{"id":19757,"date":"2018-12-03T18:19:35","date_gmt":"2018-12-03T18:19:35","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=19757"},"modified":"2018-12-03T18:32:58","modified_gmt":"2018-12-03T18:32:58","slug":"embornal-de-sonhos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/embornal-de-sonhos\/","title":{"rendered":"Embornal de sonhos"},"content":{"rendered":"<h6><em><strong>Foto: J\u00f4 Rabelo<\/strong><\/em><\/h6>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Leio no Instagran do amigo professor:<\/p>\n<p>\u201cVivo como mere\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p>Acho bonita a declara\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me sugere emp\u00e1fia ou alguma arrog\u00e2ncia. Sinto quando a leio uma constata\u00e7\u00e3o serena de algu\u00e9m que, em determinado momento da vida, \u00e9 feliz com o que tem.<\/p>\n<p>Melhor dizendo: com o que \u00e9.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de achar-se o melhor ou o pior nisso ou naquilo.<\/p>\n<p>Trata-se, creio, de unicamente ser o que se \u00e9.<\/p>\n<p>Algo raro e bonito de se ver.<\/p>\n<p>A partir da constata\u00e7\u00e3o \u2013 e da reflex\u00e3o que me prop\u00f5e \u2013 lembro, assim por lembrar, outras manifesta\u00e7\u00f5es nesse sentido, ou quase.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u201cVivo como posso\u201d \u2013 disse, certa vez, o Escova, no tempo da velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor.<\/p>\n<p>Havia se enroscado em nova aventura amorosa e, na ocasi\u00e3o, n\u00e3o sabia como se safar dela.<\/p>\n<p>Quando n\u00f3s, os amigos, o pressionamos para decidir se assumia a mo\u00e7a ou desocupava a moita, o nosso Dom Juan das Quebradas do Sacom\u00e3 se saiu com esta:<\/p>\n<p>\u201cSomos as nossas conquistas.\u201d<\/p>\n<p>Quase desistimos dele.<\/p>\n<p>Mas, algu\u00e9m l\u00e1 do fund\u00e3o, sem parar de batucar a possante Olivetti, fez o contraponto em alto e bom som:<\/p>\n<p>\u201cPagamos pelos nossos erros, Escova.\u201d<\/p>\n<p>Disseram que foi o Z\u00e9 Jofre, um dos veteranos da turma de rep\u00f3rteres.<\/p>\n<p>Mas, h\u00e1 controv\u00e9rsia.<\/p>\n<p>O amigo Jofre nunca foi de dar pitacos na vida alheia.<\/p>\n<p>De resto, entre os habitantes daquela sala retangular e assoalhada, o odor de santidade passava longe.<\/p>\n<p>\u201cSomos todos pecadores\u201d \u2013 resumiu o Nasci, reconhecidamente o mais vivido de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>No filme \u201cAs Pontes de Madison\u201d, com a assinatura do \u00f3timo Clint Eastwood, o denso romance entre o fot\u00f3grafo (vivido pelo pr\u00f3prio Eastwood) e a dona de casa (a magn\u00edfica Meryl Streep) \u00e9 uma aflitiva armadilha do destino. Personagens e espectadores, dentro e fora da tela, se enredam nela.<\/p>\n<p>\u201cSomos as nossas escolhas.\u201d<\/p>\n<p>Conclui para mim mesmo, depois de v\u00ea-lo, rev\u00ea-lo dezena de vezes nessas noites de ins\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Inesquec\u00edvel para mim um show que o Milton Nascimento fez em S\u00e3o Paulo, desconfio que nos anos 90.<\/p>\n<p>No palco do ent\u00e3o Palace, Bituca reviveu o come\u00e7o de carreira como cantor de orquestras nos bailes da vida.<\/p>\n<p><em>Crooner<\/em> era o nome do espet\u00e1culo e reunia alguns dos grandes cl\u00e1ssicos musicais de todos os tempos. Nacionais e internacionais. De \u2018Only You\u2019 a \u2018Mas Que Nada\u2019, repassava Beatles e a eterna \u201cAqueles Olhos Verdes\u201d, entre outras tantas e tamanhas.<\/p>\n<p>Bel\u00edssimo repert\u00f3rio.<\/p>\n<p>Tenho ainda hoje na mem\u00f3ria o encanto da interpreta\u00e7\u00e3o de Milton para \u201cCertas Coisas\u201d, de Lulu Santos e N\u00e9lson Motta. Especialmente o verso que diz:<\/p>\n<p>\u201cSomos feitos de sil\u00eancio e som.\u201d<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Nesse tom nost\u00e1lgico, ainda lhes trago outra frase:<\/p>\n<p>\u201cSomos nossas lembran\u00e7as.\u201d<\/p>\n<p>Eu a ouvi daquele a quem chamei, com ironia, de o ermit\u00e3o da montanha.<\/p>\n<p>Sequer me recordo quando o encontrei, se foi h\u00e1 10, 15, 20 anos.<\/p>\n<p>Faz tempo.<\/p>\n<p>O homem rude, de h\u00e1bitos e maneiras, vivia (vive?) l\u00e1 nos cafund\u00f3s da Serra da Bocaina e me orientou, em tom professoral, a saborear a leveza do passo que faz o caminho, seja este qual for.<\/p>\n<p>E justificou:<\/p>\n<p><em>H\u00e1\u00a0 uma fase na vida das pessoas em que achamos ser merecedores, poderosos, indestrut\u00edveis. Erros e acertos, escolhas, equ\u00edvocos, risos e eventuais l\u00e1grimas, nada interrompe a caminhada do peregrino. <\/em><\/p>\n<p><em>Cabe tudo no embornal dos nossos sonhos.<\/em><\/p>\n<p><em>Em outro momento, por\u00e9m, s\u00e3o as lembran\u00e7as do que vivemos que dar\u00e3o o mote de nossa jornada.<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o lhe dei cr\u00e9dito ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, eu o entendo.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Que me perdoe o am\u00e1vel leitor e amada leitora, se estou um tanto assim, diria, pra l\u00e1 de nost\u00e1lgico.<\/p>\n<p>Sinceramente, n\u00e3o sei de onde veio o texto.<\/p>\n<p>Tem certas coisas que eu n\u00e3o sei dizer.<\/p>\n<p>Talvez seja a inexplic\u00e1vel saudade do que vivi e n\u00e3o vivi.<\/p>\n<p>Talvez seja o tom acinzentado desta segunda.<\/p>\n<p>Talvez seja um reles acerto de conta pessoal.<\/p>\n<p>Amanh\u00e3 completo 68 anos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fzNar7dOMOQ\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>Foto: J\u00f4 Rabelo<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Leio no Instagran do amigo professor:<\/p>\n<p>\u201cVivo como mere\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p>Acho bonita a declara\u00e7\u00e3o. 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