{"id":18426,"date":"2018-03-06T20:15:45","date_gmt":"2018-03-06T20:15:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=18426"},"modified":"2018-03-06T20:15:45","modified_gmt":"2018-03-06T20:15:45","slug":"o-homem-transtornado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-homem-transtornado\/","title":{"rendered":"O homem transtornado"},"content":{"rendered":"<p>O homem, visivelmente transtornado, anda entre os carros quando o sem\u00e1foro fecha.<\/p>\n<p>Ele me fez lembrar o tio Orlando.<\/p>\n<p>O tio, irm\u00e3o do meu pai, tamb\u00e9m tinha l\u00e1 suas esquisitices.<\/p>\n<p>Caminhava pelas ruas, noite adentro (todos se recolhiam antes das 22 horas que, \u00e0 \u00e9poca (anos 50), eram conhecidas como 10 da noite), falando sozinho, em voz alta, blasfemando contra tudo e contra todos.<\/p>\n<p>Lembro minha m\u00e3e tentando esconder o vexame familiar de n\u00f3s \u2013 eu e minhas irm\u00e3s \u2013 crian\u00e7as. Mas, com olhar solid\u00e1rio ao drama que o tio vivia.<\/p>\n<p>&#8211; Precisamos fazer algo por ele, Aldo.<\/p>\n<p>Pelos v\u00e3os das frestas das janelas, acompanh\u00e1vamos o desvario do tio sem coragem de fazer qualquer coment\u00e1rio. V\u00edamos as luzes das casas vizinhas se acenderem \u2013 obviamente para testemunhar o que acontecia, quem era o \u2018maluco\u2019 \u2013 e, mesmo crian\u00e7as, j\u00e1 antev\u00edamos o que nos esperava na manh\u00e3 do dia seguinte, na escola, na \u2018pelada\u2019 ou mesmo nas brincadeiras ruas.<\/p>\n<p>Eu tinha uma justificativa, na ponta da l\u00edngua:<\/p>\n<p>&#8211; O tio est\u00e1 assim porque separou da mulher.<\/p>\n<p><strong>II.<\/strong><\/p>\n<p>O homem entre os carros tamb\u00e9m inspira compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Fala, gesticula e, aparentemente, xinga e amea\u00e7a a todos que passam ao redor.<\/p>\n<p>Os vidros dos carros se fecham, o olhar assustado de quem passa, a indiferen\u00e7a de muitos, a rejei\u00e7\u00e3o s\u00e3o a t\u00f4nica do cen\u00e1rio que vejo hoje \u2013 e, no qual, me incluo.<\/p>\n<p>Amplio a reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo nos assusta. Traz p\u00e2nico.<\/p>\n<p>Faz com que nos imaginemos ref\u00e9m do descontrole da sociedade que, mal ou bem, ajudamos a construir. Seja em S\u00e3o Paulo (dos assaltos), seja no Rio (das balas perdidas), em Paris (com policiamento ostensivo contra eventuais ataques terroristas), em uma escola nos Estados Unidos (e seus misteriosos atiradores)&#8230;<\/p>\n<p><strong>III.<\/strong><\/p>\n<p>Naturalmente, responsabilizamos o Estado, os governantes, os pol\u00edticos, as novelas da Globo, a balb\u00fardia das redes digitais&#8230; Algu\u00e9m ou todos s\u00e3o culpados pelo drama que vivemos em qualquer parte do mundo<\/p>\n<p>N\u00e3o nos atentamos, por\u00e9m, que a coisa toda \u00e9 bem mais ampla. N\u00e3o atinge unicamente o pa\u00eds, o estado, a cidade. Mas, parece ser um estigma planet\u00e1rio que hoje enfrentamos.<\/p>\n<p>Retrocedemos \u00e0 era das trevas?<\/p>\n<p>H\u00e1, penso eu, outros fatores t\u00e3o determinantes quanto os acima relacionados para o caos nosso de cada dia. Fatores esses que, mal ou bem, nos remetem \u00e0 hist\u00f3ria do tio Orlando.<\/p>\n<p><strong>IV.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei lhes explicar o \u2018como\u2019 e o \u2018porqu\u00ea\u2019, mas sentimentos\/virtudes importantes, que formatam nossa humanidade, simplesmente desapareceram do nosso radar de como viver em sociedade.<\/p>\n<p>Respeito ao pr\u00f3ximo e \u00e0 vida, toler\u00e2ncia com o diferente e as opini\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0 nossa, fraternidade, amizade, comprometimento com o bem comum, solidariedade, compaix\u00e3o, miseric\u00f3rdia, perd\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Por onde andam?<\/p>\n<p>Quanta falta hoje nos fazem?<\/p>\n<p><strong>V.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tenho pretens\u00e3o a mago ou mesmo a palestrante de autoajuda. Tamb\u00e9m n\u00e3o estou dando, nem vendendo, como diz o velho e bom samba de Almir Guineto (\u201cConselho\u201d).<\/p>\n<p>S\u00f3 queria mesmo fazer esse desabafo que, de certa forma, encerra o pensamento de Mahatma Ghandi:<\/p>\n<p>\u201cTemos que nos tornar a mudan\u00e7a que queremos ver\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Nota do Blogueiro:<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Uma noite qualquer, o tio Orlando saiu andando mundo afora \u2013 e, desde ent\u00e3o, nunca mais tivemos not\u00edcia dele.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_DrN5kpeTGQ\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<h6><strong><em>*(foto: j\u00f4 rabelo)<\/em><\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O homem, visivelmente transtornado, anda entre os carros quando o sem\u00e1foro fecha.<\/p>\n<p>Ele me fez lembrar o tio Orlando.<\/p>\n<p>O tio, irm\u00e3o do meu pai, tamb\u00e9m tinha l\u00e1 suas esquisitices.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18427,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-18426","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18426","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18426"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18426\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18428,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18426\/revisions\/18428"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18427"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18426"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18426"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18426"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}