regada a pipoca e guaran\u00e1 \u2018ca\u00e7ulinha\u2019. Achava tudo bonito \u2013 o desfile de apresenta\u00e7\u00e3o dos animais, as blusas multicoloridas dos joqueis, a exaspera\u00e7\u00e3o das pessoas e, sobretudo, o ar de descontra\u00e7\u00e3o que dominava aquela ampla \u00e1rea a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro bem o motivo \u2013 alguma autoridade entendeu que esse encantamento fizesse mal \u00e0 forma\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as -, sei que, meses depois, veio a proibi\u00e7\u00e3o para que frequent\u00e1ssemos (os menores de idade) o Jockey.<\/p>\n<p>Lamentei, mas logo encontrei no futebol, na Jovem Guarda (\u201cvelhas tardes de domingos, quantas alegrias\u201d) e nas matin\u00eas do cine Riviera a compensa\u00e7\u00e3o que tanto satisfez \u00e0 minha meninice\/adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>S\u00f3 fui voltar ao Jockey l\u00e1 pelos trinta e tantos. Claro, levei o pai comigo. Ele andava doentinho, a tal da angina lhe perturbava o corpo e a alma. Ficamos l\u00e1 pouco mais de duas horas, tr\u00eas ou quatro p\u00e1reos. O suficiente para o Ald\u00e3o recuperar a vivacidade dos velhos tempos. <\/p>\n<p>Sempre que lembro o pai plenamente feliz, lembro-me das noites de Natal e daquela tarde de um outono que se perdeu entre os mais antigos do passado.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Estava numa roda de amigos ontem, quando algu\u00e9m sugeriu uma visita ao Jockey Club, \u201cantes que feche as portas de vez\u201d. Incr\u00edvel, mas real: ali, eram todos paulistanos, e ningu\u00e9m conhecia o lugar ou sequer se dava conta da grandiosidade da institui\u00e7\u00e3o numa das \u00e1reas mais valorizadas da cidade.<\/p>\n<p>\u201cPode ser uma boa\u201d, disse outro. \u201cPensei que j\u00e1 tivesse fechado. Vi no notici\u00e1rio TV que est\u00e1 devendo para o mundo e vive uma decad\u00eancia, s\u00f3&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Fiquei triste, muito. Por mim, e pelo meu saudoso pai&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pai tinha verdadeira paix\u00e3o pelos jogos.<\/p>\n<p>Todos, n\u00e3o. Apenas alguns \u2013 corridas de cavalos, bilhetes de loteria, jogo do bicho&#8230; Carteado n\u00e3o era seu forte. \u201cMuito parado. 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