{"id":19987,"date":"2019-02-12T13:01:19","date_gmt":"2019-02-12T13:01:19","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=19987"},"modified":"2019-02-12T18:47:45","modified_gmt":"2019-02-12T18:47:45","slug":"como-assim-guri","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/como-assim-guri\/","title":{"rendered":"Como assim, guri?"},"content":{"rendered":"<p>Nas ruas de Natal, alguns muitos anos atr\u00e1s, o ins\u00f3lito di\u00e1logo:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o existe futuro, n\u00e3o, tioz\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Tioz\u00e3o, sou eu? Como assim, guri, n\u00e3o existe futuro?<\/p>\n<p>&#8211; Foi o namorado da minha m\u00e3e que disse. S\u00f3 existe o hoje, o agora, o presente. Temos de fazer o que tem que ser feito \u2013 e \u00e9 assim.<\/p>\n<p>&#8211; Faz algum sentido. Mas, todos precisam pensar no amanh\u00e3. Falei apenas que voc\u00ea deveria estar estudando para ter um amanh\u00e3 melhor &#8211; e n\u00e3o aqui, correndo entre os carros.<\/p>\n<p>&#8211; O amanh\u00e3 s\u00f3 existe se passar por hoje. Se hoje a gente ficar olhando a lua e as estrelas \u2013 e n\u00e3o fizer o que tem que ser feito -, vai estragar o amanh\u00e3 e n\u00e3o haver\u00e1 nem o passado para lembrar o que de bom vivemos. Por hora, preciso trabalhar, levar uns trocos pra casa.<\/p>\n<p>&#8211; Hum&#8230; O namorado da sua m\u00e3e \u00e9 fil\u00f3sofo, poeta, \u00e9 o qu\u00ea? Foi ele que lhe ensinou isso?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei direito o que o namorado da minha m\u00e3e faz, al\u00e9m de namorar a minha m\u00e3e. Mora em casa h\u00e1 pouco tempo. Passa o tempo ouvindo umas m\u00fasicas estranhas, de um tal de Raulzito. \u00c0s vezes, gosto. Outras, acho bem esquisitas. Algu\u00e9m pode nascer h\u00e1 10 mil anos atr\u00e1s?<\/p>\n<p>&#8211; Raulzito era o Raul Seixas, um roqueiro que se dizia \u201cmaluco beleza\u201d.\u00a0 Uma figura\u00e7a. Os caras da minha gera\u00e7\u00e3o e outros tantos mais novos do que eu ainda curtem muito as can\u00e7\u00f5es dele. Mas, me diga, se n\u00e3o foi o namorado da sua m\u00e3e quem fez esse coment\u00e1rio, quem foi?<\/p>\n<p>&#8211; Eu mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Claro, tio. S\u00f3 porque vendo bala no sem\u00e1foro, sou ruim das ideias, n\u00e3o posso pensar umas coisas diferentes?<\/p>\n<p>&#8211; Pode, claro que pode. Ali\u00e1s, voc\u00ea me parece bem esperto pra sua idade.<\/p>\n<p>&#8211; Acho que sou mesmo. Vou lhe contar: quando meu pai ainda morava em casa, ele me levou num jogo de futebol naquela tarde de domingo. N\u00e3o sei onde o coroa arranjou dinheiro pra ver a sele\u00e7\u00e3o, mas l\u00e1 fomos n\u00f3s \u2013 eu e ele \u2013 pro Est\u00e1dio das Dunas. Foi uma festa. Nem me lembro mais quanto foi o jogo. S\u00f3 lembro que fiquei numa alegria derramada s\u00f3 de ver aquele povo todo feliz, gritando, cantando, se abra\u00e7ando. Parecia tudo gente boa.<\/p>\n<p>&#8211; Ir ao est\u00e1dio de futebol \u00e9 bem legal mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; P\u00f5e legal nisso. Passei uns bons dias s\u00f3 pensando naqueles momentos. Ainda hoje, vez ou outra, me pego feliz s\u00f3 por lembrar que fui muito feliz naquele dia. O pai era gente boa tamb\u00e9m, bebia um tantinho al\u00e9m da conta, mas era bom cora\u00e7\u00e3o. Disse que foi embora pra ganhar o mundo. Eu entendi a dele; a m\u00e3e e os manos, n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa ver se entendi? Deste fato, desta lembran\u00e7a, voc\u00ea chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que o presente \u00e9 hoje, e \u00e9 o que vale. O passado s\u00f3 existe na nossa lembran\u00e7a e o futuro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; o futuro a Deus pertence, tio. N\u00e3o foi o namorado da minha m\u00e3e que falou isso, n\u00e3o. Foi o frei Sebasti\u00e3o mesmo. Sou muito religioso, sabia?\u00a0 O frei cuida da escola da par\u00f3quia. Vou sempre que posso. Ele disse que logo logo vou poder comungar&#8230; Vai uma balinha de goma, a\u00ed, tioz\u00e3o? Ado\u00e7a a vida!<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>A cidade de Natal tem o mais belo luar que, uma noite, pude ver. N\u00e3o esque\u00e7o o cen\u00e1rio que vislumbrei da janela do quarto do hotel onde me hospedei.<\/p>\n<p>Noite clara. A lua cheia plenamente espelhada sobre as \u00e1guas do mar.<\/p>\n<p>A inspirar fil\u00f3sofos, poetas e garotos que, como eu, de repente envelheceram.<\/p>\n<p>Nunca esqueci.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se estamos na lua cheia, mas gostaria muito de hoje estar por l\u00e1.<\/p>\n<p>Poderia v\u00ea-la inteira, rebrilhante, estirada nua\/lua. Inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>Ado\u00e7a a vida!<\/p>\n<p>(e a gente anda precisando! T\u00e1 relampiando, nesse 2019)<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kxyNXFdNhek\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<h6><em><strong>* ilustra\u00e7\u00e3o: site Wln<\/strong><\/em><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas ruas de Natal, alguns muitos anos atr\u00e1s, o ins\u00f3lito di\u00e1logo:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o existe futuro, n\u00e3o, tioz\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Tioz\u00e3o, sou eu? 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