{"id":20368,"date":"2019-04-16T05:12:46","date_gmt":"2019-04-16T05:12:46","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=20368"},"modified":"2019-04-16T12:53:35","modified_gmt":"2019-04-16T12:53:35","slug":"notre-dame-o-incendio-e-a-memoria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/notre-dame-o-incendio-e-a-memoria\/","title":{"rendered":"Notre-Dame, o inc\u00eandio e a mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201c<\/em><em>Um inc\u00eandio atinge a\u00a0<\/em><em><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/catedral_notre_dame\/a\/\">catedral de Notre-Dame<\/a>, em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/paris\/a\/\">Paris<\/a>, desde o final da tarde desta segunda-feira, causando a destrui\u00e7\u00e3o de grande parte da ic\u00f4nica igreja cat\u00f3lica.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Assim que abro a p\u00e1gina do <em>El Pa\u00eds<\/em> no celular,\u00a0 vejo a not\u00edcia.<\/p>\n<p>Triste not\u00edcia que me leva para frente da TV.<\/p>\n<p>Algumas emissoras transmitem as imagens do fogo a consumir o templo que existe h\u00e1 850 anos e, nesses dias, passava por ampla reforma.<\/p>\n<p>Direto de Paris, a jornalista comenta que j\u00e1 existe a vers\u00e3o de que o desastre se deu exatamente na \u00e1rea que estava em obras.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a tamb\u00e9m fala que a Notre-Dame levou dois s\u00e9culos para ter conclu\u00edda a constru\u00e7\u00e3o. Que \u00e9 o ponto tur\u00edstico mais visitado da Fran\u00e7a \u2013 30 mil por dia. Que os franceses e o mundo todo est\u00e3o em estado de choque.<\/p>\n<p>Lamentam a irrepar\u00e1vel perda.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Diz mais.<\/p>\n<p>Sinceramente, n\u00e3o ou\u00e7o.<\/p>\n<p>Se ou\u00e7o, n\u00e3o assimilo.<\/p>\n<p>Estou envolto em lembran\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>&#8230; <\/strong><\/p>\n<p>Recordo a primeira vez que l\u00e1 estive. 1986. Tamb\u00e9m corria o m\u00eas de abril. Era um jovem, inconsequente e sonhador.<\/p>\n<p>Andei pelas ruas de Paris com o cora\u00e7\u00e3o acelerado pela ousadia de um suburbano, como eu, estar ali, do outro lado do Atl\u00e2ntico, a ronronar planos, amores e travessuras.<\/p>\n<p>Sim, estava ali na Cidade Luz. De casaco de l\u00e3 grossa e All Star azul, tirando uma chinfra \u00e0s margens do Sena.<\/p>\n<p>Pode?<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>De repente, meus olhos deparam com aquele imenso pr\u00e9dio que se ergue, onipresente, diante de mim.<\/p>\n<p>Demorei alguns segundos para assimilar a imagem que s\u00f3 conhecia de postais.<\/p>\n<p>Eis a Notre-Dame, disse para mim mesmo. Como se o \u00fanico motivo daqueles breves dias na Fran\u00e7a fosse aquela vis\u00e3o magn\u00edfica.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Apertei o passo para chegar logo.<\/p>\n<p>Assim que entrei intui a transcend\u00eancia de ali estar.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei explicar.<\/p>\n<p>Me fiz comparsa da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se em fun\u00e7\u00e3o do hor\u00e1rio, do dia, mas n\u00e3o havia tanta gente assim em seu interior.<\/p>\n<p>Aquele era um momento meu.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>A escurid\u00e3o, aos poucos, foi se dissipando e pude caminhar no corredor entre as colunas at\u00e9 a nave central.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Um feixe de luzes coloridas me tirou do torpor, e depois outro e outro mais.<\/p>\n<p>Nunca vi nada t\u00e3o belo.<\/p>\n<p>Aqueles vitrais deram a dimens\u00e3o exata da minha insignific\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Embevecido, procurei um banco para melhor admir\u00e1-los.<\/p>\n<p>Mas deu-se o inverso.<\/p>\n<p>Fiquei ali prostrado, de joelhos.<\/p>\n<p>Tentei uma v\u00e3 ora\u00e7\u00e3o \u2013 andava distante dos ritos da Igreja.<\/p>\n<p>S\u00f3 o que soube fazer foi pregar meu olhar ao ch\u00e3o sem atrativos. Um ch\u00e3o igual a tantos outros, de tantas outras par\u00f3quias.<\/p>\n<p>Nunca desvendei o mist\u00e9rio daquele momento. Sombrio e revelador.<\/p>\n<p>Redemoinho de sensa\u00e7\u00f5es, pensamentos; privil\u00e9gio.<\/p>\n<p>A retomada da f\u00e9 que n\u00e3o se traduziu em palavras. Mas se fez plena e, diria, aben\u00e7oada.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Voltei outras tantas vezes a Paris \u2013 quatro ou cinco.<\/p>\n<p>Sempre inclui a visita a Notre-Dame nessas estadas.<\/p>\n<p>Assisti \u00e0 missa de primeiro de ano, descansei de longas caminhadas pelos arredores, revi o caleidosc\u00f3pio de cores daqueles vitrais inigual\u00e1veis, caminhei entre as colunas, reaprendi a rezar e rezei. Me emocionei em v\u00e1rios n\u00edveis e por v\u00e1rios motivos.<\/p>\n<p>Agradeci sempre.<\/p>\n<p>Mas, o que vivenciei naquela tarde que se perdeu no tempo foi \u00fanico, inexplic\u00e1vel. Inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<h6><em><strong>** Foto: Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>\u201c<\/em><em>Um inc\u00eandio atinge a\u00a0<\/em><em><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/catedral_notre_dame\/a\/\">catedral de Notre-Dame<\/a>, em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/paris\/a\/\">Paris<\/a>, desde o final da tarde desta segunda-feira, causando a destrui\u00e7\u00e3o de grande parte da ic\u00f4nica igreja cat\u00f3lica.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Assim que abro a p\u00e1gina do <em>El Pa\u00eds<\/em> no celular,\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20369,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[71,143,135,142,144],"class_list":["post-20368","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-franca","tag-incendio","tag-memoria","tag-notre-dame","tag-paris"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20368","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20368"}],"version-history":[{"count":7,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20368\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20376,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20368\/revisions\/20376"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20369"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20368"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20368"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20368"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}