{"id":20508,"date":"2019-05-08T08:24:24","date_gmt":"2019-05-08T08:24:24","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=20508"},"modified":"2019-05-08T14:18:31","modified_gmt":"2019-05-08T14:18:31","slug":"o-super-heroi","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-super-heroi\/","title":{"rendered":"O super-her\u00f3i *"},"content":{"rendered":"<p>O pai era uma figura\u00e7a.<\/p>\n<p>At\u00e9 o fim da vida \u2013 morreu em 99, aos 82 anos \u2013 teve l\u00e1 suas manias; por vezes, indecifr\u00e1veis aos meus olhos de filho.<\/p>\n<p>Algumas, por\u00e9m, as cultivo como rel\u00edquias \u2013 uma v\u00e3 tentativa de prender o tempo no casulo da minha saudade.<\/p>\n<p>Copio descaradamente o pai no h\u00e1bito de aparar o bigode e deix\u00e1-lo mais fino, por exemplo.<\/p>\n<p>Nunca entendi, por\u00e9m, o \u2018m\u00e3o aberta\u2019 que o pai divertia-se em ser.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, ficava n\u00edtido que o estavam passando para tr\u00e1s em alguma negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E ele nem a\u00ed.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o vou ficar mais rico ou menos pobre por isso\u201d, comentava.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Talvez entre as mais antiga manias do Velho Aldo que me recordo estava a de terminar a noite assistindo a um telejornal, quase interagindo com os apresentadores.<\/p>\n<p>Mas isso l\u00e1 nos antigamente \u2013 d\u00e9cada de 50 \u2013\u00a0 quando a pioneira TV Tupi encerrava a programa\u00e7\u00e3o com uma edi\u00e7\u00e3o de o <em>Di\u00e1rio de S. Paulo na TV<\/em>,\u00a0 por volta das 22 horas.<\/p>\n<p>Para o menino que fui, significava alta madrugada.<\/p>\n<p>Carlos Spera, Jos\u00e9 Carlos de Moraes (o rep\u00f3rter Tico-Tico) e Maur\u00edcio Loureiro Gama (que eu achava parecido com o pai) comandavam o jornal, bem diferente dos atuais. Poucas imagens externas, quase todas vindas de ag\u00eancias internacionais, e muita fala\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas precursores do jornalismo televisivo.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 essa \u00e9poca, para mim, televis\u00e3o era um bom lugar para se ver os seriados de mocinhos e bandidos. Os primeiros sempre venciam ap\u00f3s surrar magnificamente os oponentes.<\/p>\n<p>Lembro especialmente os brasileiros Falc\u00e3o Negro e Capit\u00e3o Sete e os importados Roy Roger e Rintintin. Queria tanto conhec\u00ea-los em carne e osso. Mas eram seres que habitavam os confins de uma paleontol\u00f3gica TV Invictus, entre um tubo gigante e v\u00e1lvulas miraculosas.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo assim, gostava de acompanhar o Velho Aldo (ent\u00e3o ainda um quarent\u00e3o de estilo) na \u00e1rdua tarefa di\u00e1ria.<\/p>\n<p>Era divertido \u2013 e intrigante.<\/p>\n<p>O pai discutia, em voz alta e firmemente, os assuntos da noite com os jornalistas e eu\u2026<\/p>\n<p>Bem, eu ficava \u00e0 espera dos meus nacos de queijo.<\/p>\n<p>(Preciso lhes informar sobre outro h\u00e1bito do pai. Sempre trazia um peda\u00e7o grande de queijo \u2018duro\u2019, parmes\u00e3o, que cortava em cubos e, em meios aos debates, os devorava na ponta de uma pequena faca.)<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Certa noite, l\u00e1 est\u00e1vamos a cumprir o sacrossanto ritual. Quando ouvimos um estrondo assustador como se arrombassem a porta da cozinha.<\/p>\n<p>A Branquinha, uma cadela que t\u00ednhamos, se p\u00f4s a latir no quintal.<\/p>\n<p>Intu\u00edmos a cena.<\/p>\n<p>Seriam desalmados ladr\u00f5es?<\/p>\n<p>Estariam invadindo nosso rec\u00f4ndito lar, tal e qual os fac\u00ednoras dos seriados da TV?<\/p>\n<p>Foram segundos de apreens\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Logo a m\u00e3e e minhas irm\u00e3s apareceram na sala, com suas camisolas impec\u00e1veis. Todos com o cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o.<\/p>\n<p>O pai tamb\u00e9m aparentava um semblante aparvalhado.<\/p>\n<p>Mas, creio, n\u00e3o lhe restou outra alternativa.<\/p>\n<p>Cena de filme.<\/p>\n<p>Empunhou a faquinha \u2013 a tal do queijo, pouco maior que um canivete \u2013 e rumou para o imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p>Enfrentaria os meliantes\u2026<\/p>\n<p>\u2026 se meliantes houvesse.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u2014 Caspita!!! Caiu tudo aqui! &#8211; gritou desconsolado.<\/p>\n<p>Corremos para a cozinha.<\/p>\n<p>Vimos, ent\u00e3o, em cacos, uma leva de uns 20 azulejos que a umidade descolou da parede e, soltos, se projetaram ruidosamente ao ch\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>O velho casario, onde mor\u00e1vamos na Muniz de Souza 420, j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo.<\/p>\n<p>Pois \u00e9!<\/p>\n<p>Foi a primeira e \u00fanica vez que vi um super-her\u00f3i de perto.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><em>*Esta cr\u00f4nica foi\u00a0 publicada originalmente aqui, neste espa\u00e7o, em 7 de junho de 2008, com o t\u00edtulo de &#8220;Na Ponta da faca&#8221;. Tamb\u00e9m integrou a colet\u00e2nea \u201cO Natal, o Menino e o Sonho\u201d, que editei em 2017. Retorna hoje ao Blog por dois motivos: ganhar como ilustra\u00e7\u00e3o a foto que fiz no Estreito de Medina, que separa a bela Sic\u00edlia do territ\u00f3rio continental da regi\u00e3o da Cal\u00e1bria (que o pai tanto amava, mesmo sem conhecer) e tamb\u00e9m porque \u2013 e principalmente \u2013 hoje o Ald\u00e3o completaria 102 anos. Minha singela e saudosa homenagem.<\/em><\/p>\n<p><em>De quebra, trago-lhes uma sele\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es bem ao estilo do pai &#8230;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GR2_F6by9rc\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pai era uma figura\u00e7a.<\/p>\n<p>At\u00e9 o fim da vida \u2013 morreu em 99, aos 82 anos \u2013 teve l\u00e1 suas manias; por vezes, indecifr\u00e1veis aos meus olhos de filho.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20509,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-20508","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20508","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20508"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20508\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20514,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20508\/revisions\/20514"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20509"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20508"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20508"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20508"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}