{"id":19999,"date":"2019-02-14T13:04:03","date_gmt":"2019-02-14T13:04:03","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=19999"},"modified":"2019-02-14T13:11:44","modified_gmt":"2019-02-14T13:11:44","slug":"bibi-unica-incomparavel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/bibi-unica-incomparavel\/","title":{"rendered":"Bibi Ferreira, \u00fanica. Incompar\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>O pai era apaixonado por corridas de cavalos.<\/p>\n<p>Quase todos os finais de semana, era ele quem corria para o J\u00f3ckey Club, ali, na Cidade Jardim, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Algumas vezes, ele me levava.<\/p>\n<p>Eu era garoto. Oito ou nove anos, e adorava.<\/p>\n<p>Adorava tudo.<\/p>\n<p>O lugar amplo, m\u00e1gico. A multid\u00e3o que me parecia sempre euf\u00f3rica. O trotar elegante dos garbosos cavalos. As jaquetas coloridas dos j\u00f3queis. A emo\u00e7\u00e3o dos p\u00e1reos, com o frenesi das disputas, os gritos de \u201cd\u00e1-lhe, d\u00e1-lhe\u201d. A euforia dos vencedores. Os murm\u00farios dos que perderam&#8230;<\/p>\n<p>Tinha at\u00e9 um parquinho para as crian\u00e7as, juro.<\/p>\n<p>Era um planeta \u00e0 parte. Um mundo instigante aos meus olhos de menino sardento nos idos dos anos 50.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Ops.<\/p>\n<p>Corrijo a rota da conversa: n\u00e3o \u00e9 este o assunto de hoje.<\/p>\n<p>Numa das esquinas da avenida Lineu de Paula Machado (onde fica o hip\u00f3dromo), ali quando cruza a avenida Euz\u00e9bio Matoso, havia uma frondosa figueira e, naquelas paragens, a gente olhava em linha reta e via, do outro lado da rua, um morro de uns 50, 60 metros de aclive e, incrustada no alto do morro, \u00a0resplandecia uma portentosa edifica\u00e7\u00e3o, de ares nobres e sofisticados .<\/p>\n<p>Assim que a vi, numa dessas idas ao J\u00f3ckey, fiquei curioso \u2013 e, inspirado nas hist\u00f3rias de capa-e-espada que tanto gostava de ler, n\u00e3o resisti \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de perguntar para o pai:<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo \u00e9 que \u00e9 um castelo?<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>O pai sorriu.<\/p>\n<p>(Pai que \u00e9 pai sempre sorri diante das bobagens que os filhos dizem.)<\/p>\n<p>Fez uma express\u00e3o solene diante da ins\u00f3lita pergunta, e nem por isso me deixou sem resposta:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, Tchinim, \u00e9 uma mans\u00e3o. Mans\u00e3o n\u00e3o chega a ser um castelo, mas \u00e9 uma casa enorme. De muitos c\u00f4modos. Mas, ali mora um rei. O Rei dos Palcos barsileiros, o grande ator Proc\u00f3pio Ferreira, com a sua filha que tamb\u00e9m \u00e9 artista. Chama-se Bibi, Bibi Ferreira.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Fiquei orgulhoso de constatar que o pai sabia das coisas. Sabia at\u00e9 quem morava naquele lugar lindo, e um tanto misterioso.<\/p>\n<p>Achei divertido o nome da mo\u00e7a. Bibi.<\/p>\n<p>Se era atriz, deveria ser uma mocinha j\u00e1.<\/p>\n<p>Se era filha do rei, deveria ser uma princesa, pensei.<\/p>\n<p>Pensei \u2013 e, n\u00e3o me perguntem o motivo, fiquei maravilhado.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Um encantamento espont\u00e2neo, inexplic\u00e1vel desde ent\u00e3o, me acompanha vida afora todas as vezes que, como espectador, \u00a0encontrei Bibi Ferreira, soberana, \u00edntegra, nos palcos da vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o foram tantas, mas marcantes.<\/p>\n<p>Lembro-me dela, cantando, dan\u00e7ando e apresentando um programa semanal, <em>Bibi 60<\/em>, na extinta TV Excelsior (embora amigos me garantam que o programa dela era na Globo).<\/p>\n<p>Depois a vi no teatro em montagens c\u00e9lebres &#8211; <em>My Fair<\/em> <em>Lady<\/em>, <em>O Homem de La Mancha<\/em> (com Paulo Autran), <em>Brasileiro, Profiss\u00e3o Esperan\u00e7a<\/em>, <em>Gota D\u2019\u00c1gua<\/em> e no musical <em>Piaf<\/em>.<\/p>\n<p>Sempre plena. Rainha. A envolver-se com a personagem e, assim, envolver de verdades c\u00eanicas a toda a plateia.<\/p>\n<p>Entendi perfeitamente quando, certa vez, disse numa entrevista:<\/p>\n<p>\u201cQuando estou no palco \u00e9 um momento de comunh\u00e3o. Atrav\u00e9s de voc\u00eas (o p\u00fablico), eu me encontro com Deus.\u201d<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Bibi, nascida Abigail Izquierdo Ferreira , morreu ontem, em sua casa no bairro do Flamengo, aos 96 anos.<\/p>\n<p>Uma carreira \u00fanica, incompar\u00e1vel.<\/p>\n<p>77 anos em cartaz.<\/p>\n<p>Era \u2013 e sempre ser\u00e1 \u2013 a grande dama do teatro brasileiro.<\/p>\n<p>Decididamente este n\u00e3o est\u00e1 sendo um bom come\u00e7o de ano&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zWQnR4FLgdM\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<ul>\n<li>Um adendo &#8211; <em>Soube anos e anos depois que a mans\u00e3o foi mesmo, em algum momento, de Proc\u00f3pio Ferreira, mas a garota Bibi n\u00e3o marcou presen\u00e7a por l\u00e1. Por essa \u00e9poca, meados dos 50, fazia enorme sucesso como atriz nos teatros portugueses. Assim como eu, o Velho Aldo, meu pai, tinha uma tend\u00eancia incontrol\u00e1vel de imaginar hist\u00f3rias. Tamb\u00e9m ele sabia se fazer encantado e encantador.<\/em><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pai era apaixonado por corridas de cavalos.<\/p>\n<p>Quase todos os finais de semana, era ele quem corria para o J\u00f3ckey Club, ali, na Cidade Jardim, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20000,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-19999","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19999","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19999"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19999\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20004,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19999\/revisions\/20004"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20000"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19999"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19999"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19999"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}