{"id":19849,"date":"2018-12-19T22:17:28","date_gmt":"2018-12-19T22:17:28","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=19849"},"modified":"2018-12-19T22:28:57","modified_gmt":"2018-12-19T22:28:57","slug":"memorias-daquele-boteco","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/memorias-daquele-boteco\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias daquele boteco&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o era sempre.<\/p>\n<p>De vez em quando, o Raiv\u00e3o aparecia naquele boteco onde bat\u00edamos o ponto, dia sim e outro tamb\u00e9m; botequinho enjoado que n\u00e3o mais existe na esquina da rua Bom Pastor com a Greenfeld, no bairro oper\u00e1rio do Ipiranga.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, desapareceram os dois.<\/p>\n<p>Raiv\u00e3o, pois nunca mais tive not\u00edcia do homem.<\/p>\n<p>(Nem ele, de mim, creio)<\/p>\n<p>E o Sujinho que foi sumariamente demolido, sem consulta p\u00fablica, e, em seu lugar, construiu-se a tal Esta\u00e7\u00e3o Sacom\u00e3 do Metr\u00f4 que serve a muita gente, mas, sinceramente, n\u00e3o acomoda o tant\u00e3o da minha saudade.<\/p>\n<p>Ali, nossa fauna de faunos se fez feliz, e bem sab\u00edamos.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Dizia-se do Raiv\u00e3o, de nome batismal Edmundo, Senhor Edmundo: era um comerciante das redondezas do Ponto F\u00e1brica &#8211; outra denomina\u00e7\u00e3o do lugar por ser, l\u00e1 nos mais antigamentes, a parada final do bonde hom\u00f4nimo que transportava os trabalhadores das f\u00e1bricas que, ali se instalaram no come\u00e7o do s\u00e9culo 20, at\u00e9 a Pra\u00e7a Jo\u00e3o Mendes num ruidoso e constante ir e vir.<\/p>\n<p>Melhor parar com essas digress\u00f5es, sen\u00e3o n\u00e3o termino o post hoje.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Voltemos aos Sr. Edmundo; no risque e rabisque dos tampos daquele \u00e1spero balc\u00e3o, o nosso generoso Raiv\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando ele chegava por ali \u00e9 porque o dia n\u00e3o lhe fora nada favor\u00e1vel nos neg\u00f3cios e, v\u00e1 l\u00e1, nas coisas do cotidiano.<\/p>\n<p>Raiv\u00e3o fazia do bar e da nossa nada recomend\u00e1vel companhia uma esp\u00e9cie de ref\u00fagio para os atropelos do dia ruim.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Como descobrimos?<\/p>\n<p>Ora, ora, ora vejam s\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>Simples.<\/p>\n<p>O homem n\u00e3o parava de reclamar. De tudo e de todos; de nosotros, inclusive.<\/p>\n<p>Santa Ingratid\u00e3o!<\/p>\n<p>Ficava ainda mais danado da vida quando algu\u00e9m se punha a reclamar mais do que ele.<\/p>\n<p>Como nenhum dos desvalidos que ali habitava prestava nadica de nada (eu, incluso), imagine o teor das conversas. Novela mexicana era moeda de troco. Filme do Tarantino, brincadeira de crian\u00e7a no pr\u00e9zinho.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Exager\u00e1vamos.<\/p>\n<p>Um querendo se mostrar mais azarado que o outro.<\/p>\n<p>Inconformado, o Sr. Edmundo era tomado por ira inclemente (da\u00ed o codinome que lhe demos \u00e0s escondidas, Raiv\u00e3o) e se punha a duelar simultaneamente com os diversos interlocutores. Tomava para si todas as dores do mundo. Dizia n\u00e3o acreditar mais nas pessoas, no pa\u00eds, no mundo, no cosmo:<\/p>\n<p>&#8211; Pois, vejam o que me aconteceu&#8230;<\/p>\n<p>E tome relatos de preju\u00edzos, doen\u00e7a na fam\u00edlia, filhos que s\u00f3 lhe davam desgosto, a mulher que gastava demais, os neg\u00f3cios \u00e0 bancarrota\u00a0 etc etc e tal.<\/p>\n<p>Do lado de c\u00e1, revez\u00e1vamos na cria\u00e7\u00e3o de infort\u00fanios e lamenta\u00e7\u00f5es para contrapor \u00e0s tristezas do (quase) amigo e alimentar o desafio nos moldes daqueles cantadores de cordel.<\/p>\n<p>S\u00f3 que eram v\u00e1rios contra um, o Raiv\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>&#8230; <\/strong><\/p>\n<p><strong>E<\/strong>m determinado momento, o homem, exaurido, sucumbia \u00e0s nossas supostas desgra\u00e7as.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou dizer que se dava por vencido.<\/p>\n<p>Jurava ser o mais azarado \u2013 e ponto e basta.<\/p>\n<p>Arrisco que abandonava a arena por notar que n\u00e3o era o \u00fanico no mundo a ter problemas.<\/p>\n<p>(Conhe\u00e7o um tanto de gente assim.)<\/p>\n<p>Arrisco mais: o bate-boca funcionava como uma terapia (mas, tinha um pre\u00e7o). Dava-lhe\u00a0 certo al\u00edvio dos enfrentamentos di\u00e1rios e, quando se cansava de nossas mentiras e provoca\u00e7\u00f5es, alegava um compromisso inadi\u00e1vel e sa\u00eda rapidinho.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, passava no caixa e confessava sua indigna\u00e7\u00e3o ao dono do boteco, o Arlindo:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei o qu\u00ea esse pessoal tanto se alegra quando eu chego. S\u00e3o bem mais fodidos do que eu, com o perd\u00e3o da m\u00e1 palavra. S\u00f3 reclamam e reclamam; mas, sei l\u00e1, n\u00e3o tiram o sorriso do rosto.<\/p>\n<p>\u201cPois se livre desses chatos\u201d, aconselhava o Portuga, esperto. \u201cPague outra rodada de cerveja pra eles, e v\u00e1 se embora. S\u00e3o assim mesmo, beberr\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Bingo!<\/p>\n<p>Era s\u00f3 o que quer\u00edamos.<\/p>\n<p>\u00d4 ra\u00e7a!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JjrrE0G03nI\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o era sempre.<\/p>\n<p>De vez em quando, o Raiv\u00e3o aparecia naquele boteco onde bat\u00edamos o ponto, dia sim e outro tamb\u00e9m; botequinho enjoado que n\u00e3o mais existe na esquina da rua Bom Pastor com a Greenfeld,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19850,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-19849","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19849","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19849"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19849\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19853,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19849\/revisions\/19853"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19850"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19849"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19849"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19849"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}