{"id":18734,"date":"2018-05-04T13:39:35","date_gmt":"2018-05-04T13:39:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=18734"},"modified":"2018-05-04T13:39:35","modified_gmt":"2018-05-04T13:39:35","slug":"sonhos-e-utopias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/sonhos-e-utopias\/","title":{"rendered":"Sonhos e utopias"},"content":{"rendered":"<p>O amigo Poeta me provoca sobre a cr\u00f4nica de ontem.<\/p>\n<p>No seu entender, os textos que publiquei revelam pouco, quase nada, do garoto que fui e viveu aqueles dias incandescentes.<\/p>\n<p>&#8211; Quantos anos voc\u00ea tinha?<\/p>\n<p>&#8211; O que fazia?<\/p>\n<p>&#8211; Onde estudava?<\/p>\n<p>&#8211; Tinha consci\u00eancia do momento hist\u00f3rico que vivia?<\/p>\n<p>&#8211; Qual a principal lembran\u00e7a que tem daquela \u00e9poca?<\/p>\n<p>Fez uma saraivada de perguntas.<\/p>\n<p>Segundo o amigo, \u201co olhar hist\u00f3rico e livresco\u201d que trouxe daqueles acontecimentos j\u00e1 \u00e9 conhecido de muita gente. Por isso, disse ele, \u201cas minhas sensa\u00e7\u00f5es como um jovem da \u00e9poca seriam mais enriquecedoras para os meus incautos leitores\u201d.<\/p>\n<p><strong>II.<\/strong><\/p>\n<p>\u00d4 Poeta, Poetinha camarada que n\u00e3o \u00e9 o Vinicius, penso que, de alguma forma, amigo, o texto embedado no post de ontem trouxe muito da rotina de jovens remediados que moravam em um bairro remediados e n\u00e3o tinham plena consci\u00eancia de tudo o que estava acontecendo (at\u00e9 porque havia a policialesca censura dos meios de comunica\u00e7\u00e3o), mas sonhavam com um mundo melhor.<\/p>\n<p>As quatro primeiras provoca\u00e7\u00f5es, Poeta, penso que, modestamente, estejam bem resolvidas no texto <strong><a href=\"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?s=maio+de+1968\">MAIO DE 1968<\/a>.<\/strong><\/p>\n<p>Releia, por favor!<\/p>\n<p><strong>III.<\/strong><\/p>\n<p>O que n\u00e3o disse ali e que me impressionou bastante tento agora lhe contar.<\/p>\n<p>Permite?<\/p>\n<p><b>IV.<\/b><\/p>\n<p>Durante os meses de abril, maio e um tanto de junho, eu trabalhei como balconista de uma loja de discos, ali, na rua S\u00e3o Bento, pr\u00f3ximo ao Largo de S\u00e3o Francisco, centro de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Tinha 17 anos, e foi este o meu primeiro emprego.<\/p>\n<p>O pai que me arranjou o trampo. Muito em fun\u00e7\u00e3o da press\u00e3o que o Ald\u00e3o recebia da parentada. Um baita marmanjo como eu, sem trabalhar, s\u00f3 estudando, era uma realidade que n\u00e3o combinava com os rigorosos estatutos das obreiras fam\u00edlias Martino, Avezzani e cong\u00eaneres.<\/p>\n<p><strong>V.<\/strong><\/p>\n<p>Particularmente, achei que o pai deu uma boa solu\u00e7\u00e3o para o problema que se apresentava. Eu gostava de m\u00fasica, vivia arranhando o viol\u00e3o, sonhando em ter uma guitarra \u2013 era, enfim, um jovem que amava os Beatles, os Rolling Stones e o Benjor que, \u00e0 \u00e9poca, ainda era apenas Jorge Ben.<\/p>\n<p>Por outra, tinha tamb\u00e9m a hist\u00f3ria de que estava prestes a servir o Ex\u00e9rcito \u2013 e as empresas n\u00e3o contratavam os garotos nessa faixa et\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>VI.<\/strong><\/p>\n<p>A princ\u00edpio, encarei a coisa como uma divers\u00e3o.<\/p>\n<p>Pegava o \u00f4nibus lotado pela manh\u00e3 e vinha dependurado na porta do coletivo na hora de voltar.<\/p>\n<p>Fora esse perrengue, o que mais me incomodava era obedecer ao gerente da loja, um certo sr. Walter, que nos fazia \u2013 a mim e ao Diogo que trabalhava comigo \u2013 rodar a mesma m\u00fasica, o sucesso da \u00e9poca, o dia todo.<\/p>\n<p>A m\u00fasica se chamava <a href=\"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/ultima-cancao\/\">\u201cA \u00daLTIMA CAN\u00c7\u00c3O\u201d<\/a> e o int\u00e9rprete era um clone do Roberto Carlos, chamado Paulo S\u00e9rgio.<\/p>\n<p>Manda quem pode e obedece quem tem ju\u00edzo.<\/p>\n<p><strong>VII.<\/strong><\/p>\n<p>Toc\u00e1vamos o compacto \u00e0 exaust\u00e3o. Quando o Walt\u00e3o dava uma folga, eu tascava na vitrola os elep\u00eas dos tropicalistas Gil e Caetano, tamb\u00e9m o dos Beatles que eu gostava muit\u00e3o.<\/p>\n<p>Nessas horas, a loja n\u00e3o vendia disco algum, mas ficava lotada de garotas que estudavam no Col\u00e9gio da Funda\u00e7\u00e3o \u00c1lvares Penteado, pr\u00f3ximo dali.<\/p>\n<p>Talvez por essa falta de tino comercial, a loja teve vida curta.<\/p>\n<p>Fechamos as portas antes de junho acabar.<\/p>\n<p><strong>VIII.<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; E a revolu\u00e7\u00e3o? Cad\u00ea a revolu\u00e7\u00e3o? \u2013 pergunta o amigo a exibir certa impaci\u00eancia com o meu embromation.<\/p>\n<p>Na verdade, amigo, dia sim e outro tamb\u00e9m, o Centro de Sampa era cen\u00e1rio de embates entre estudantes e cavalarianos militares que tentavam dissipar as manifesta\u00e7\u00f5es. Ora come\u00e7avam com a turma de Direito no largo S\u00e3o Francisco, ora com o pessoal da USP na rua Maria Ant\u00f4nio, ora o coletivo se reunia na Pra\u00e7a Patriarca e imedia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Era um tumulto s\u00f3.<\/p>\n<p>Correria para todos os lados.<\/p>\n<p>Os cassetetes cantavam.<\/p>\n<p><strong>IX.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o era raro ficarmos em meio aos confrontos.<\/p>\n<p>Zarp\u00e1vamos assustados no meio da confus\u00e3o a procura de abrigo dentro das lojas da regi\u00e3o que logo cerravam suas portas. Para evitar maiores transtornos.<\/p>\n<p>Walt\u00e3o, o gerente, n\u00e3o gostava, mas quase sempre acolh\u00edamos grupos de manifestantes \u00e0 espera de que passasse a tormenta.<\/p>\n<p>Aquela mo\u00e7ada me parecia t\u00e3o culta, t\u00e3o corajosa.<\/p>\n<p>Talvez um dia eu fosse como eles.<\/p>\n<p>Talvez&#8230;<\/p>\n<p><strong>X.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o fui, \u00f4 covardia!<\/p>\n<p>Mas ainda hoje sorrio quando rememoro o barulho das pencas e pencas de bolinhas de gude que os estudantes arremessavam contra os cavalarianos para travar a persegui\u00e7\u00e3o e comprometer o galope dos animais.<\/p>\n<p>Meninos espertos, corajosos. Que sabiam lutar pelos sonhos e utopias de toda gente.<\/p>\n<p>Isto, eu desconfio, aprendi um pouquinho&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lzxkXEMfkuk\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O amigo Poeta me provoca sobre a cr\u00f4nica de ontem.<\/p>\n<p>No seu entender, os textos que publiquei revelam pouco, quase nada, do garoto que fui e viveu aqueles dias incandescentes.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18735,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-18734","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18734","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18734"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18734\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18736,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18734\/revisions\/18736"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18735"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18734"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18734"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18734"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}