{"id":20399,"date":"2019-04-23T04:36:39","date_gmt":"2019-04-23T04:36:39","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=20399"},"modified":"2019-04-23T12:24:02","modified_gmt":"2019-04-23T12:24:02","slug":"salve-jorge-4","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/salve-jorge-4\/","title":{"rendered":"Salve Jorge * (vers\u00e3o atualizada)"},"content":{"rendered":"<p>23 de abril.<\/p>\n<p>\u00c9 dia de Jorge, o santo guerreiro.<\/p>\n<p>Sou devoto. Desde crian\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Uma liga\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou assim&#8230;<\/p>\n<p><strong>1.<\/strong><\/p>\n<p>Talvez fosse o cavalo branco e belo, ares de nobreza. Talvez fosse a armadura prateada, que confiava magnitude \u00e0 imagem do cavaleiro.<\/p>\n<p>Talvez ele pr\u00f3prio, o menino, ent\u00e3o prestes a completar 4 anos, se imaginasse com coragem suficiente para embates e lutas. Que sequer podia sonhar seriam sua sina vida afora.<\/p>\n<p>Fiquemos com o talvez.<\/p>\n<p>Fiquemos, pois, com o garoto. Que n\u00e3o teve d\u00favidas quando a amiga da m\u00e3e lhe perguntou carinhosa:<\/p>\n<p>\u2014 Tchinim, o que voc\u00ea quer de presente de anivers\u00e1rio?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o precisa, Olga \u2013 rebateu a m\u00e3e zelosa.<\/p>\n<p>\u2014 Quero aquele santo que tem um cavalo branco \u2013 respondeu convicto.<\/p>\n<p>\u2014 Tem certeza? \u2013 perguntou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho.<\/p>\n<p>A m\u00e3e interv\u00e9m:<\/p>\n<p>\u2014 Acho que meu filho vai ser padre. Deus o escolheu.<\/p>\n<p>Coisas de m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong><\/p>\n<p>No dia aprazado da tradicional festinha de anivers\u00e1rio, os olhos do garoto enlevaram-se quando viram a est\u00e1tua, de pouco mais de 20 cent\u00edmetros. N\u00e3o era grande quanto \u00e0 de Santa Rita de C\u00e1ssia que o tio exibia na assobradada casa da av\u00f3 materna. Nem pequena o suficiente para n\u00e3o se impor no meio dos seus brinquedos.<\/p>\n<p>Outra vez a m\u00e3e&#8230; Zelosa, ela entendeu o que se passava na mente do menino.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 para brincar, n\u00e3o. \u00c9 para voc\u00ea olhar todos os dias. E pedir prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong><\/p>\n<p>Primeiro, o santo foi parar em cima do guarda-roupa.<\/p>\n<p>Mas, ele reclamou.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguia ver direito. E o \u2018brinquedo\u2019 era dele.<\/p>\n<p>A m\u00e3e sorria, pegava um banquinho, subia e trazia o santo guerreiro para perto das m\u00e3os do garoto sonhador.<\/p>\n<p>\u2014 Pede a b\u00ean\u00e7\u00e3o, pede filho.<\/p>\n<p>Ele gesticulava rapidamente o sinal da cruz. Mas, em seu pensamento, era parceiro do pr\u00f3prio cavaleiro que morava na lua e, destemido, enfrentava o drag\u00e3o, com sua lan\u00e7a justiceira.<\/p>\n<p>\u2014 Ele \u00e9 pr\u00edncipe, m\u00e3e?<\/p>\n<p>Sem ter a precis\u00e3o da resposta, a m\u00e3e abria um sorriso e recorria \u00e0 f\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um santo, filho. Um santo guerreiro, o corajoso Jorge da Capad\u00f3cia que se converteu ao catolicismo. E morreu martirizado.<\/p>\n<p><strong>4.<\/strong><\/p>\n<p>Demorou a entender.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, pudera!, n\u00e3o era esse o enredo que queria para sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u2014 Que bicho \u00e9 esse, m\u00e3e?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um drag\u00e3o que p\u00f5e fogo pelas ventas. Mas, n\u00e3o se assuste porque esse monstro n\u00e3o existe. \u00c9 s\u00f3 uma simbologia.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!, sei\u2026<\/p>\n<p>De novo a m\u00e3e a mudar o enredo da aventura. Ent\u00e3o, Tchinim desconversava. Mas, intimamente, n\u00e3o tinha d\u00favidas. Se o bicho aparecesse por ali, ele o enfrentaria com sua espada de madeira.<\/p>\n<p>Mas onde arranjaria um cavalo branco?<\/p>\n<p><strong>5.<\/strong><\/p>\n<p>Segunda, 23 de abril de 2007.<\/p>\n<p>Mais de 50 anos depois\u2026<\/p>\n<p>O homem acorda e, antes de ir para o trabalho, passa na casa da m\u00e3e. Vai tomar o caf\u00e9 da manh\u00e3, r\u00e1pido, mas obrigat\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014 A senhora est\u00e1 bem? Tomou os rem\u00e9dios?<\/p>\n<p>As perguntas de sempre que ficam sem respostas. Pois, desandam, m\u00e3e e filho, a falar das not\u00edcias do r\u00e1dio. Das irm\u00e3s distantes. Do neto dela \u2013 filho dele \u2013 que est\u00e1 um mo\u00e7o. Da vida como ela \u00e9 \u2013 e sempre ser\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Vou indo\u2026 Est\u00e1 na minha hora. B\u00ean\u00e7\u00e3o m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea esqueceu de rezar. Vai ver seu santo. Hoje \u00e9 Dia de S\u00e3o Jorge.<\/p>\n<p><strong>6.<\/strong><\/p>\n<p>Dona Yolanda d\u00e1 a costumeira risadinha quando v\u00ea que o filho faz meia\u00a0 volta e se encaminha para o quarto. Por alguns segundos, ele se posta diante da velha c\u00f4moda.<\/p>\n<p>Ali, num altar improvisado, o \u2018parceiro\u2019 divide espa\u00e7o com outros santos da devo\u00e7\u00e3o da senhora de 82 anos. A est\u00e1tua est\u00e1 intacta. S\u00f3 o branco do cavalo amarelecido pelo tempo. Mas, o porte do guerreiro continua impec\u00e1vel. Ainda e sempre na luta contra as for\u00e7as do mal.<\/p>\n<p>Sente-se em paz e protegido. Tamb\u00e9m se v\u00ea como um guerreiro. N\u00e3o ganhou todas as batalhas. Mas, preservou a capacidade amar e as infinitas possibilidades do sonho. N\u00e3o tem do que se arrepender. Fez e faz o caminho com o seu passo. Reza, agradece ao santo e ao milagre da vida.<\/p>\n<p>\u2014 Vai com Deus, filho. Que S\u00e3o Jorge o proteja. Hoje e sempre.<\/p>\n<p>\u2014 Am\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>7.<\/strong><\/p>\n<p>23 de abril de 2019.<\/p>\n<p>Sessenta e cinco anos depois.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m o chama de Tchinim. Apeou da montaria que, na verdade, nunca existiu. A m\u00e3e se fez saudade desde junho de 2015. O altar com a imagem agora est\u00e1 na estante ao lado dos livros e de outros santos que herdou da velha senhora.<\/p>\n<p>Na mem\u00f3ria, embates e lutas que sequer ousou sonhar. Tristezas, decep\u00e7\u00f5es, entende agora, foram apenas \u2013 e t\u00e3o somente \u2013 uma simbologia. Soube enfrent\u00e1-las com a coragem do menino que se fez homem e as b\u00ean\u00e7\u00e3os do guerreiro que se fez santo.<\/p>\n<p>Saber\u00e1 enfrentar o novo dia.<\/p>\n<p>Que S\u00e3o Jorge ilumine os nossos passos!<\/p>\n<p><em>E salve Jorge&#8230; <\/em><\/p>\n<p><em>Ogum, guerreiro.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Protetor do povo brasileiro<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mTYIFZSrSDk\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>*A cr\u00f4nica \u201cSalve Jorge\u201d foi originalmente publicada no Blog em 23 de abril de 2007. \u00a0Tamb\u00e9m fez parte do livro Volteios \u2013 Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios, lan\u00e7ado em 2010, pela Editora Terceira Margem. Resolvi adapt\u00e1-la para os nossos dias, pois mais do que nunca precisamos de um padroeiro. Por um Brasil de todos os brasileiros!<\/em><\/p>\n<h6><em><strong>Foto: arquivo pessoal<\/strong><\/em><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>23 de abril.<\/p>\n<p>\u00c9 dia de Jorge, o santo guerreiro.<\/p>\n<p>Sou devoto. 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