{"id":19738,"date":"2018-11-29T04:29:20","date_gmt":"2018-11-29T04:29:20","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=19738"},"modified":"2018-11-29T04:29:20","modified_gmt":"2018-11-29T04:29:20","slug":"cartas-de-amor-aos-livros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/cartas-de-amor-aos-livros\/","title":{"rendered":"Cartas de amor aos livros"},"content":{"rendered":"<h5>Por Luiz Schwarcz *<\/h5>\n<p>O livro no Brasil vive seus dias mais dif\u00edceis. Nas \u00faltimas semanas, as duas principais cadeias de lojas do pa\u00eds entraram em recupera\u00e7\u00e3o judicial, deixando um passivo enorme de pagamentos em suspenso. Mesmo com medidas s\u00e9rias de gest\u00e3o, elas podem ter dificuldades consider\u00e1veis de solu\u00e7\u00e3o a m\u00e9dio prazo. O efeito cascata dessa crise \u00e9 ainda incalcul\u00e1vel, mas j\u00e1 assustador. O que acontece por aqui vai na mar\u00e9 contr\u00e1ria do mundo. Ningu\u00e9m mais precisa salvar os livros de seu apocalipse, como se pensava em passado recente. O livro \u00e9 a \u00fanica m\u00eddia que resistiu globalmente a um processo de disrup\u00e7\u00e3o grave. Mas no Brasil de hoje a hist\u00f3ria \u00e9 outra. Muitas cidades brasileiras ficar\u00e3o sem livrarias e as editoras ter\u00e3o dificuldades de escoar seus livros e de fazer frente a um significativo preju\u00edzo acumulado.<\/p>\n<p>As editoras j\u00e1 v\u00eam diminuindo o n\u00famero de livros lan\u00e7ados, deixando autores de venda mais lenta fora de seus planos imediatos, demitindo funcion\u00e1rios em todas as \u00e1reas. Com a recupera\u00e7\u00e3o judicial da Cultura e da Saraiva, dezenas de lojas foram fechadas, centenas de livreiros foram despedidos, e as editoras ficaram sem 40% ou mais dos seus recebimentos\u2014 gerando um rombo que oferece riscos graves para o mercado editorial no Brasil.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Na Companhia das Letras sentimos tudo isto na pele, j\u00e1 que as maiores editoras s\u00e3o, naturalmente, as grandes credoras das livrarias, e, nesse sentido, foram muito prejudicadas financeiramente. Mas temos como superar a crise: os s\u00f3cios dessas editoras t\u00eam capacidade financeira pessoal de investir em suas empresas, e muitos de n\u00f3s n\u00e3o s\u00f3 queremos salvar nossos empreendimentos como somos tamb\u00e9m idealistas e, mais que tudo, guardamos profundo senso de prote\u00e7\u00e3o para com nossos autores e leitores.<\/p>\n<p>Passei por um dos piores momentos da minha vida pessoal e profissional quando, pela primeira vez em 32 anos, tive que demitir seis funcion\u00e1rios que faziam parte da Companhia h\u00e1 tempos e contribu\u00edam com sua energia para o que constru\u00edmos no nosso dia a dia. A editora que sempre foi capaz de entender as pessoas em sua diversidade, olhar para o melhor em cada um e apostar mais no sentimento de harmonia comum que na mensura\u00e7\u00e3o da produtividade individual, teve que medir de maneira diversa seus custos, ou simplesmente cortar despesas. Numa reuni\u00e3o para prestar esclarecimentos sobre aquele triste e in\u00e9dito acontecimento, uma funcion\u00e1ria me perguntou se as demiss\u00f5es se limitariam \u00e0quelas seis. Com sinceridade e a voz embargada, disse que n\u00e3o tinha como garantir.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Sem querer julgar publicamente erros de terceiros, mas disposto a uma honesta autocr\u00edtica da categoria em geral, escrevo mais esta carta aberta para pedir que todos n\u00f3s, editores, livreiros e autores, procuremos solu\u00e7\u00f5es criativas e idealistas neste momento. As redes de solidariedade que se formaram, de lado a lado, durante a campanha eleitoral talvez sejam um bom exemplo do que se pode fazer pelo livro hoje. Cartas, zaps, e-mails, posts nas m\u00eddias sociais e v\u00eddeos, feitos de cora\u00e7\u00e3o aberto, nos quais a sinceridade prevale\u00e7a, buscando apoiar os parceiros do livro, com especial aten\u00e7\u00e3o a seus protagonistas mais fr\u00e1geis, s\u00e3o mais que bem-vindos: s\u00e3o necess\u00e1rios. O que precisamos agora, entre outras coisas, \u00e9 de cartas de amor aos livros.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Aos que, como eu, t\u00eam no afeto aos livros sua raz\u00e3o de viver, pe\u00e7o que espalhem mensagens; que espalhem o desejo de comprar livros neste final de ano, livros dos seus autores preferidos, de novos escritores que queiram descobrir, livros comprados em livrarias que sobrevivem heroicamente \u00e0 crise, cumprindo com seus compromissos, e tamb\u00e9m nas livrarias que est\u00e3o em dificuldades, mas que precisam de nossa ajuda para se reerguer. Divulguem livros com especial\u00edssima aten\u00e7\u00e3o ao editor pequeno que precisa da venda imediata para continuar existindo, pensem no editor humanista que defende a diversidade, n\u00e3o s\u00f3 entre ra\u00e7as, g\u00eaneros, credos e ideais, mas tamb\u00e9m a diversidade entre os livros de ambi\u00e7\u00e3o comercial discreta e os de ambi\u00e7\u00e3o de venda mais ampla. Todos os tipos de livro precisam sobreviver. Pensem em como ser\u00e1 nossa vida sem os livros minorit\u00e1rios, n\u00e3o s\u00f3 no n\u00famero de exemplares, mas nas causas que defendem, t\u00e3o importantes quanto os de larga divulga\u00e7\u00e3o. Pensem nos editores que, com poucos recursos, continuam neste ramo que exige tanto de n\u00f3s e que podem n\u00e3o estar conosco em breve. Cada editora e livraria que fechar suas portas fechar\u00e1 m\u00faltiplas outras em nossa vida intelectual e afetiva.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Presentear com livros hoje representa n\u00e3o s\u00f3 a valoriza\u00e7\u00e3o de um instrumento fundamental da sociedade para lutar por um mundo mais justo como a sobreviv\u00eancia de um pequeno editor ou o emprego de um bom funcion\u00e1rio em uma editora de porte maior; representa uma grande ajuda \u00e0 continuidade de muitas livrarias e um pequeno ato de amor a quem tanto nos deu, desde cedo: o livro<\/p>\n<p>*\u00a0\u00a0<em>Luiz Schwarcz\u00a0\u00a0\u00e9 um editor e escritor brasileiro. Fundador\u00a0 e presidente do Grupo editorial &#8220;Companhia das Letras&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZCo3ohb3xaM\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Luiz Schwarcz *<\/p>\n<p>O livro no Brasil vive seus dias mais dif\u00edceis. 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